Emoldurada por morros de cerrado e cortada pelo Rio Vermelho, a Cidade de Goiás guarda mais de 90% de sua arquitetura colonial original em ruas de pedra que mal mudaram desde o século XVIII. A antiga capital do estado, a 140 km de Goiânia, é Patrimônio Mundial da UNESCO desde 2001 e carrega no nome a história da ocupação do Brasil Central.
A cidade que nasceu do ouro e virou poesia
Tudo começou com as bandeiras paulistas. Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, encontrou ouro às margens do Rio Vermelho no início do século XVIII e fundou o arraial que se tornaria Vila Boa de Goiás, em 1727. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) classifica a cidade como o primeiro núcleo urbano oficialmente reconhecido a oeste da linha de demarcação do Tratado de Tordesilhas.
Quando o ouro acabou, a estagnação econômica congelou o cenário. A perda do título de capital para Goiânia, em 1937, aprofundou o isolamento. Mas foi justamente essa paralisia que preservou intacto o conjunto de casarões, igrejas e chafarizes coloniais. O IPHAN tombou o centro histórico em 1978, e a UNESCO reconheceu seu valor universal em dezembro de 2001.

Cora Coralina: a doceira que virou a maior poetisa do cerrado
Cora Coralina, pseudônimo de Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, nasceu na Cidade de Goiás em 1889. Estudou apenas até a quarta série. Saiu da cidade em 1911, viveu 45 anos em São Paulo e voltou viúva, em 1956, para a mesma casa de janelas azuis à beira do Rio Vermelho. Ali, entre panelas de doce e cadernos manuscritos, escreveu os versos que transformariam a imagem da antiga Vila Boa.
Seu primeiro livro só foi publicado quando ela tinha 76 anos. Carlos Drummond de Andrade leu a obra e declarou publicamente que aquele “vintém de cobre” era “moeda de ouro”. Em 1983, Cora recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e o Prêmio Juca Pato, sendo a primeira mulher a conquistá-lo. A Casa Velha da Ponte virou museu em 1989 e é hoje o lugar mais visitado da cidade.
Quarenta farricocos e tochas à meia-noite nas ruas de pedra
A Procissão do Fogaréu é a celebração mais impressionante da Cidade de Goiás. Desde 1745, à meia-noite da Quarta-feira Santa, a iluminação pública é apagada. Quarenta homens encapuzados, os farricocos, saem descalços com túnicas coloridas e tochas acesas pelas ruas e becos da antiga Vila Boa, encenando a perseguição e prisão de Cristo.
A tradição foi trazida pelo padre espanhol João Perestello de Vasconcelos Spíndola e interrompida no início do século XX. A Organização Vilaboense de Artes e Tradições (OVAT) resgatou a celebração em 1965. Em 2023, a Procissão foi reconhecida como Patrimônio Cultural e Imaterial do Estado de Goiás pela Secretaria de Estado da Cultura. O evento atrai cerca de 20 mil pessoas por edição.

O que visitar na antiga capital do estado?
O centro histórico da Cidade de Goiás concentra igrejas, museus e praças em um perímetro compacto que se percorre a pé. Os destaques incluem:
- Museu Casa de Cora Coralina: casa do século XVIII com 16 cômodos, objetos pessoais, manuscritos e os tachos de cobre que a poetisa usava para fazer doces.
- Museu de Arte Sacra da Boa Morte: acervo de imagens do escultor Veiga Valle, instalado na Igreja da Boa Morte.
- Palácio Conde dos Arcos: antigo palácio dos governadores, construção do século XVIII com exposições históricas.
- Igreja de Santa Bárbara: vista panorâmica do Rio Vermelho e do casario colonial.
- Mercado Municipal: ponto de encontro para provar empadão goiano, pamonha e doces cristalizados.
Quem deseja explorar o coração histórico do Brasil, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Rolê Família, que conta com mais de 79 mil visualizações, onde os apresentadores mostram a gastronomia, os museus e o legado de Cora Coralina na charmosa Cidade de Goiás:
Quando o clima favorece a visita à Vila Boa?
O cerrado goiano tem duas estações bem definidas, e o momento da viagem muda a experiência. A tabela abaixo resume o que esperar em cada período:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à Cidade de Goiás?
O acesso mais comum é por Goiânia, a 140 km pela GO-070, em estrada asfaltada que leva cerca de duas horas. De Brasília, são aproximadamente 300 km pela BR-060 até Anápolis e depois pelas rodovias estaduais. A cidade não tem aeroporto, mas o Aeroporto Santa Genoveva de Goiânia recebe voos de todo o país, segundo informações do Goiás Turismo.
A cidade que encontrou no passado o seu futuro
A antiga Vila Boa perdeu o ouro, perdeu a condição de capital e quase perdeu a identidade. Foi uma poetisa doceira e um grupo de moradores teimosos que mostraram ao mundo o valor de um patrimônio que ninguém ousou modernizar. Hoje, a Cidade de Goiás é prova de que preservar pode ser o caminho mais ousado de todos.
Você precisa caminhar pelas ruas de pedra da Vila Boa, entrar na casa de Cora e entender por que ela escolheu voltar.









