A 100 km de São Paulo, Sorocaba carrega no nome a marca de um rio que rasga pedra. Em tupi, sorok-ab-a significa “lugar da rasgadura”. O que pouca gente sabe é que a mesma cidade abrigou a primeira fundição de ferro industrial da América Latina e viu nascer o homem que escreveu a história do Brasil.
Por que o rio que deu nome à cidade voltou a fornecer água?
O Rio Sorocaba nasce no alto da Serra São Francisco, em Votorantim, e perde cerca de 300 metros de altitude até cruzar o perímetro urbano. Nessa descida, rasga a terra, expõe rochas e forma corredeiras. O cenário pode ser visto até hoje na represa de Itupararanga.
Para o historiador Sérgio Coelho de Oliveira, os rios da bacia carregam a prova da presença indígena anterior à fundação: Pirapora, Ipanema, Sarapuí, Ipatinga. Todos nomes de origem tupi que reforçam o significado original do lugar.
Esse mesmo rio ficou impróprio por décadas de despejo industrial e urbano. Em 2000, o Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) iniciou um programa de despoluição com investimento de R$ 180 milhões e construção de sete estações de tratamento. Em 2021, a ETA Vitória Régia começou a captar água diretamente do rio para abastecimento público, usando tratamento à base de ozônio, tecnologia pioneira na América Latina em escala municipal, segundo a Prefeitura de Sorocaba.

A fábrica que fundiu ferro inédito e gerou o Visconde historiador
Em 12 de novembro de 1818, o engenheiro alemão Frederico Luiz Guilherme de Varnhagen fundiu ferro em escala industrial pela primeira vez na América Latina. O metal escorreu dos altos-fornos da Real Fábrica de Ferro São João do Ipanema, sob direção de Varnhagen desde 1814. O filho do diretor, Francisco Adolfo de Varnhagen, ali criado, tornou-se o Visconde de Porto Seguro, reconhecido como “o pai da História do Brasil”.
Da mesma fábrica saíram os canhões que equiparam a Revolução Liberal de 1842, fundidos pelo diretor Major João Bloem. Em 17 de março daquele ano, a Câmara Municipal aclamou o Brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar como presidente da Província de São Paulo. O Duque de Caxias veio pessoalmente sufocar a revolta.
Tobias casou-se oficialmente com a Marquesa de Santos, Domitila de Castro, em 1842. O folclore local insiste que ela o traía com Dom Pedro I, mas o caso entre Domitila e o imperador terminou em 1829, mais de uma década antes. A fábrica, hoje ruína dentro da Floresta Nacional de Ipanema administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), guarda vestígios de dois séculos de pioneirismo.

Como tropeiros e tecelões transformaram Sorocaba em potência
A partir de 1733, Sorocaba sediou a Feira de Muares, o maior mercado de animais de carga do Império. Tropeiros percorriam o Caminho de Viamão, do Rio Grande do Sul ao interior paulista, para negociar mulas, cavalos e mercadorias. O tropeirismo gerou mais riqueza que o próprio ciclo do açúcar em São Paulo e ajudou a financiar a futura economia cafeeira.
Quando o algodão deixou de render bons lucros na exportação, sorocabanos investiram no beneficiamento local. Em 1882, Manoel José da Fonseca inaugurou a Fábrica de Tecidos Nossa Senhora da Ponte. A Estrada de Ferro Sorocabana, aberta em 1875, escoava a produção. A primeira menção documentada ao apelido “Manchester Paulista” apareceu em 1895, no Jornal 15 de Novembro, comparando a cidade à metrópole inglesa que simbolizou a Revolução Industrial.
Vale a pena viver na Manchester Paulista hoje?
Com 723.682 habitantes no Censo 2022 do IBGE, Sorocaba é a segunda cidade mais populosa do interior do Brasil. A população cresceu 23,3% entre 2010 e 2022, o maior salto absoluto entre municípios do interior, segundo a Agência de Notícias de Sorocaba. Os indicadores abaixo ajudam a entender esse crescimento.
Rankings referem-se a municípios com mais de 273 mil habitantes.
Sorocaba abriga multinacionais como Toyota, Bosch e Pirelli, além do Parque Zoológico Quinzinho de Barros, com classificação “A” pelo IBAMA e mais de mil animais de 290 espécies. Na saúde, o Banco de Olhos de Sorocaba é referência latino-americana em transplante de córneas.
Em 2025, a cidade foi novamente campeã nacional em gestão pública no Prêmio Band Cidades Excelentes, repetindo o feito de 2021 e 2022, conforme a Agência de Notícias de Sorocaba. O acesso por rodovias como a Castello Branco e a Raposo Tavares coloca a capital paulista a menos de duas horas de carro.
Quem sonha em morar ou investir em Sorocaba, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal MAIS 50, que conta com mais de 196 mil visualizações, onde Dimas Moura mostra por que essa grande cidade do interior de São Paulo vale a pena:
Uma cidade que se reinventa desde o lombo das mulas
Sorocaba passou de parada de tropeiros a fábrica de ferro, de capital têxtil a referência em tecnologia e sustentabilidade. Cada ciclo deixou marcas no traçado urbano e na identidade de uma cidade que carrega no próprio nome a força de um rio que rasga pedra.
Se você nunca prestou atenção na Manchester Paulista, vale cruzar a Raposo Tavares e sentir de perto a energia de uma cidade que se reinventa há mais de 370 anos sem perder o sotaque do interior.








