Um enviado da União Europeia esteve em Teerã no começo de maio para tentar reviver o acordo nuclear que o ex-presidente norte-americano Barack Obama negociou com o Irã. Para muitos analistas, foi o último esforço ocidental para fazer o regime iraniano aceitar um acordo.
No entanto, o Irã mantém a dureza de negociações e acredita “estar ganhando” a queda de braço para avançar com seu programa nuclear sem supervisão ou restrições vindas do exterior. Essa é a conclusão de um editorial do The Wall Street Journal, assinado por Reuel Marc Gerecht, ex-agente da CIA (sigla para Agência Central de Inteligência) especialista em Irã, e pelo diplomata Ray Takeyh.
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Durante os últimos 16 meses de negociações, os Estados Unidos teriam concedido ao Irã alívio significativo de sanções. Washington e Teerã concordaram, como fizeram em 2015, em ignorar algumas perguntas da Agência Internacional de Energia Atômica sobre o urânio manipulado não declarado do país — um pré-requisito para uma bomba.
Mas um detalhe fez as tratativas emperrarem. Os norte-americanos não aceitaram retirar a Guarda Revolucionária Islâmica da lista de organizações terroristas. Recentemente, o governo de Joe Biden chegou a colocar na mesa que poderia revogar a classificação, mediante uma promessa pública do líder religioso supremo do Irã, Ali Khamenei, de renunciar às práticas de terrorismo. Não houve acordo.
Assim, hoje o clima em Teerã é triunfal. A República Islâmica sobreviveu a sanções, manifestações locais antirregime, assassinatos de seus cientistas, uma guerra na vizinha Síria, distúrbios anti-iranianos no Iraque e uma pandemia grosseiramente mal administrada que quebrou o sistema de saúde do país.
O líder supremo do país e seus subordinados diretos adoram repetir publicamente que fracassou a campanha de ‘pressão máxima’ dos Estados Unidos contra o país. O slogan revolucionário “A América não pode fazer nada” ecoa habitualmente nas orações de sexta-feira.
Até recentemente, Khamenei teve de lutar contra os presidentes iranianos que tentavam impor agendas próprias. Akbar Hashemi-Rafsanjani (1989-97), que fez de Khamenei o líder supremo em 1989, sempre quis fazer tudo do seu jeito; já Mohammad Khatami (1997-2005) buscou reformas liberais; Mahmoud Ahmadinejad (2005-13) tentou justiça econômica; e Hassan Rouhani (2013-21) procurou engajamento global e investimento estrangeiro.
Agora é diferente. Com um ano de mandato, Ebrahim Raisi, uma nulidade política, limita-se a discursos sobre boa governança. Na prática, o líder supremo ofuscou totalmente a Presidência. A teocracia abandonou qualquer pretensão de debate interno em favor de uma ditadura moderna cada vez mais ligada a um credo islâmico severo.
Ao depender de recursos internos e do comércio com a China, a República Islâmica do Irã pode ficar mais pobre, mas conseguirá ser independente. Em paralelo, continua caminhando para dominar a ciência nuclear. O desenvolvimento de uma bomba permitiria ao país intimidar seus inimigos de forma mais eficaz e estabelecer uma predominância regional.
Enquanto isso, a guerra na Ucrânia ajudou a reforçar a paranoia anti-EUA na República Islâmica. Os diplomatas do Irã apoiam a Rússia enquanto pedem um cessar-fogo. Enquanto isso, domesticamente o segmento político do país alega que este é o custo de confiar na América, em referência ao martírio enfrentado pelos ucranianos.
Nessa teoria iraniana, Washington fez a Ucrânia acreditar que poderia ser parte do Ocidente, acenando com a adesão do país à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Segundo a crença local, os EUA pretendiam provocar uma invasão russa e mobilizar a Europa contra Vladimir Putin.
Por isso, a intenção do líder supremo Khamenei é seguir mantendo os norte-americanos implorando por concessões iranianas, até o reconhecimento da Guarda Revolucionária Islâmica como uma força legítima. E, enquanto arrasta as tratativas sobre regulação, o programa nuclear vai avançando.
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