Comunidade cristã é alvo de intolerância religiosa e perseguição na Índia

Reportagem do jornal The New York Times relata episódios de intolerância praticados por hindus radicais
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Bandeira da Índia | Foto: Pixabay
Bandeira da Índia | Foto: Pixabay

Os cristãos estão sofrendo uma série de agressões na Índia. Reportagem do jornal norte-americano The New York Times relata episódios de intolerância praticados por hindus radicais.

A publicação descreve um ataque que aconteceu em 26 de janeiro no centro cristão Satprakashan Sanchar Kendra, na cidade de Indore.

Leia também: “Agressões gratuitas”, reportagem da Revista Oeste que debate como os ataques do movimento LGBT+ a símbolos cristãos prejudicam a causa gay e dificultam o debate sobre religião e homossexualidade

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Os cristãos estavam no meio de um hino quando a multidão chutou a porta. Vestidos de amarelo, os homens pularam no palco e gritaram slogans da supremacia hindu.

Socaram pastores na cabeça, jogaram mulheres no chão, fazendo com que crianças apavoradas corressem para debaixo de suas cadeiras.

“Eles continuaram nos batendo, arrancando cabelos”, disse à reportagem Manish David, um dos pastores agredidos. “Eles gritaram: ‘O que você está fazendo aqui? Que músicas você está cantando? O que você está tentando fazer?’”

A polícia chegou logo, mas os policiais não tocaram nos agressores. Em vez disso, prenderam os pastores e outros presbíteros da igreja, que ainda estavam tontos por terem levado socos na cabeça.

Os cristãos foram acusados de violar uma lei recém-criada que tenta conter as conversões religiosas, uma das muitas medidas que geraram uma onda de violência contra os cristãos indianos.

O pastor David afirma que não estava convertendo ninguém. Mas o ataque organizado contra sua igreja foi impulsionado por uma crescente histeria anticristã que está se espalhando pela vasta nação, lar de uma das maiores e mais antigas comunidades cristãs da Ásia, com mais de 30 milhões de adeptos.

Vigilantes anticristãos estão varrendo vilas, invadindo igrejas, queimando livros, atacando escolas e fiéis. Em muitos casos, a polícia e membros do partido governante da Índia os estão ajudando, revelam documentos do governo e dezenas de entrevistas.

Igreja após igreja, o próprio ato de adoração se tornou perigoso, apesar das proteções constitucionais para a liberdade de religião. Apenas em 2021, foram mais de 400 ataques graves a cristãos no país, segundo a Comissão de Liberdade Religiosa da Irmandade Evangélica da Índia (EFI).

Há duas semanas, o governo da Índia se recusou a renovar a licença de financiamento estrangeiro para a instituição de caridade fundada por Madre Teresa de Calcutá, e congelou as contas do grupo Missionárias da Caridade.

O grupo tem milhares de freiras supervisionando projetos como lares para crianças abandonadas, escolas e clínicas. No dia de Natal, o Ministério do Interior da Índia anunciou que não renovou o registro devido a “informações adversas”.

Os hindus há muito tempo acusam a instituição de caridade de usar seus programas para converter pessoas ao cristianismo.

A população católica da Índia é a segunda maior entre os países asiáticos, atrás das Filipinas, com cerca de 18 milhões de pessoas. No entanto, os cristãos representam uma minoria de cerca de 2% da população indiana, que é de cerca de 1,4 bilhão.

Para muitos extremistas hindus, os ataques são justificados – um meio de prevenir conversões religiosas. Para eles, a possibilidade de que alguns indianos, mesmo um número pequeno, troquem o hinduísmo pelo cristianismo é uma ameaça ao sonho de transformar a Índia em uma nação hindu pura.

Muitos cristãos ficaram com tanto medo que tentam se passar por hindus para se proteger. “Eu simplesmente não entendo”, disse ao The New York Times Abhishek Ninama, um fazendeiro cristão, que olhou com desânimo para uma igreja rural destruída neste ano. “O que é que fazemos que os faz nos odiar tanto?”

A pressão é maior no centro e no norte da Índia, onde o partido governante do primeiro-ministro Narendra Modi domina e grupos cristãos evangélicos estão fazendo incursões entre os hindus de castas inferiores, embora discretamente.

Os pastores realizam cerimônias clandestinas à noite. Conduzem batismos secretos. Distribuem Bíblias em áudio que parecem pequenos rádios transistores para que fazendeiros analfabetos possam ouvir disfarçadamente as escrituras enquanto aram seus campos.

Desde sua independência em 1947, a Índia tem sido a maior experiência de democracia do mundo. Às vezes, a violência comunitária, muitas vezes entre hindus e muçulmanos, tem testado seu compromisso com o pluralismo religioso.

A questão das conversões do hinduísmo ao cristianismo é um assunto especialmente delicado, que incomoda o país há anos e até atraiu Jawaharlal Nehru, o primeiro premiê da Índia, um feroz defensor dos ideais seculares da Índia. Nos últimos anos. Os crescentes ataques aos cristãos são parte de uma mudança mais ampla, na qual as minorias se sentem menos seguras.

Modi está enfrentando uma pressão internacional crescente para conter seus apoiadores e parar a perseguição de muçulmanos e cristãos.

A Comissão dos Estados Unidos sobre Liberdade Religiosa Internacional, um órgão governamental, recomendou que a Índia fosse colocada em sua lista por “graves violações da liberdade religiosa” – uma acusação que o governo Modi negou veementemente.

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