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Israel: a economia que desafiou a guerra

O setor de hightech israelense luta para resistir ao choque do conflito e colhe os frutos de sua resiliência

Bandeira israelense no túmulo de um soldado caído no Cemitério Militar no Monte das Oliveiras, em Jerusalém – 8/5/2011 | Foto: Baz Ratner/Reuters
Bandeira israelense no túmulo de um soldado caído no Cemitério Militar no Monte das Oliveiras, em Jerusalém – 8/5/2011 | Foto: Baz Ratner/Reuters

O brutal ataque do grupo terrorista Hamas ao sul de Israel, em 7 de outubro de 2023, provocou ondas de choque em todas as direções — uma delas atingiu em cheio a economia israelense. Não apenas em razão do trauma, do caos e da drenagem de recursos que se espalharam por todo o país, mas por conta de uma característica peculiar: as Forças Armadas de Israel são, em sua maior parte, formadas pela população civil. E, quando centenas de milhares de reservistas deixaram seus empregos para ir ao front, um dos setores mais atingidos foi justamente o hightech, responsável por mais da metade das exportações israelenses.

Para entrar em um combate que, como já se sabia, seria longo e teria diversos fronts (sete, no total), toda a força da reserva militar foi convocada. Em menos de uma semana, 300 mil reservistas, homens e mulheres de todos os perfis e idades, foram agregados ao esforço de guerra. Como boa parte dos profissionais mais qualificados do país atua justamente na indústria de tecnologia, o impacto foi imediato.

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A maior parte dos convocados era composta de pessoas entre 23 e 50 anos — justamente a faixa etária predominante entre a mão de obra do setor de hightech, que representa 17% do PIB, 11,5% dos empregos e 57% das exportações do país. “As empresas de hightech enfrentaram uma maciça falta de mão de obra, porque entre 15% e 20% dos funcionários — e, por vezes, bem mais — foram, e continuam sendo ainda hoje, convocados para o Exército como reservistas”, explica o CEO do Instituto de Inovação de Israel (IIA), Dror Bin. As startups sentiram um impacto ainda maior: em muitos casos, as operações tiveram de ser suspensas ou, por vezes, abandonadas, por absoluta falta de pessoal.

Também funcionários israelenses que estavam baseados no exterior retornaram para Israel — a maioria deles nem ao menos esperou a convocação oficial do Exército. Uma vez que todas as companhias aéreas internacionais cancelaram voos de e para Israel, as linhas israelenses levaram dias para conseguir trazer a todos, em voos de resgate.

O mercado global respondeu com desconfiança ao início da guerra. Ciclos de captação de recursos foram interrompidos, negociações foram suspensas e investimentos foram congelados.

Durante meses, os céus de Israel estiveram fechados, impossibilitando também as viagens de negócio. Esse fato prejudicou não apenas a rotina dos empresários e funcionários do setor, como também aumentou a desconfiança dos investidores em relação ao mercado israelense. Muitos, em Israel e fora dela, afirmaram que haveria prejuízos insuperáveis no curto prazo.

A mídia se encheu de manchetes avassaladoras, prevendo a quebra de empresas consolidadas, o fechamento de milhares de startups e a saída das gigantes multinacionais do país.

Os prognósticos, porém, não se confirmaram. Os números divulgados nos dois anos seguintes mostraram que, apesar do choque inicial, o setor absorveu o impacto da guerra, recuperou o ritmo de crescimento e voltou a atrair investimentos.

Resiliência inédita

O setor de hightech israelense demonstrou uma resiliência inédita. O relatório da Autoridade de Inovação de Israel (IIA, na sigla em inglês) mostra que, em praticamente todos os indicadores relevantes, o ecossistema manteve sua força e, em alguns casos, superou o desempenho dos anos anteriores.

Praticamente 100% das gigantes mundiais contam com centros de pesquisa e desenvolvimento em Israel, a exemplo de empresas como Google, Microsoft, Facebook e Intel. Elas não apenas permaneceram, como cresceram em número: 35 novas empresas chegaram ao país, totalizando 511. O número de startups fundadas no ano passado também foi superior ao de anos anteriores: foram 743 em 2023, 750 em 2024 e 775 em 2025.

Em termos de captação de recursos, o setor também registrou crescimento. Empresas de hightech levantaram US$ 15,5 bilhões em investimento privado em 2025, valor bem superior aos mais de US$ 12 bilhões de 2024, segundo dados da Startup Nation Central, ONG privada que promove a inovação israelense.

O crescimento da indústria de defesa

Nos últimos dois anos, houve um pico no desenvolvimento de tecnologias de defesa. “Este é o setor de maior demanda, deixando para trás a liderança da cibersegurança”, afirma Amir Baram, diretor-geral do Ministério da Defesa. “Isso aconteceu não apenas por causa da guerra no Oriente Médio, mas também do conflito entre Rússia e Ucrânia e das tensões com a China.” Segundo a Startup Nation Central, o número de startups israelenses desse setor dobrou, de 160 para 312, entre julho de 2024 e abril de 2025.

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Há alguns aspectos peculiares que levaram a esse quadro e que estão diretamente ligados ao campo de batalha. Durante estes quase três anos de conflito, segundo Baram, “mais de 300 startups que atuam em colaboração com o Departamento de Desenvolvimento e Pesquisa do Ministério da Defesa de Israel participaram de operações durante a guerra”. Trata-se de tecnologias que ainda não estavam inteiramente finalizadas e testadas e que, ainda assim, foram usadas em campo.

Experiência no campo de batalha

Há, por fim, uma característica que diferencia os “startupistas” e empresários israelenses dos demais empreendedores ao redor do mundo: muitos deles passaram, ou ainda passam, pela experiência do campo de batalha. Talvez não haja nenhum outro empreendedor que conte com essa combinação de teoria e prática.

Guerras e seus efeitos nunca devem ser comemorados. Ainda assim, o caso israelense demonstra como um país pode transformar uma crise profunda em um impulso para inovar. “A vantagem de Israel nunca foi o tamanho de seu mercado ou suas reservas naturais, mas a habilidade de pensar diferente, correr riscos e transformar descobertas em realidade”, resume o presidente da IIA, Alon Stopel.

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