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Israel: morte de Rabin completa 30 anos

Primeiro-ministro foi assassinado por extremista judeu, em momento que mudou a história do país e teve repercussões até 7 de outubro

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Itzhak Rabin foi primeiro-ministro de Israel em duas ocasiões | Foto: Reprodução/GPO

O primeiro-ministro de Israel, Itzhak Rabin, de 73 anos, havia terminado de discursar na então Praça Reis de Israel, em Tel-Aviv, diante de uma multidão. Nesta terça-feira, 4, se completam 30 anos desde aquele dia, em 1995. Rabin falou de uma nova era para o país, depois da assinatura do segundo Acordo de Oslo, em setembro daquele ano.

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No primeiro acordo, em 1993, Israel e a liderança palestina, comandada por Yasser Arafat, se reconheceram mutuamente e definiram que, em cinco anos, buscariam uma solução negociada para a região. O segundo acordo avançou ainda mais: detalhou a expansão da autonomia palestina e dividiu a Cisjordânia em Áreas A, B e C, cada uma com níveis diferentes de controle palestino e israelense.

O acordo previa o estabelecimento de um autogoverno palestino provisório, a retirada de tropas israelenses de partes dos territórios e um cronograma para eleições palestinas.

“Eu gostaria de agradecer a cada um e a todos os que se encontram aqui hoje, para tomar uma posição contra a violência e a favor da paz”, disse Rabin, diante de cerca de 100 mil pessoas.

“Este governo, que eu tive o privilégio de liderar com meu amigo Shimon Peres [ministro das Relações Exteriores], decidiu dar uma chance à paz. Uma paz que solucionará a maior parte dos problemas israelenses.”

Terminada a fala, Rabin desceu a escada da prefeitura, em meio à balbúrdia ainda presente. Ao chegar à Rua Ibn Gabirol, entre a prefeitura e o Shopping Gan Ha’Ir, o extremista judeu, Yigal Amir, então com 25 anos, se aproximou.

Leia também: “Espírito antidesportivo”, reportagem de Eugenio Goussinsky publicada na Edição 293 da Revista Oeste

Sem ser percebido pelos seguranças, desferiu três tiros à queima-roupa no premiê. O terceiro projétil atingiu de raspão o segurança de Rabin, Yoram Rubin, que sobreviveu.

Levado ao Sourasky Medical Center (Ichilov Hospital), em Tel-Aviv, Rabin morreu em consequência de hemorragia aguda e perfuração nos pulmões.

O assassino, contrário aos Acordos de Oslo, disse que praticou um ato de defesa do Estado judeu. A sua defesa foi totalmente rejeitada, dos pontos de vista legal e ético, sendo considerada inaceitável mesmo à luz da lei religiosa.

A Justiça teve de analisar as escrituras para embasar seu argumento e contrapor a tese de Amir, transformando-a em um delírio de quem praticou o terror. Trouxe em sua decisão o conceito de que, ao assassinar um líder democraticamente eleito, sob o pretexto de cumprir a vontade divina, ele cometeu um hillul Hashem, uma grave profanação do nome de Deus.

Isso além do que determinava a legislação, que previa pena perpétua para assassinatos de primeiros-ministros. Amir foi condenado a essa pena e a cumpre até hoje.

A partir daquele dia, ao contrário do que Rabin pregou em seu discurso, Israel mergulhou em uma divisão. As promessas de união feitas logo depois da tragédia logo se diluíram.

Rabin foi o primeiro primeiro-ministro nascido em Israel. Ele nasceu no dia 2 de março de 1922, em Jerusalém. Até então, todos os anteriores eram do Leste Europeu e tinham imigrado para o país nos anos 1920 e 1930.

Ele participou dos primeiros movimentos das forças de segurança sob administração britânica e, depois da Guerra da Independência, em 1948, tornou-se chefe das Forças Armadas e atuou na vitória na Guerra dos Seis Dias, em 1967.

Depois ingressou na política e foi o quinto primeiro-ministro de Israel, cumprindo dois mandatos: de 1974 a 1977 e de 1992 até seu assassinato.

No dia de sua morte, Rabin deixou claro que se via com a missão de colocar Israel em um período de paz. No entanto, a população do país passou a desconfiar do processo e da polarização também de agentes do lado palestino, o que representava uma ameaça.

“É difícil compreender que já se passaram 30 anos desde que três balas atravessaram o coração da democracia israelense”, disse o presidente Isaac Herzog em discurso nesta segunda-feira, 3, no Memorial Rabin.

“Mas não é algo apenas do passado”, acrescentou, fazendo paralelo com o cenário dois anos depois de 7 de outubro de 2023.

