A Groenlândia, ilha coberta por gelo e distante dos centros tradicionais de poder, voltou ao centro da agenda da Casa Branca. Nos últimos dias, o presidente Donald Trump passou a tratar publicamente a aquisição do território ártico como uma prioridade de segurança nacional para dissuadir adversários na região. O tom rompe com a cautela diplomática ao transformar um antigo tema de bastidor em meta declarada de política externa.
Em comunicado, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que adquirir a ilha é “vital para a segurança dos EUA” e que Trump avalia várias opções, deixando claro que “o recurso ao Exército é sempre uma opção à disposição do comandante em chefe”.
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A disposição de tratar o tema abertamente, com menção explícita ao uso das Forças Armadas, provocou reações imediatas. A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, afirmou que uma eventual tomada de poder da Groenlândia pelos EUA equivaleria ao fim da aliança militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte. “Se os EUA optarem por atacar militarmente outro país da Otan, tudo para”, disse à emissora local TV2.
Território semiautônomo ligado à Dinamarca, a Groenlândia detém posição estratégica e vastas reservas de recursos naturais, como terras raras, criolita e carvão, fatores que atraem Trump desde o primeiro mandato. Agora, no entanto, o discurso tornou-se mais assertivo e menos condicionado à diplomacia tradicional.
Groenlândia: um interesse que antecede Trump em mais de um século
Muito antes de Trump, a Groenlândia já figurava no cálculo estratégico norte-americano. Esse interesse remonta ao século 19, formalizado em documentos produzidos em um contexto de expansão territorial e reorganização da política externa no Atlântico Norte.
Em 1868, logo depois da compra do Alasca, o Departamento de Estado elaborou um relatório sistemático sobre os recursos da ilha. O documento foi pioneiro ao estabelecer a Groenlândia nos arquivos de Washington não como uma periferia marginal, mas como um ativo dotado de valor econômico e estratégico. Ao analisar as ricas reservas minerais da época, o documento foi categórico: “A posse dessas minas como parte do nosso território é uma questão de magnitude vital”.
O estudo demonstra que, já naquela época, autoridades avaliavam o território dentro de um cálculo ligado à projeção de poder marítimo e ao controle de rotas, inclusive o potencial para linhas de telégrafo interoceânicas. Embora não tenha resultado em uma proposta de compra imediata, o relatório integrou a ilha ao pensamento institucional do Departamento de Estado. Esse interesse latente deixaria de ser apenas uma teoria diplomática para se tornar uma necessidade de sobrevivência no século seguinte, quando conflitos globais forçaram os EUA a transformarem mapas em bases militares.

Da Segunda Guerra à Guerra Fria: a presença militar permanente
A Segunda Guerra Mundial foi o catalisador que retirou a Groenlândia dos arquivos do Departamento de Estado e a colocou na linha de frente operacional. Com a ocupação da Dinamarca pela Alemanha nazista, a ilha passou a ser considerada essencial para a defesa do Hemisfério Ocidental. Em 1941, os EUA assumiram a proteção do território, instalando bases e estações meteorológicas que transformaram a ilha de objeto de estudo em um ativo operacional direto.
O fim da guerra não significou o recuo da presença norte-americana. Pelo contrário. Conforme o livro Greenland in Arctic Security: (De)securitization Dynamics under Climatic Thaw and Geopolitical Freeze, publicado pela Universidade de Michigan, a transição da Segunda Guerra para a Guerra Fria aprofundou o papel da Groenlândia no planejamento estratégico dos EUA.
Em 1946, Washington apresentou à Dinamarca uma proposta formal de compra por US$ 100 milhões. A oferta foi recusada, mas o gesto evidenciou que os EUA já não viam a Groenlândia como um protetorado temporário e consideravam seriamente a incorporação definitiva da ilha.
Como observa o pesquisador Marc Jacobsen, que assina um dos capítulos do livro, esse foi o começo de um processo contínuo de “securitização”: a ilha passou a ser incorporada a planejamentos de longo prazo como uma extensão funcional da proteção do território continental norte-americano. Essa integração formalizou-se em marcos como o Acordo de Defesa de 1951, que transformou a ilha em um pilar da Otan sob gestão operacional dos EUA.

