O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reuniu os líderes da República Democrática do Congo e de Ruanda em Washington nesta quinta-feira, 4, para a assinatura de um acordo de paz. Apesar da iniciativa, confrontos armados continuaram a ocorrer na região leste do Congo, que é cenário de instabilidade há décadas.
A reunião entre Paul Kagame, presidente de Ruanda, e Felix Tshisekedi, do Congo, teve como objetivo reforçar compromissos assumidos no mês anterior para integração econômica e um acordo de paz intermediado pela Casa Branca em junho. Também estava prevista a assinatura de um termo sobre minerais estratégicos.
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A cerimônia, realizada em um instituto de paz que recebeu o nome de Trump, representa mais uma tentativa diplomática do governo norte-americano para ampliar o acesso a recursos naturais do Congo e reduzir a influência chinesa no setor de minerais críticos. “Estamos resolvendo uma guerra que perdura há décadas”, afirmou Trump, que ressaltou a importância econômica da aproximação para os EUA.
A HISTORIC MOMENT FOR PEACE.
— The White House (@WhiteHouse) December 4, 2025
President Trump joins President Kagame of Rwanda and President Tshisekedi of the Democratic Republic of the Congo as they sign the Washington Accords, a major peace deal, at the Donald J. Trump Institute for Peace in Washington, D.C. 🇺🇸 pic.twitter.com/xuouh3lAiE
Durante a assinatura, confrontos entre o grupo rebelde M23, apoiado por Ruanda, e o Exército congolês foram reportados na província de Kivu do Sul. Representantes do M23 acusaram o governo de atacar áreas civis, enquanto o Exército do Congo e o grupo trocam acusações sobre violações do cessar-fogo.
No início deste ano, o M23 ocupou as principais cidades do leste do Congo, intensificando temores de uma escalada. Em fevereiro, o grupo tomou um aeroporto. Analistas ouvidos pela agência Reuters reconhecem que a diplomacia dos EUA reduziu os combates, mas as questões centrais do conflito seguem sem solução. O próprio M23 não participou das negociações em Washington e mantém tratativas separadas mediadas pelo Catar.
Um representante da Casa Branca declarou à Reuters que o acordo reforça o compromisso das partes com o processo de paz e reflete meses de negociações conduzidas por Trump, que, segundo o porta-voz, deixou claro que “o statu quo era inaceitável”.
Trump tem fortalecido sua imagem internacional desde janeiro, ao intervir em conflitos do Oriente Médio à Ucrânia. O presidente dos EUA mediou o fim da guerra entre Israel e o grupo terrorista Hamas. Antes da cerimônia nesta quinta-feira, o nome de Trump foi incluído na placa do Instituto da Paz dos EUA, organização fundada pelo Congresso e alvo de disputa judicial sobre seu controle.
Desafios persistentes entre Congo e Ruanda
O impacto do acordo sobre a crise humanitária permanece incerto. Em entrevista coletiva, o porta-voz congolês Patrick Muyaya responsabilizou o M23 pelos recentes ataques, que, segundo ele, são “a prova de que o Ruanda não quer a paz”.

Denis Mukwege, Nobel da Paz em 2018, criticou os acordos e apontou interesses em minerais como motivação principal. “Para mim, está claro que este não é um acordo de paz”, disse, em Paris. “A prova: nesta manhã, na minha aldeia natal, as pessoas estavam enterrando os mortos enquanto um acordo de paz era assinado. O M23 continua a tomar território.”
O governo de Ruanda nega apoiar o M23 e justifica ações militares como autodefesa contra milicianos hutus ligados ao genocídio de 1994, quando mais de 1 milhão de pessoas foram mortas. Especialistas da ONU revelaram, em julho, que Ruanda mantém controle sobre o M23.
O M23 alega atuar em defesa da etnia tútsi no leste congolês. O avanço do grupo representa mais um capítulo da rivalidade étnica na fronteira entre Congo e Ruanda, marcada por três décadas de conflitos. Entre 1996 e 2003, duas guerras devastaram a região dos Grandes Lagos africanos, com milhões de mortos e centenas de milhares de deslocados.
+ Leia também: “Pax Trumpiana“, artigo de Carlo Cauti publicado na Edição 292 da Revista Oeste
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