publicidade
Mundo

Pacífico em fase fria extrema

Oceano registrou fenômeno negativo raro, com impacto direto em padrões climáticos globais

O Pacífico sozinho representa um terço da superfície do globo terrestre | Foto: Divulgação/Oeste | Imagem criada com o auxílio de inteligência artificial
O Pacífico sozinho representa um terço da superfície do globo terrestre | Foto: Divulgação/Oeste | Imagem criada com o auxílio de inteligência artificial

Em meados do mês de agosto de 2025, tivemos a publicação das médias mensais de alguns parâmetros climáticos e índices ambientais em escala global, incluindo anomalias dessas médias em relação às suas normais de 30 anos. Os valores foram referentes às totalizações de dados e aos cálculos executados para o mês de julho de 2025. Até agora, o inverno nos Estados do Sul do Brasil tem sido reportado como um dos mais frios dos últimos 30 anos e parece ter sensibilizado até os satélites. Entre outras informações, uma que nos chamou a atenção foi o novo recorde registrado para um índice denominado Oscilação Decadal do Pacífico — ODP (Pacific Decadal Oscillation – PDO).

Cartograma apresentando as anomalias de temperatura da baixa troposfera obtidas por satélite para o mês de julho de 2025, referentes à normal climatológica 1991-2020 | Foto: Divulgação/UAH
Cartograma apresentando as anomalias de temperatura da baixa troposfera obtidas por satélite para o mês de julho de 2025, referentes à normal climatológica 1991-2020 | Foto: Divulgação/UAH

Embora se trate de uma curiosidade mais técnica, ela não pode passar despercebida e deixar de ser citada, tendo em vista que observamos manchetes alardeando o fantasioso “caos climático” sempre que um valor de temperatura está “alto” em algum lugar do mundo, mesmo que seja durante um verão. Contudo, nunca vemos o mesmo empenho em divulgar o oposto, especialmente quando sabemos que existem ciclos de diversas amplitudes temporais e espaciais ocorrendo simultaneamente pelo planeta, os quais envolvem as escalas sazonais e interanuais, mas também as chamadas decadais, ou que se aproximam disto.

Receba nossas atualizações

O nosso trabalho, com a tecnologia atual, é tentar melhorar a observação, descrição e compreensão desses ciclos, para depois identificar quais são os processos envolvidos, se atuam separadamente ou participam em conjunto etc. Tal empreitada não é nada trivial, dadas as escalas gigantescas que envolvem observar o planeta inteiro. Mesmo que executado remotamente, o trabalho ainda é insuficiente para se perceber todas as nuances que os envolvem.

A oscilação do Oceano Pacífico

Diferentemente do fenômeno oceânico-atmosférico Enos – El Niño/Oscilação Sul, que apresenta uma variação interanual, portanto considerado de alta frequência, a Oscilação Decadal do Pacífico – ODP mostra uma atuação muito mais lenta, ao redor de nove a 11 anos, podendo chegar até 20 ou 30 anos, sendo então considerada de longa duração ou de baixa frequência. Ambos os fenômenos envolvem a espacialidade da escala planetária e são representados por índices. Os cálculos do índice consideram principalmente a Temperatura da Superfície do Mar (TSM) e a força dos ventos que sopram na base da troposfera — a primeira camada da atmosfera. Esses ventos são influenciados pela distribuição do campo de pressão atmosférica ao Nível Médio do Mar (NMM). Sempre que possível, também é levado em conta o perfil de temperatura da água em profundidade, especialmente nos primeiros 200 metros.

Assim, enquanto o Enos varia mais rapidamente, ocasionando alterações mais bruscas nos padrões meteorológicos sobre determinados lugares, como a Região Sul e Sudeste do Brasil, a ODP é mais lenta e interfere nesses padrões por um período mais longo — não de forma direta, mas podendo acentuar ou atenuar as ocorrências de Enos e suas consequências, sejam elas por alto contraste ou por similaridade, respectivamente. De qualquer forma, tanto Enos como a ODP são importantes componentes da variabilidade climática exercida pela influência do Oceano Pacífico. A ODP vem sendo registrada desde janeiro de 1854.