A partir dali, o território foi incorporado a projetos de infraestrutura extrema, como a Linha de Alerta Antecipado Distante (DEW Line), uma rede de radares de longo alcance essencial para detectar ataques soviéticos, e o ambicioso Projeto Iceworm, um plano secreto para instalar centenas de mísseis nucleares em túneis sob o manto de gelo.
Essa leitura histórica ganha escala no livro Polar War, de Kenneth R. Rosen, que examina a militarização progressiva do Ártico. Rosen descreve como a região polar, por décadas tratada como periferia geopolítica, foi gradualmente incorporada ao núcleo das disputas entre grandes potências. Nesse processo, a Groenlândia aparece como ponto-chave para sistemas de alerta antecipado, vigilância aérea e projeção de poder no Hemisfério Norte. Para o autor, a recusa dinamarquesa à venda não interrompeu o movimento estratégico norte-americano; pelo contrário, Washington adaptou-se para manter influência decisiva sem a necessidade de soberania formal.
A Groenlândia consolidou-se, assim, como espaço híbrido: formalmente sob soberania dinamarquesa, mas funcionalmente integrada ao aparato de defesa dos EUA. Essa lógica ajuda a explicar por que, décadas depois, a ilha continua a ser tratada como peça-chave da segurança nacional, mesmo em contextos geopolíticos profundamente distintos.
A Groenlândia no centro do mundo
O fim da Guerra Fria não retirou o Ártico do cálculo estratégico. O que ocorreu, ao longo das décadas seguintes, foi uma mudança gradual na forma como a região passou a ser percebida e utilizada: estruturas herdadas do confronto bipolar permaneceram ativas, mas foram ressignificadas diante das transformações geopolíticas e ambientais do século 21.
Em seu livro, Rosen descreve como a combinação entre avanços tecnológicos e o degelo progressivo reduziu as barreiras naturais que historicamente isolavam a região, ampliou sua acessibilidade e alterou de forma concreta sua relevância militar e econômica. O Ártico deixou de ser um limite geográfico para se tornar um corredor estratégico, reposicionando a Groenlândia como o elo entre a América do Norte, a Europa e o espaço ártico.
Sobre essa nova centralidade, Rosen destaca que o valor da ilha transcende a posse de terra e funciona como um pilar para a vigilância global em um mundo onde as fronteiras polares estão desaparecendo: “A Groenlândia não é apenas uma massa de terra no topo do mundo; é o tecido conjuntivo entre a segurança da América do Norte e a estabilidade da Europa.”

A militarização progressiva do Ártico não se limita à dimensão bélica. Rosen destaca que a região passou a concentrar interesses relacionados a recursos naturais, cadeias de suprimento estratégicas e rotas marítimas emergentes. Ainda assim, ele sustenta que a lógica de segurança permanece como eixo organizador dessas disputas.
Essa leitura ajuda a compreender o discurso atual da Casa Branca, que classifica a aquisição da ilha como uma medida “vital para dissuadir adversários”. O próprio Trump reforçou essa perspectiva à revista The Atlantic, em que afirmou “precisar da Groenlândia” para fortalecer a defesa do país.
Para Jacobsen, essa postura reflete uma mudança profunda na perspectiva de segurança norte-americana, agora inserida na competição direta com a Rússia e, especialmente, com a China. A retomada do tema pela Casa Branca não inaugura essa disputa, mas a torna explícita, em um momento em que o Ártico deixou de ser periferia para reassumir papel central no equilíbrio de poder global.
Leia também: “A América sempre reage”, artigo de Ana Paula Henkel publicado na Edição 242 da Revista Oeste





































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