A Rússia subestimou a unidade ocidental, diz cientista político

Segundo Gunther Rudzit, professor de Relações Internacionais na ESPM, o Kremlin não esperava tantas sanções econômicas
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Gunther Rudzit é doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP)
Gunther Rudzit é doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP) | Foto: Divulgação

Há cerca de um mês, a invasão da Ucrânia pela Rússia parecia improvável. Analistas políticos internacionais não imaginavam que o Kremlin ordenaria bombardeios massivos em cidades como Luhansk, Donetsk, Carcóvia, Mariupol, Crimeia, Odessa e Kiev, a capital. Centenas de mísseis russos destruíram prédios residenciais, bases militares e infraestruturas.

Mas o que motivou a escalada militar do conflito? Segundo Gunther Rudzit, doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP) e professor de Relações Internacionais na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), a resposta está em Moscou. Especificamente, em Vladimir Putin. “Durante os últimos dois anos, o presidente russo manteve contato apenas com um círculo pequeno de assessores, considerados nacionalistas e radicais”, explicou, em entrevista concedida a Oeste. “Analistas consideram que Putin tornou-se paranoico. Por isso, os governos ocidentais passaram a prestar atenção ao perfil psicológico de Putin, a fim de decifrá-lo.”

A seguir, os principais trechos da entrevista.

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A expectativa era que a Rússia não levasse adiante uma invasão em larga escala. O que fez esse cenário mudar?

Analistas europeus consideram que Putin tornou-se paranoico, de certa maneira. Durante os últimos dois anos, o presidente russo manteve contato apenas com um círculo pequeno de assessores, considerados nacionalistas e radicais. Moscou é administrada de forma autoritária; então, a figura do líder tem papel gigantesco na tomada de decisão. Em regimes democráticos, os presidentes e primeiros-ministros precisam de autorização do Congresso para declarar guerra. Na Rússia, por sua vez, o Parlamento é um anexo do Kremlin. Por isso, os governos ocidentais passaram a prestar atenção ao perfil psicológico de Putin, a fim de decifrá-lo.

Ao considerarmos a situação atual, o senhor entende que a Rússia conseguirá anexar todo o território ucraniano?

A Ucrânia é um pouco maior que Minas Gerais, com população equivalente ao Estado de São Paulo. Ou seja, não é um país pequeno. Para ocupar militarmente uma nação desse tamanho, seriam necessários cerca de 700 mil soldados. Atualmente, o Exército da Rússia possui 900 mil. Isso mostra a dificuldade que Putin terá em Kiev. Além disso, a população ucraniana mostrou não aceitar a invasão. Os militares russos não foram recebidos como libertadores. Isso ficou claro. O Kremlin não imaginava tamanha resistência. Ao mesmo tempo, os países ocidentais continuarão a oferecer armas e equipamentos para os combatentes ucranianos.

Quais foram os possíveis erros de cálculo do Exército da Rússia?

O problema é similar ao que aconteceu na Guerra das Falklands. A ditadura argentina, comandada por um grupo fechado de políticos, resolveu enfrentar a Inglaterra. Esses políticos adotaram uma visão de grupo — imaginaram que estavam certos e descartaram as ideias externas. Aparentemente, ocorreu a mesma situação com a Rússia. O Kremlin avaliou que a estrutura militar e o governo da Ucrânia seriam desintegrados entre 24 e 48 horas.

Diplomatas russos e ucranianos se encontraram quatro vezes para conversar sobre eventual cessar-fogo. Qual a chance de firmarem algum acordo de paz?

As reuniões servem para ganhar tempo. A Rússia quer se reestruturar, visto que sua estratégia se mostrou falha. O Kremlin ignorou um princípio básico de uso da força: concentração de poder, de maneira a penetrar no território do oponente e destruí-lo. A Rússia decidiu avançar em três linhas [norte, sul e leste], o que provocou a fragmentação dos soldados. A Ucrânia, por sua vez, quer ganhar tempo para receber os equipamentos militares da União Europeia.

Essa mudança de estratégia pode alterar o cenário do conflito?

Sim. Os ucranianos receberam milhares de Stingers — mísseis capazes de fazer um estrago gigantesco. A Rússia, por outro lado, pretende cercar as cidades ucranianas com seus tanques. Essa estratégia é similar àquela escolhida pelo Kremlin durante a invasão da Chechênia, em 1998. O Exército da Rússia cercou a capital do país, Grózni, e ordenou que os rebeldes deixassem imediatamente a região. A cidade foi bombardeada até virar escombros. Ninguém sabe exatamente quantas pessoas morreram naquele episódio. Então, quando Moscou ordena que a população ucraniana deixe Kiev, é algo sério.

“A Rússia é um leopardo que matou um porco-espinho e está tentando engoli-lo”

A Rússia pretende dominar outros países do Leste Europeu?

O objetivo dos russos é apenas controlar a Ucrânia e instalar um governo pró-Moscou no país. Putin sabe que, se invadir a Polônia ou outra nação da Otan, provocará uma guerra nuclear. Caso isso aconteça, será o fim da “Mãe Rússia”. E Putin quer proteger seu país, seus interesses e sua população. Ele ainda tem o mínimo de instinto de sobrevivência. O Kremlin pode destruir as Forças Armadas da Ucrânia e bombardear as cidades do país, mas não será capaz de controlá-lo. A Rússia é um leopardo que matou um porco-espinho e está tentando engoli-lo. Não conseguirá.

Em termos geopolíticos, quais foram os equívocos de Putin?

O Kremlin subestimou a unidade ocidental e, principalmente, seus empresários. Depois da invasão da Georgia, em 2008, e da Crimeia, em 2014, as sanções que foram impostas à Rússia não abalaram profundamente a economia do país. Desta vez, contudo, as retaliações são gigantescas. O rublo está derretendo, as empresas estão vendendo seus ativos. O maior símbolo dessa série de sanções é o posicionamento da Suíça, que decidiu congelar os bens russos. Os suíços adotaram uma postura neutra durante a Segunda Guerra, não bloquearam nem os ativos dos nazistas. O país, reconhecido por receber dinheiro suspeito do mundo inteiro, resolveu abrir mão da riqueza dos russos.

As sanções podem dissuadir Putin da ideia de controlar a Ucrânia?

Essa é a pergunta de US$ 1 trilhão. Os governos ocidentais estão tentando entender as motivações de Putin. Ao que tudo indica, o ex-agente da KGB não pretende recuar. Outro cenário possível é Putin controlar a parte leste da Ucrânia e instalar um governo pró-Moscou na região. Porém, seu fantoche não conseguiria governar. De qualquer forma, os cenários não são bons para o futuro dos ucranianos.

Leia também: “Devagar, malfeito e complicado”, reportagem de capa publicada na Edição 102 da Revista Oeste

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