Nenhum carro circula pelas trilhas de Ilha Grande. A maior ilha do estado do Rio de Janeiro, com 193 km² de Mata Atlântica preservada, abriga 106 praias, lagoas de água cristalina e o título de primeiro Patrimônio Misto da UNESCO no Brasil. Tudo isso a 150 km da capital fluminense.
Por que a ilha ficou proibida por quase um século?
Entre o final do século XIX e 1994, o governo brasileiro manteve Ilha Grande praticamente fechada ao público. Primeiro funcionou ali um lazareto para quarentena de imigrantes, depois um presídio de segurança máxima. O Instituto Penal Cândido Mendes, na Praia de Dois Rios, chegou a abrigar presos políticos durante a ditadura e nomes como Graciliano Ramos. A demolição do presídio, em 1994, abriu caminho para o turismo. O isolamento forçado, ironicamente, preservou a mata: hoje, 85% da cobertura vegetal nativa permanece intacta.
Os indígenas tamoios chamavam a ilha de Ipaum Guaçu. Foram eles que abriram as trilhas usadas até hoje por visitantes. Vestígios de comunidades de pescadores e coletores com mais de 3 mil anos foram identificados por pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) em diversas praias.

Primeiro Patrimônio Misto da UNESCO na América Latina
Em julho de 2019, o Comitê da UNESCO reconheceu Paraty e Ilha Grande como Patrimônio Mundial da Humanidade, conforme registrado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). O território de quase 149 mil hectares foi o primeiro sítio misto (cultural e natural) do Brasil e da América Latina. Dos mais de mil sítios reconhecidos no mundo, apenas 39 possuem essa classificação dupla.
A área inclui o Parque Estadual da Ilha Grande, a Reserva Biológica Estadual da Praia do Sul e forma o segundo maior remanescente florestal de Mata Atlântica do país. A Prefeitura de Angra dos Reis destaca que a ilha também é reconhecida pela BirdLife International como área prioritária para conservação de aves.

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O que fazer em 106 praias sem asfalto?
A Vila do Abraão é o ponto de partida. Não há estradas asfaltadas nem veículos particulares permitidos. Todo deslocamento é feito por trilha ou barco. As melhores experiências do roteiro:
- Praia de Lopes Mendes: quase 3 km de areia branca e águas transparentes, eleita a 7ª melhor praia do mundo pelo TripAdvisor em 2013. Acesso por trilha de 20 minutos a partir da Praia do Pouso.
- Lagoa Azul: piscina natural entre ilhotas com visibilidade de vários metros, ideal para snorkeling. Acesso por passeio de barco.
- Pico do Papagaio: trilha íngreme até 982 metros de altitude com vista panorâmica de toda a baía. Exige guia credenciado.
- Praia de Dois Rios: ruínas do antigo presídio, museu do cárcere e uma das praias mais desertas da ilha. Trilha de 3 km a partir do Abraão.
- Lagoa Verde: águas calmas e esverdeadas cercadas por vegetação, parada obrigatória nos passeios de escuna.
Quem busca o paraíso na Costa Verde do Rio de Janeiro, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Status Viajante, que conta com mais de 87 mil visualizações, onde a apresentadora mostra um roteiro completo de 3 dias pela Ilha Grande:
Quando visitar a maior ilha do Rio de Janeiro?
O clima tropical úmido traz calor o ano inteiro. O verão é a alta temporada, com chuvas de fim de tarde. O período mais seco vai de maio a agosto:
Temperaturas aproximadas com base na cidade de Angra dos Reis. Consulte a previsão atualizada no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a uma ilha sem carros?
Ilha Grande pertence ao município de Angra dos Reis, a 150 km do Rio de Janeiro pela BR-101 (Rio-Santos). A travessia mais rápida sai de Conceição de Jacareí (distrito de Mangaratiba) em lanchas rápidas que levam cerca de 20 minutos até a Vila do Abraão. De Angra dos Reis, o trajeto de lancha dura entre 35 e 40 minutos. Barcas também fazem a travessia a partir de Mangaratiba e Angra, com tempo maior. Não há caixas eletrônicos nem agências bancárias na ilha.
O paraíso que um presídio ajudou a preservar
Ilha Grande existe num paradoxo raro: décadas de isolamento forçado protegeram a mata que hoje encanta o mundo. São 106 praias, trilhas abertas por indígenas e um selo da UNESCO que poucos destinos no planeta carregam.
Você precisa descer da lancha no Abraão, pisar na areia e entender por que esta ilha sem carros, sem pressa e sem asfalto foi reconhecida como patrimônio de toda a humanidade.









