Negociações entre representantes venezuelanos e autoridades dos EUA envolveram, durante meses, propostas de concessão de amplo acesso norte-americano aos setores de petróleo e mineração da Venezuela. A oferta teria partido do regime chefiado por Nicolás Maduro, no contexto da crise diplomática das acusações de narcoterrorismo contra o ditador e do aumento da pressão militar do governo de Donald Trump na região do Caribe.
Durante as tratativas, Maduro propôs aos Estados Unidos a participação de empresas norte-americanas em todos os projetos, presentes e futuros, de petróleo e ouro. O acordo previa ainda contratos preferenciais, redirecionamento das exportações de petróleo da China para os EUA, além da redução de acordos energéticos com empresas de China, Irã e Rússia, segundo fontes próximas às negociações.
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A escalada militar dos EUA, o fim do diálogo diplomático e ameaças diretas à permanência de Maduro intensificaram a percepção, nos dois países, de que o objetivo final de Washington era a saída do ditador venezuelano. Marco Rubio, secretário de Estado e conselheiro de segurança nacional, liderou a campanha contra Maduro, o qual chamou de “fugitivo da Justiça norte-americana”.
The U.S. will not tolerate any third-countries or their oil companies producing, extracting, or exporting oil and oil-related products with the Maduro regime in Venezuela. — @SecRubio pic.twitter.com/nP8PkzPdy9
— Department of State (@StateDept) March 27, 2025
Rubio também expressou desconfiança sobre a estratégia diplomática de Richard Grenell, enviado especial dos EUA. Apesar da postura rígida do secretário de Estado, há representantes do governo que acreditam no diálogo com a Venezuela, diante das mudanças inesperadas de Trump em assuntos internacionais, como Ucrânia, China e Irã.
O jornal norte-americano The New York Times (NYT) publicou, nesta sexta-feira, 10, um relato das tratativas entre os dois governos. A redação afirma ter ouvido mais de 12 representantes dos EUA e da Venezuela, que preferiram anonimato.
Nos bastidores, membros do alto escalão venezuelano, autorizados por Maduro, ofereceram concessões que praticamente eliminariam o tradicional nacionalismo de recursos herdado do chavismo. As conversas entre Grenell e representantes do governo venezuelano avançaram em pautas econômicas, mas não houve consenso sobre o futuro político de Maduro.

Em entrevista recente, o ministro das Relações Exteriores, Yván Gil, declarou que Maduro “não negociaria sua saída”. Desde que assumiu em 2013, o ditador tem reprimido manifestações democráticas e se manteve no poder depois de eleições contestadas por fraudes e repressão a protestos. Grenell, assim como o Departamento de Estado, a Casa Branca e autoridades venezuelanas, não se pronunciaram sobre o assunto.
Casa Branca diverge internamente sobre tratativas
Nos EUA, há divergências sobre o andamento das negociações. Um funcionário do governo afirmou que relatos sobre discussões a respeito de sanções e acesso ao mercado venezuelano “não refletem com precisão o que ocorreu”. Outros, porém, confirmaram conversas frequentes sobre uma possível normalização econômica e abertura do setor energético venezuelano a empresas norte-americanas.
Paralelamente, María Corina Machado, principal líder da oposição, apresentou a empresas Nova York uma proposta que prevê ganhos de até US$ 1,7 trilhão em 15 anos para companhias dos EUA caso haja transição política. Ela recebeu o Nobel da Paz nesta sexta-feira, 10, pelo trabalho em prol dos direitos democráticos, conforme destacou o Comitê Norueguês do Nobel. A indicação ao prêmio veio de Marco Rubio.
Sary Levy, assessora de María Corina, avaliou que “os acordos de investimento oferecidos por Maduro nunca se concretizariam sem democracia, Estado de Direito e liberdades individuais”. Segundo ela, “o que Maduro oferece aos investidores não é estabilidade, é controle — controle mantido pelo terror”. Ela acrescenta que “a administração Trump demonstrou clara intenção de não cair nessas ofertas de soluções fáceis.”
A produção de petróleo venezuelano gira em torno de 1 milhão de barris diários, muito abaixo dos 3 milhões registrados no início do governo Chávez. A maior parte é destinada à China, exceto cerca de 100 mil barris por dia vendidos nos EUA pela Chevron. Analistas revelam que a produção poderia aumentar com investimentos externos, mas divergem sobre a viabilidade sob Maduro.
Em junho, María Corina Machado falou a empresários norte-americanos. “Nossa mensagem para as petroleiras é: queremos vocês aqui, certamente. Queremos vocês aqui não produzindo migalhas de alguns centenas de milhares de barris por dia. Queremos vocês produzindo milhões de barris por dia.”

