O secretário-geral do Partido Comunista da China (PCC), Xi Jinping, deu um passo decisivo para centralizar o comando militar do país. Na semana passada, afastou comandantes das Forças Armadas e assumiu, na prática, o controle direto sobre as decisões estratégicas relacionadas a Taiwan. Até o momento, houve a remoção de cinco dos seis generais seniores escolhidos pelo próprio Xi há apenas três anos, incluindo o general Zhang Youxia, aliado de longa data e protagonista no alto comando militar.
Essa medida reforça um arranjo raro mesmo para os padrões do PCC: a concentração do comando militar nas mãos de um único homem. Com isso, desaparecem do entorno de Xi vozes capazes de questionar o ritmo, o custo ou o risco de uma escalada no Estreito de Taiwan.
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A leitura de analistas consultados pelo jornal norte-americano The Wall Street Journal é que a decisão amplia a margem de manobra do líder chinês, mas também eleva os riscos operacionais e políticos de erros de cálculo.
Xi Jinping isolado
Zhang Youxia não era apenas mais um general. Amigo de infância de Xi, tratado publicamente como “irmão mais velho”, o militar funcionava como um dos últimos pontos de equilíbrio dentro da Comissão Militar Central. Sua prisão, anunciada em 24 de janeiro, foi cercada de silêncio oficial.
Autoridades militares chinesas informaram, em reunião fechada, que Zhang teria vazado segredos nucleares aos Estados Unidos e recebido subornos. O Ministério da Defesa advertiu contra especulações e limitou-se a mencionar “graves violações da disciplina partidária e da lei estatal”.
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Nos bastidores, contudo, circula outra hipótese: um desacordo estratégico sobre prazos. Enquanto Xi estabeleceu 2027 como marco para que o Exército Popular de Libertação alcance plena capacidade operacional conjunta, Zhang defendia um horizonte mais distante, por volta de 2035. Para analistas, essa divergência ajuda a explicar a linguagem incomumente dura usada pelo jornal oficial do Exército, que acusou o general de minar o princípio do comando absoluto do presidente sobre as Forças Armadas.
Menos tiros, mais pressão
Apesar do endurecimento interno, especialistas ouvidos pelo WSJ avaliam que uma invasão iminente de Taiwan se tornou menos provável no curto prazo. O caminho escolhido por Pequim é outro: uma campanha prolongada de desgaste, desenhada para minar a resistência política, econômica e psicológica de Taiwan sem recorrer a um conflito aberto.
Essa estratégia combina exercícios militares frequentes, que simulam bloqueios navais e aéreos, com pressões econômicas, ataques cibernéticos e o uso do que autoridades chamam de “guerra legal”. Leis chinesas vêm sendo usadas para enquadrar autoridades e cidadãos taiwaneses por atividades antes tratadas como expressão política, aumentando o risco para quem viaja ao continente.
Taiwan acredita que ataques cibernéticos chineses já miram infraestrutura sensível, como sistemas de energia e saúde. Paralelamente, Pequim intensifica esforços para isolar Taipei diplomaticamente, inclusive por meio de pressões sobre países aliados, como o Japão.
A centralização extrema, no entanto, tem custos. Analistas dizem que o espurgo no alto comando reduz a capacidade de controle em situações de crise. O risco é o de um Exército de mais de 1 milhão de homens operando sob um modelo informal de “comitê de um homem só”.
Segundo a reportagem publicada no WSJ, a ausência de conselheiros militares experientes e dispostos a contrariar Xi aumenta a probabilidade de decisões mal calibradas, principalmente em um cenário tão sensível quanto o Estreito de Taiwan.
O que os EUA querem de Taiwan
A confiança de Xi também se apoia em uma reavaliação do papel dos Estados Unidos. Segundo fontes consultadas pelo WSJ, Pequim vê o presidente Donald Trump como pouco inclinado a se envolver em uma guerra custosa na Ásia.
Mesmo a recente venda de mais de US$ 11 bilhões em armas norte-americanas para Taiwan, a maior já registrada, foi interpretada em Pequim mais como estímulo à indústria de defesa dos EUA do que como garantia firme de segurança. A expectativa chinesa é que concessões comerciais possam ser usadas como moeda de troca em encontros futuros entre Xi e Trump.
Do lado norte-americano, a aposta é dificultar uma ofensiva chinesa desde o começo. Se Pequim não conseguir avançar rápido no Estreito de Taiwan, o custo político e militar aumenta consideravelmente. Para isso, Washington reforça sua posição ao longo da Primeira Cadeia de Ilhas — do Japão às Filipinas, passando por Taiwan — com presença, exercícios e cooperação com aliados. Em paralelo, aprofunda a ligação econômica com Taiwan no setor de semicondutores, para tornar a ilha ainda mais relevante para a economia norte-americana e, assim, elevar o preço de uma ação militar chinesa.

Leia também: “Taiwan: a ilha que sabe o que quer”, reportagem de Dagomir Marquezi publicada na Edição 216 da Revista Oeste
Expurgo é com “X”!