Gráfico da ODP. A fase quente é representada pelas barras vermelhas e a fria, pelas azuis | Foto: NCEI/NOAA
Gráfico da ODP. A fase quente é representada pelas barras vermelhas e a fria, pelas azuis | Foto: NCEI/NOAA

Mais de 30% da superfície terrestre

Não se conhecem exatamente todos os fatores que interferem na ODP, mas uma das hipóteses envolve a sua covariação com a intensidade do ciclo solar de 11 anos e suas consecutivas variações de maior duração entre esses ciclos (se estão a crescer ou a diminuir entre eles pelas décadas). Não podemos esquecer que o Pacífico sozinho representa um terço da superfície do globo terrestre. Essa enorme superfície fica exposta diretamente à radiação solar, recebendo uma carga imensa de energia na sua zona fótica (onde há penetração da luz solar na água do mar), sendo distribuída conforme a latitude e a interferência da cobertura de nuvens. Assim, espera-se que as variações da quantidade de energia do Sol também tenham participação no que representamos como ODP, bem como o ciclo de nebulosidade que acompanha a área tropical com os ventos alísios.

Assim como o Enos é expresso por fases quente ou fria, a ODP também é classificada dessa maneira. As fases extremas da ODP também são classificadas como quentes ou frias. Essa definição depende dos valores de TSM em diferentes latitudes, comparados com as médias históricas de cada região. A partir dessa comparação, obtêm-se as anomalias de TSM, que podem ser analisadas de forma regionalizada entre trópicos, subtropicais e extratropicais.

Segundo Yuan Zhang e John M. Wallace, que definiram a classificação original em 1997, aprimorada depois por Mântua em 1999, quando os valores de TSM estão mais baixos no interior central do Pacífico Norte e quentes ao longo da projeção da costa oceânica do Pacífico, ao mesmo tempo em que a pressão atmosférica ao NMM está abaixo da média no Pacífico Norte, a ODP apresentará um valor positivo. Quando os padrões se invertem, com anomalias de TSM quente no interior e anomalias de TSM frias ao longo da projeção da costa norte-americana, com pressões atmosféricas acima da média ao NMM sobre o Pacífico Norte, a ODP tem um valor negativo.

O recorde no Pacífico

Modernamente, é mais fácil observar esse padrão pelas anomalias de TSM no Pacífico Noroeste, ao redor do Japão até o Mar de Bering, podendo chegar até o Alasca, EUA. Nesse imenso setor, os valores anômalos se destacam muito mais das normais oceanográficas para a região. O mesmo ocorre no setor sudoeste, ao redor da Austrália, quando as anomalias apresentam o mesmo sinal do setor do Japão, porém com menor intensidade. Ao mesmo tempo, na área centro-leste, entre o Equador e a latitude de 35ºN, as anomalias de TSM são invertidas em relação aos dois setores anteriores.

Dessa forma, se as TSM estiverem bem abaixo da normal oceanográfica para a região do Pacífico ao redor do Japão, e também abaixo da normal, mas mais moderadas na área oceânica do Pacífico que se projeta para o leste da costa australiana, enquanto no setor centro-leste do oceano os valores de TSM estiverem acima da normal, consideraremos a ODP como fase positiva. No inverso, o setor oceânico do Japão apresentará anomalias de TSM bem acima da normal para a sua área, o setor australiano um pouco acima e a região centro-leste terá valores de TSM abaixo da normal. Esta é a fase negativa da ODP, que em julho de 2025 apresentou sua marca recorde do índice, alcançando –4,00. O campo de distribuição das anomalias de TSM no oceano Pacífico nesse mês recorde foi um exemplo perfeito da descrição da fase negativa da ODP (Fig.4).

Recorte do gráfico da ODP que apresenta a atual fase fria dos últimos anos, ressaltando o recorde de –4,00 do índice, em julho de 2025 | Foto: NCEI/NOAA
Recorte do gráfico da ODP que apresenta a atual fase fria dos últimos anos, ressaltando o recorde de –4,00 do índice, em julho de 2025 | Foto: NCEI/NOAA
Cartograma apresentando os valores de anomalias da temperatura da superfície do mar (TSM) do oceano Pacífico, referente à média de julho de 2025. Em vermelho, valores de TSM média mensal acima da normal oceanográfica na localidade. Em azul, valores de TSM média mensal abaixo da normal na respectiva localidade | Foto: Divulgação/BOM
Cartograma apresentando os valores de anomalias da temperatura da superfície do mar (TSM) do oceano Pacífico, referente à média de julho de 2025. Em vermelho, valores de TSM média mensal acima da normal oceanográfica na localidade. Em azul, valores de TSM média mensal abaixo da normal na respectiva localidade | Foto: Divulgação/BOM

Vejamos que o ciclo da fase fria (negativa) atual da ODP se estende desde julho de 2017. Foi interessante notar que a marca recorde fria anterior também é recente, pois em outubro de 2024 o valor obtido do índice foi de –3,80. A menor marca no século 19 foi registrada em abril de 1859, com –3,65. Outra marca importante nesse século foi em junho de 1890, com –3,41. No século 20, o recorde negativo ficou com o mês de julho de 1950, com –3,65. A tabela a seguir mostra os maiores índices negativos e positivos da ODP desde janeiro de 1854:

