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A Paixão como plenitude do ser: a Páscoa com sentido mais profundo

'O sentido de nosso viver não é dado com a morte. Esta pode nos revelar o momento da nossa finitude'

páscoa e paixão de cristo
A Sexta da Paixão é a data que relembra e indica o percurso imposto a Jesus, precedido pela flagelação, em que carrega a cruz com a qual seria crucificado no Monte Calvário | Foto: Reprodução/Freepik

Por João Ibaixe Jr.*

A recente celebração da Sexta-feira Santa nos trouxe essas reflexões: que elas transcendam o rito e nos convoquem a essa urgência do ser.

A Sexta da Paixão é a data que relembra e indica o percurso imposto a Jesus, precedido pela flagelação, em que carrega a cruz com a qual seria crucificado no Monte Calvário. Paixão, neste contexto, significa sofrimento e a Sexta-feira Santa seria, assim, um dia de luto e comoção.

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Paixão em seu significado comum quer dizer um conjunto de sentimentos que se opõem à razão e é um termo que vem do latim arcaico “passio”. “Passio” era um termo importante para a escola estóica do século 3 a.C., porque traduzia a ideia de “perturbatio”, ou seja, tudo aquilo que perturbava a alma do filósofo, que deveria ser “impassibilis”, vale dizer, deveria manter-se livre de qualquer perturbação ou inquietação, para fazer uso da tranquilidade da razão. Desta noção deriva-se o significado hoje atribuído comumente ao termo paixão.

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Todavia, “passio” deriva da expressão grega “pathos”. Para os gregos, não havia nenhuma conotação pejorativa para o termo. Não era nenhuma perturbação ou inquietação, mas indicava a ideia de disposição da alma, que hoje pode ser traduzir por sentimento, entendida como uma disposição emocional complexa, a princípio, nem negativa, nem positiva. Sentimento pode ser de afeto, de tristeza, de amor, de aversão.

Não havia conotação pejorativa à priori que indicasse qualquer “perturbatio” para a razão. Ao contrário, podia mesmo servir de apoio para esta. “Pathos” para os gregos era algo que a alma suportava e a colocava em certa disposição, desta ou daquela maneira, dependendo de como se dava esse algo.

Da perturbação à Paixão

Somente no latim tardio e com os primeiros autores cristãos, “passio” começa a receber o sentido de submissão, principalmente submissão à injustiça. Com a ideia de submissão, o termo passa a ser sinônimo do verbo latino “suffrero”, que dá origem ao atual verbo “sofrer”. Com o caminhar da literatura cristã, passam a usar largamente paixão e sofrimento com o mesmo significado. Para os autores cristãos, porém, sofrimento era um mergulho apaixonado e fervoroso na direção da fraça divina.

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O advento das chamadas escolas literárias depois do renascimento, principalmente o barroco e o romantismo, conformaram a ideia de sofrimento à sua conotação negativa de padecimento, como um suportar de dores, injúrias e injustiças. O sofrimento tornou-se, assim, a experiência quase insuportável de algo que infundadamente se tem de carregar, com todo peso amargo e desprazeroso que isso provoca. Nos tempos modernos e atuais, em que a felicidade é um consumir e usufruir constantes, o sofrimento é quase uma maldição execrável e abominável e, mais ainda, injustificável.

Por causa disto, atualmente, somos inclinados a ver na Paixão de Cristo um dia de mortificação, no qual o enlutar-se é a conduta mais adequada e o entristecer-se o sentimento mais elocuente.

O sofrimento e a plenitude de Cristo

O exame acima mostra o contrário. O sofrimento de Cristo busca indicar um encontro. Um encontro da paixão como resgate daquela disposição da alma que nos leva ao sentido máximo de nossa existência. O sentido da existência de Cristo se deu na morte, porque com ela revelou-se sua natureza divina, seguida da ressurreição.

O sentido de nosso viver não é dado com a morte. Esta pode nos revelar o momento da nossa finitude. E essa angústia do fim pode vir a apontar para o real sentido da nossa existência. Aqui também reside o exemplo da crucificação de Cristo.

Apartado do luto, o significado da Paixão pode se dar como uma reflexão sobre o sentido de nosso existir. A morte de Cristo foi sua finitude, mas foi também a plenitude de realização de seu existir, como promessa anteriormente dada. Na morte, ele se efetivou como ser que era possível ser.

Na morte, não efetivamos nosso existir. Ao contrário, é no existir que efetivamos nosso ser a cada possibilidade que se nos abre e se realiza. Na existência realizamos nosso poder-ser.

A Paixão de Cristo, a Páscoa e o momento de reflexão

A Paixão de Cristo não é um dia para o luto, mas uma oportunidade de refletir e nos lançarmos perguntas. Qual a plenitude de meu existir? Quais as possibilidades de minha existência? Consigo vislumbrar aquilo que posso ser? Minha disposição de alma, meu “pathos”, é a que me permite encontrar-me com meu poder-ser?

Se a Paixão é a disposição da alma diante do destino, a Páscoa é a passagem — o movimento que atravessa a finitude para inaugurar o novo. Ela representa a vitória da possibilidade sobre a estagnação, confirmando que a plenitude do ser não se encerra no sofrimento, mas se realiza na capacidade de ressurgir.

Leia também: “Um pontífice além de rótulos”, artigo de Ana Paula Henkel publicado na Edição 268 da Revista Oeste

Nesse horizonte de possibilidades, a Páscoa surge não apenas como um feriado no calendário, mas como o símbolo máximo dessa transição. Se a Paixão é o “pathos” que nos coloca em movimento, a Páscoa é a celebração da vida que se renova, o instante em que o “power-ser” finalmente desabrocha, vencendo a estagnação do luto e a paralisia do medo.

Perspectiva de renovação

É sob essa perspectiva de renovação que a Páscoa ganha seu sentido mais profundo. Celebrar a Páscoa dentro desta reflexão é, portanto, assumir o compromisso com a própria existência. É compreender que, após o mergulho fervoroso na direção da graça e o encontro com o sentido de nosso viver, o que nos resta é o florescimento constante desse “poder-ser” que a vida, em sua face mais vibrante, nos oferece.

Celebrar a Páscoa, portanto, é validar o percurso da Paixão. É compreender que a plenitude do ser exige a coragem de atravessar os próprios desertos para, enfim, experimentar a ressurreição cotidiana de nossos propósitos e sonhos mais elevados. Que essa disposição nos acompanhe para além do calendário.


*Advogado criminalista e ex-delegado de polícia. Doutor em Filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. É coordenador do Grupo de Criminologia Filosófica.

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