“Conseguiremos deter o ódio a tempo? Trinta anos depois, vemos a mesma violência e discórdia dirigidas a autoridades eleitas de todos os partidos, nas redes sociais, nas escolas e nas comunidades árabes. A violência não é um direito democrático. Ela representa a destruição da democracia.”

União provisória com o 7 de outubro

Durante esse período, o grupo terrorista Hamas, com o objetivo de isolar Israel e enfraquecer sua democracia, lançava constantemente mísseis ao território israelense, até realizar os ataques de 7 de outubro.

Naquele momento, Israel se uniu novamente, ainda que dividido. Assim como ocorreu quando o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu decidiu atacar o Irã, que, segundo o governo, estava próximo de produzir armas nucleares.

O Knesset (parlamento de Israel), logo depois de 7 de outubro, aprovou o governo de unidade de emergência de Netanyahu para, conforme relatou a Reuters, “demonstrar sua determinação em lutar na guerra contra o Hamas em Gaza”.

“Muitos aplaudem o ataque a alvos militares e nucleares, mas a inquietação permanece enquanto o país se prepara para o que vem a seguir”, informou o The Guardian em 13 de junho, dia seguinte aos bombardeios israelenses no Irã.

Os meses foram passando e a divisão, ressurgindo. Durante a guerra contra o Hamas, parte da sociedade israelense passou a pressionar Netanyahu, a quem já não apoiava, para encerrar a invasão e realizar um acordo para o retorno dos reféns. Sustentado por partidos ortodoxos, como o Judaísmo Unido da Torá e o Shas, Netanyahu prosseguiu até que o presidente Donald Trump liderasse um acordo definitivo de cessar-fogo.

Com o cessar-fogo em andamento, foi a vez de surgirem tensões com aliados de direita que exigem retomada do confronto armado. Segundo análise do Times of Israel, “em 41 dias, o primeiro-ministro provavelmente terá de escolher: abandonar a etapa seguinte do acordo ou ver sua coalizão colapsar e novas eleições serem convocadas”.

Renúncia anterior de Rabin

A situação de Netanyahu em relação à Justiça também evidencia como a política israelense passou a ser pautada por acordos entre partidos nos bastidores. Revital Poleg, assessora de Shimon Peres durante os Acordos de Oslo, destaca que a situação é totalmente diferente da época de Rabin.

Leia mais: “Israel: partido ortodoxo pressiona Netanyahu”

Rabin teve de renunciar em 1977, e, em seu lugar, pela primeira vez na história, um partido de direita, o Likud, assumiu o país. O primeiro-ministro havia se afastado porque manteve uma conta no exterior, com menos de US$ 10 mil, depois de ter deixado o cargo de embaixador nos EUA. Hoje, Netanyahu enfrenta acusações de suborno, fraude e violação de confiança, com julgamento iniciado em 24 de maio de 2020 no Tribunal Distrital de Jerusalém.

“Mesmo diante de uma situação pequena, Rabin mostrou integridade absoluta: renunciou voluntariamente e assumiu total responsabilidade, embora o caso estivesse ligado à sua mulher, e não a ele diretamente”, afirma Revital a Oeste.

“A quantia era ínfima, proibida pela lei da época, mas sem gravidade material. Ainda assim, Rabin entendeu que manter-se no cargo não condizia com a conduta esperada de um líder e renunciou sem hesitar.”

Rabin retornou em 1992 ao cargo de primeiro-ministro. Buscou reerguer-se por meio das negociações de paz e tinha a impressão de que ele e Peres, rivais que se tornaram aliados, estavam dando um exemplo de como unir o país com transparência e pragmatismo.

Desde então, a política israelense mudou. “Não se pode generalizar e afirmar que todos os líderes se corromperam: a maioria dos primeiros-ministros que sucederam Rabin não se envolveu em escândalos financeiros”, ressalta Revital.

“A exceção foi Ehud Olmert, que assumiu a responsabilidade, renunciou e cumpriu sua pena. O contraste com Netanyahu é evidente: ele nega todas as acusações, continua no poder e usa todos os instrumentos legais e políticos para adiar ou enfraquecer o processo judicial. Embora ainda não tenha sido condenado, sua permanência por cerca de 15 anos evidencia mudanças claras em sua postura e conduta política.”

Nesta nova era pós-Rabin, Netanyahu precisou buscar alianças políticas fortes e conseguiu vencer praticamente todas as eleições que disputou. Ele representa uma parte da sociedade israelense preocupada com a segurança, desde a morte do primeiro-ministro.

A Praça Reis de Israel passou a se chamar Praça Rabin. Mas a paz que ele tanto almejava ainda não chegou.

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