Ressalta-se que a metodologia para a tomada de dados e análise das informações para formar uma série tão longa se vale de processos estatísticos, com pontos de dados de apoio para tempos mais distantes, como antes de 1940, quando os procedimentos e o número de registros eram mais rudimentares e escassos. Assim, os dados que elaboram o índice ODP atual (NCEI PDO) vêm dos Centros Nacionais de Informação Ambiental – NCEI (National Centers for Environmental Information), cuja responsabilidade é da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional – NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration, EUA). Eles se baseiam na temperatura da superfície do mar reconstruída estendida, ERSST Versão 5 (Extended Reconstructed Sea Surface Temperature).

O processo de elaboração inclui uma sobreposição ao índice ODP de Mântua com uma regressão das anomalias da série da ERSST, de forma a projetá-las no tempo para calcular o índice NCEI mais próximo possível ao índice ODP original de Mântua, permitindo validar o processo. O conjunto de dados de TSM do ERSST vem de uma análise mensal global das TSM derivadas do Conjunto Internacional de Dados Abrangentes Oceano-Atmosfera (ICOADS), cujas fontes são navios circulantes (transmissão do código SHIP, por exemplo) e boias fixas. Estes dados, adicionados das boias flutuadoras perfiladoras do sistema Argo Float GDAC e os dados da concentração de gelo (série HadISST2) ajudaram a cobrir a série de 1850 a 2015.

Após 2016, o aparato do NCEP, incluindo muitos destes sistemas, assumiu a responsabilidade da elaboração do índice. Obviamente, por uma questão de tecnologia aplicada à tomada de dados e com maior e melhor distribuição geográfica de coleta, houve uma progressiva melhoria na confiabilidade dos registros realizados, especialmente ​​após a década de 1940, como citado anteriormente. A coleta de dados aumentou com o período da SGM e no pós-guerra, mas especialmente durante a guerra fria, para medidas locais (in situ) e remotas (Era dos Satélites, após 1972).

Mais recordes à vista

Desde a origem dos registros, em janeiro de 1850, a ODP alcançou valores abaixo ou igual a marca de –3,00 em 20 ocasiões mensais, sendo que oito delas ocorreram no atual século 21! Em apenas sete ocasiões mensais a ODP registrou acima ou igual a +3,00. No cômputo geral de toda a série, até o mês de julho de 2025, observou-se a ocorrência de 1285 meses negativos contra 774 meses positivos.

Fomos diligentes na confecção dessa matéria porque o sítio que divulga os dados avisou que eles estariam disponíveis até o dia 22 de agosto de 2025. Não sei o que motivou a mudança da publicação das informações, porque somente apresentaram uma notificação de que haverá uma atualização de sistemas, o que deixará os dados indisponíveis por várias semanas. De qualquer forma, é interessante mostrar que, durante esta atual fase negativa da ODP, tivemos o recente registro de “mergulho profundo”, quando o fenômeno Enos apresentou a sua fase negativa extrema, ou seja, imperou La Niña por três anos consecutivos.

Na ocasião, no ano de 2021 tivemos registros recordes de baixas temperaturas no Polo Sul, na Estação Amundsen-Scott, dos EUA, Antártida, bem como uma anomalia negativa significativa de ozônio estratosférico na saída do inverno no continente polar — a qual ressaltamos, sempre acontece, mudando apenas a sua intensidade. Será intrigante verificar, em breve, os valores de temperatura na mesma estação polar e a variação do ozônio quando chegar a primavera austral. Provavelmente eles serão bem baixos, isto, se publicarem!

+ Leia mais notícias do Mundo em Oeste

Leia mais sobre:

0 comentários
Nenhum comentário para este artigo, seja o primeiro.
Canal Oeste
Nossos colunistas
J. R. Guzzo (diretor perpétuo)
Augusto Nunes
Ana Paula Henkel
Guilherme Fiuza
Rodrigo Constantino
Alexandre Garcia
Antonio Cabrera
Eugênio Esber
Eugênio Esber
Evaristo de Miranda
Flávio Gordon
Roberto Motta
Miriam Sanger
Adalberto Piotto
Frank Furedi, da Spiked
Jeffrey A. Tucker.
Theodore Dalrymple
Flavio Morgenstern
Ubiratan Jorge Iorio
publicidade
Background
NEWSLETTER
Cadastre-se e receba nossas newsletter com matérias exclusivas toda semana
Background
TELEGRAM
Cadastre-se e receba nossas newsletter com matérias exclusivas toda semana
publicidade
Background
Assine a Revista Oeste
Seja um dos brasileiros que acreditam que o bom jornalismo transforma um país.