Planejada por ingleses, batizada em homenagem a Londres e erguida sobre um dos solos mais férteis do planeta, Londrina cresceu tão rápido que ultrapassou todas as previsões. Da terra roxa do norte do Paraná saíram grãos que abasteceram o mundo e ideias que mudaram a forma como o Brasil pensa.
Por que uma cidade paranaense tem nome inglês?
Em 1929, a Companhia de Terras Norte do Paraná, subsidiária da britânica Paraná Plantations Ltd., fincou o primeiro marco onde surgiria a cidade. O nome foi ideia de João Domingues Sampaio, um dos diretores da companhia, como homenagem direta à capital do Reino Unido. A neblina matinal frequente no vale reforçou o apelido de Pequena Londres no imaginário dos primeiros moradores.
A fundação oficial veio em 10 de dezembro de 1934, por decreto do interventor Manoel Ribas. Os ingleses trouxeram uma novidade que marcou a colonização: dividiram a terra em lotes pequenos e acessíveis, permitindo que trabalhadores sem grandes posses comprassem suas próprias propriedades. A Prefeitura de Londrina registra que esse modelo foi considerado a mais notável obra de colonização que o Brasil já havia visto.

Quando metade do café do mundo saía de uma só cidade
O solo avermelhado do norte paranaense, batizado de terra roxa por influência do italiano “rossa”, abraçou o café como poucas regiões no mundo. Entre as décadas de 1940 e 1960, Londrina respondeu por cerca de 51% da produção mundial do grão. Fazendeiros locais eram chamados de Barões do Café, e os grãos, de Ouro Verde.
O Ministério do Turismo destaca Londrina como a capital do café paranaense. A população saltou de 20 mil para 75 mil habitantes em uma única década. O reinado terminou em julho de 1975, quando a geada negra dizimou cafezais inteiros e forçou a cidade a se reinventar com soja, milho, trigo e um setor de serviços que crescia a cada ano.

O filósofo que aprendeu a ler durante uma hepatite em Londrina
Em 5 de março de 1954, nasceu na Pequena Londres o menino Mario Sergio Cortella. Aos sete anos, forçado a ficar quatro meses em repouso por causa de uma hepatite, começou a devorar gibis e livros infantis. Sem televisão na cidade naquela época, o garoto avançou para leituras cada vez mais densas antes de completar a adolescência.
Cortella viveu em Londrina até os 13 anos e seguiu para São Paulo, onde se tornaria um dos filósofos mais lidos do Brasil. Com 52 livros publicados e mais de 3,8 milhões de exemplares vendidos, ele carrega a cidade na memória. Em entrevista à Folha de Londrina, resumiu o vínculo com a terra natal:
Eu nunca me desconectei dessa condição. Faz parte da minha trajetória, da minha memória. Londrina caminha dentro de mim, dentro da minha história.— Mario Sergio Cortella
Sua frase mais conhecida traduz a filosofia que construiu ao longo de décadas:
A Rota do Café que preserva a memória do Ouro Verde
Londrina transformou nostalgia em roteiro turístico. A Rota do Café percorre fazendas históricas de nove municípios do norte paranaense e oferece degustação de cafés especiais, visitas a propriedades centenárias e imersão na cultura dos imigrantes italianos, japoneses e alemães que moldaram a região. Em 2011, o roteiro ficou em primeiro lugar na categoria Roteiro Turístico do Programa de Regionalização do Ministério do Turismo.
No centro da cidade, o Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss, instalado na antiga estação ferroviária e vinculado à Universidade Estadual de Londrina (UEL), reúne mais de 40 mil peças entre documentos, fotografias e objetos do período cafeeiro. A poucos passos, o Cine Teatro Ouro Verde, inaugurado em 1952 e tombado como Patrimônio Histórico do Paraná, completa o circuito de memória da cidade.
Conheça a Pequena Londres que pensa grande
Londrina é a prova de que terra fértil produz mais do que grãos. Da mesma terra roxa que sustentou metade do café do mundo saiu um filósofo que ensina milhões de brasileiros a não se darem por prontos. A cidade que os ingleses planejaram para 30 mil habitantes já passou dos 580 mil e segue crescendo.
Vale atravessar o Paraná para conhecer Londrina e sentir o peso de uma história que cabe entre uma xícara de café e uma boa reflexão.