O apoio dos EUA a uma mudança de governo na Venezuela, no passado, foi justificado por questões de direitos humanos. Porém, as atuais propostas venezuelanas para Grenell têm caráter econômico. Exigências similares, como acesso a recursos naturais, foram vistas em outras frentes, como Ucrânia, Iraque e Síria.
O acordo em discussão foi considerado pelos envolvidos como uma tentativa diplomática sem precedentes de garantir recursos naturais no segundo mandato de Trump. A possibilidade de retomada de negócios norte-americanos na Venezuela atrai interesse pelo volume de reservas de petróleo, gás, ouro, ferro, bauxita e coltan do país.
Maduro também buscou aproximação direta com empresas dos EUA para fortalecer sua posição com a Casa Branca. A estatal PDVSA concedeu à Chevron controle total de projetos conjuntos, e ambas analisaram a participação da empresa em outro grande campo petrolífero. Além disso, foram retomadas negociações com a ConocoPhillips para um possível acordo comercial.
The Nobel Prize died years ago.
— Richard Grenell (@RichardGrenell) October 10, 2025
Ao NYT, a Chevron declarou cumprir todas as leis aplicáveis dos EUA e da Venezuela. A ConocoPhillips não respondeu aos questionamentos. Segundo fontes ouvidas pelo jornal, as relações entre autoridades venezuelanas e executivos norte-americanos chegaram perto de um avanço diplomático em maio.
Gestos de boa vontade e novos acordos entre EUA e Venezuela
Também em maio, Richard Grenell facilitou o retorno de uma criança venezuelana aos pais deportados, o que foi tido como gesto de boa vontade. Em resposta, o governo de Maduro libertou um militar norte-americano detido e o entregou ao enviado especial dos EUA. Maduro aprovou a maioria dos termos econômicos do acordo discutido com Grenell.
Fontes próximas às negociações relataram que Maduro hesitou diante da exigência dos EUA de limitar vínculos com China, Rússia e Irã, mas concluiu que enfraquecer tais alianças seria o custo para evitar intervenção militar norte-americana. A Venezuela também suspendeu envios de petróleo a Cuba, agravando a crise energética no país.

Pequenas conquistas foram alcançadas por partidários do engajamento econômico com Maduro. Em julho, a Chevron teve restabelecida sua licença do Tesouro dos EUA para operar no país, revertendo restrição imposta meses antes pela administração Trump depois de intensa pressão em Washington.
Na última quarta-feira, 8, o Departamento do Tesouro emitiu licença que permite à Shell retomar operações na Venezuela. A empresa poderá produzir gás no campo Dragon, cuja produção será processada e comercializada a partir de Trinidad & Tobago. A Shell não comentou o caso, e autoridades do país caribenho não responderam.
Rubio declarou em setembro que os EUA assegurariam que o projeto Dragon “não beneficia significativamente o regime Maduro”. O ditador venezuelano aceitou que a Shell aplique recursos em projetos sociais no país, em vez de pagamentos diretos ao governo, para demonstrar que a Venezuela permanece aberta a investimentos internacionais.






































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