Como será o mundo pós-pandemia?

Uma lição de casa para os confinados [caption id="attachment_238740" align="alignnone" width="1920"] Foto: Gerd Altmann/Pixabay[/caption] Dos inúmeros memes gerados pela pandemia, chama atenção o atribuído a uma bióloga espanhola, sugerindo que…
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Uma lição de casa para os confinados

coronavirus
Foto: Gerd Altmann/Pixabay

Dos inúmeros memes gerados pela pandemia, chama atenção o atribuído a uma bióloga espanhola, sugerindo que convoquemos astros do futebol, como Messi e Cristiano Ronaldo, para providenciar um remédio contra a covid-19. Afinal, argumenta, não é a eles que a sociedade destina as mais polpudas remunerações, enquanto reserva aos cientistas e pesquisadores da saúde retribuição e prestígio infinitamente menores?

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A comparação vale, é claro, para inúmeros outros descompassos nessa questão – como entre ídolos da música pop e médicos da rede pública, ou professores e estrelas de cinema, por exemplo. Sem falar no abismo, aqui no Brasil, entre os políticos e a cúpula privilegiada do funcionalismo e aqueles da base da pirâmide que realmente merecem ser chamados de servidores públicos.

Só que esse disparate, como tantos temas pouco glamorosos como saneamento e desnutrição, por exemplo, não conseguia atrair, até agora, a atenção que merece. Estávamos entretidos demais com debates considerados mais prementes, a exemplo de banheiros transgêneros, apropriação cultural e revisão de livros escolares para adequá-los ao discurso politicamente correto.

Bastou, contudo, o mundo entrar neste inimaginável modo pause para outro vírus, o da reflexão, começar a infectar saudavelmente as mentes. Com milhões de pessoas confinadas, conectadas, e de repente ociosas, surge inescapavelmente a questão: o que é realmente importante na vida? Quais deveriam ser nossas prioridades como indivíduos e sociedade?

Pois, diante da mais absoluta indefinição sobre o que o futuro nos reserva, apenas uma certeza prevalece. O mundo pós-pandemia será diferente do que o que temos hoje. E, embora não tenhamos ideia do como, sabemos que ele está sendo moldado agora, pelas decisões políticas e práticas que serão tomadas e as lições que aprenderemos.

No vasto leque que vai das mais catastróficas distopias até a esperança dos otimistas inveterados, há muita asneira sendo disseminada. Para os ambientalistas, quem está nos castigando com essa lição amarga é a natureza agredida – embora não esclareçam se as epidemias dos séculos passados também podem ser explicadas pela emissão de gases de efeito estufa. Já na visão dos místicos, é o universo que nos obriga a retomar um equilíbrio cósmico supostamente perdido.

Os anticapitalistas apressam-se a culpar a ganância do mercado, que consideram intrinsecamente malévolo, um ente demoníaco, feito as bruxas, e não o reflexo da própria ação humana, organizada de forma livre ao longo da história. Enquanto os brasileiros de bom senso tentam calcular o que os cerca de R$ 80 bilhões desperdiçados na reforma e construção de estádios para a Copa do Mundo e outros tantos zilhões perdidos no ralo da corrupção das últimas décadas comprariam em termos de leitos de UTI e respiradores artificiais.

Felizmente, temos acesso também a mentes brilhantes que sugerem algumas reflexões críticas como lição de casa para a quarentena. Será que o mundo não estava mesmo acelerado, doentio e anacrônico demais? A demandar uma revisão radical de prioridades, paradigmas e práticas?

Vários estudiosos da disrupção digital, como Manuel Castells, Pierre Lévy, Don Tapscott e Peter Diamandis, entre outros, vêm há tempos alertando que ela iria tornar obsoletas quase todas as instituições e sistemas sociopolíticos tradicionais. O trabalho inspirado nas linhas de montagem tayloristas e o ensino pautado no acúmulo de informações, entre outros modelos da era industrial, por exemplo, e até mesmo a democracia representativa, já não fariam mais sentido numa sociedade conectada em rede, que dispensa intermediações e funciona como um grande cérebro coletivo.

Seriam insustentáveis, da mesma forma, o hiperconsumo e a obsolescência programada dos produtos industriais, uma das faces perversas da prosperidade capitalista das últimas décadas, porque geram imenso desperdício de recursos não renováveis e outros impactos ambientais severos.

Ou seja, apesar de seu incalculável custo humano e econômico, que ainda nem conseguimos dimensionar, a pandemia poderia representar uma oportunidade única para tentarmos reinventar, para melhor, o mundo como o conhecemos. Afinal, estamos em meio a uma revolução. E a história ensina que podemos saber como elas começam, mas nunca como terminam.

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12 comentários Ver comentários

  1. A dor ensina a nos portarmos com mais responsabilidade e vigilância diante da vida. Entenda como dor, todas as ações humanas que nos forçam a tomar novos rumos regenerativos, mesmo que ela não nos atinja pessoalmente, ela atinge de modo determinante o coletivo. É um aprendizado, e o resultado da lei de causa e efeito que conduz nossa existência.

  2. Acredito que a humanidade possa,a partir desta pandemia passar a agir segundo o espírito que norteou inicialmente a Liga das Nações,ao final da Primeira Guerra e a ONU após a Segunda.
    Infelizmente a natureza humana não vai colaborar para isto.

  3. O mundo não vai mudar em absolutamente nada. Até parece que não conhecemos o ser humano.
    No dia em que for decretado o fim da pandemia, as pessoas retomam suas vidas exatamente como deixaram lá atrás. Com todas suas maselas, vícios e virtudes.

    1. Faz tempo que alguem precisava escrever sobre esta barbaridade dos altos salarios para quem nao produz nada util como jogadores de futebol , etc. E quem precisa ser endeuzados sao os medicos, pesquisadores que salvam vidas

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