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A constituição civil do clero de Daniel Ortega

'Regimes revolucionários — desde a França pós-1789 até a Rússia bolchevique — veem na fé cristã, organizada e independente, um inimigo essencial'

Daniel Ortega é responsável por repressão a ONGs | Foto: Reprodução/Twitter/X
Daniel Ortega é responsável por repressão a ONGs | Foto: Reprodução/X

A reportagem de Rachel Díaz sobre o crescente confisco de bens da Igreja Católica na Nicarágua mostra que o regime criminoso de Daniel Ortega atravessa uma fase ainda mais severa de radicalização: a expropriação já atingiu dezenas de imóveis — escolas, universidades, centros pastorais, fazendas, residências religiosas — e soma perdas avaliadas em dezenas de milhões de dólares.

Esse assalto institucional à liberdade religiosa e material não é um acaso, mas parte de um método revolucionário conhecido: primeiro se deslegitima juridicamente as instituições, depois se congela suas finanças, extinguem-se suas licenças e, em seguida, retira-se delas qualquer possibilidade de subsistência. Como relata o levantamento mais recente, de 2022 a 2025 foram confiscados pelo menos 39 imóveis da Igreja, incluindo seminários, cúrias, colégios e universidades.

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Nada disso é novidade, por óbvio. A história contemporânea já cansou de dar provas, com brutal clareza, que os regimes revolucionários — desde a França pós-1789 até a Rússia bolchevique — veem na fé cristã, organizada e independente, um inimigo essencial. A estratégia combina infiltração ideológica, estatização, perseguição simbólica e, finalmente, o uso da força, quando necessário. O que estamos vendo na Nicarágua é a reedição, em versão “socialismo do século 21”, desse roteiro trágico.

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O que a tentativa de destruição física do patrimônio eclesiástico revela é que, para o regime de Daniel Ortega, a Igreja não é apenas um remanescente de tradição religiosa, mas um espaço político de contestação — e, como tal, precisa ser varrido. Ao dissolver ordens religiosas, fechar meios de comunicação católicos, expulsar padres, freiras e seminaristas, congelar contas e expropriar propriedades, o Estado tenta cortar pela raiz qualquer foco de oposição espiritual, moral ou cultural.

O exemplo francês

Na França revolucionária, a Constituição Civil do Clero — que retirava a autonomia administrativa da Igreja, submetendo-a ao Estado e transformando os sacerdotes em funcionários públicos — foi promulgada em 1790. O documento abria com uma série de medidas restritivas:

  • destruía os benefícios não inerentes a cargos;
  • destituía dezenas de bispos, permitindo apenas um em cada departamento;
  • reduzia o número de arcebispos, que passavam a chamar-se “metropolitanos”; e
  • não admitia mais que um único cura em cada vila de até 10 mil habitantes ou comuna rural com uma área de duas léguas quadradas.

Determinava-se que bispos e curas deveriam ser escolhidos por sufrágio geral, via nomeação de conselhos locais. A instituição canônica passava a ser conferida aos bispos pelo metropolitano, e não pelo papa. Em caso de recusa, o tribunal civil designava outro prelado para o substituir. O papa era simplesmente informado das nomeações. Surgia, enfim, uma igreja cismática.

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O objetivo de todas essas iniciativas era pôr a Igreja na total dependência do Estado. Subjugava-se e secularizava-se o clero, obrigando-o a curvar-se à nova ordem, e colocando os valores seculares revolucionários acima dos de ordem espiritual, a lealdade à nação acima do amor a Deus.

E o processo escalonava. Em novembro, a Assembleia resolveu obrigar todos os sacerdotes a prestar juramento de fidelidade à Constituição Civil, sob pena de demissão e outras sanções. O cisma passava a ser obrigatório. Os clérigos que, sem prestar o juramento, insistissem em oficiar os cultos e exercer suas prerrogativas sacerdotais eram perseguidos, condenados e punidos como subversivos. O mesmo valia para leigos que colaborassem com a contrarrevolução. Essa foi a sucessão de etapas da perseguição religiosa na França revolucionária. Apenas um ano e meio após o início da Revolução, a Igreja já se encontrava inteiramente descaracterizada, subjugada e humilhada.

Da Rússia à Nicarágua de Daniel Ortega

daniel ortega ditador nicarágua
Daniel Ortega, ditador da Nicarágua, é acusado de perseguir todas as formas de oposição política | Foto: Divulgação/Presidência da Nicarágua

Deu-se o mesmo na Rússia comunista. Em 19 de março de 1922, Vladimir Lenin deu uma instrução muito clara em carta ao camarada Molotov e demais membros do Politburo:

“O confisco dos bens eclesiais, em particular dos mosteiros, abadias e igrejas mais ricos, deve ser conduzido com determinação implacável, sem interrupções e no tempo o mais breve possível”, escreveu Lenin. “Quanto maior o número de representantes do clero reacionário e da burguesia reacionária conseguirmos executar, melhor. Devemos ensinar a essas pessoas uma lição imediata, para que não ousem sequer pensar em qualquer resistência nas décadas seguintes.”

O que se passa na Nicarágua de Daniel Ortega, portanto, serve de alerta para toda a América Latina — especialmente para aqueles países em que o avanço do marxismo-leninismo encontra solo fértil em crises econômicas, desigualdades e desorientação cultural. O saque da Nicarágua mostra que a “normalização revolucionária” vai além da estatização econômica: mira as raízes profundas da identidade e da liberdade espiritual. O país da América Central não é um caso isolado. É um aviso — que deve ser levado a sério por todos, em especial os cristãos.

Leia também: “O Foro de São Paulo em ação”, artigo de Flávio Gordon publicado na Edição 155 da Revista Oeste

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