Se você tem ouvido um canto coletivo intenso vindo das árvores do bairro ou visto uma ave de barriga verde circulando em bando pela vizinhança, provavelmente já convive com a caturrita. Ela não aparece por acaso: busca ambientes com alimento abundante e espaços seguros para seus ninhos comunitários, e sua presença revela muito sobre o estado do verde urbano ao redor.
Que ave é a caturrita e de onde ela vem?
Conforme documentado pela WikiAves, a caturrita (Myiopsitta monachus), também chamada de periquito-monge, é nativa dos pampas da América do Sul. No Brasil, sua ocorrência natural se concentra nas regiões Sul e Centro-Oeste, com distribuição que se estende por Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia.
Ela se destaca entre os psitacídeos por viver em grupos de 15 a 50 indivíduos e por ser a única espécie de papagaio do mundo que constrói ninhos de gravetos em vez de usar cavidades naturais. Esses ninhos volumosos fixados em árvores altas, postes e torres de energia são o sinal mais visível de que uma colônia se estabeleceu na vizinhança.

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O que significa quando essa ave aparece perto da sua casa?
A presença das caturritas indica que o ambiente oferece condições específicas para sustentá-las. Elas percorrem diferentes áreas verdes em busca de sementes, frutos e brotos, e só se fixam onde encontram recursos suficientes. Alguns indicadores do ambiente que essa ave sinaliza:
- Árvores altas e firmes disponíveis: a espécie prefere estruturas robustas para fixar seus ninhos, com ocupação média de 89,7% dos ninhos identificados em estudos urbanos.
- Disponibilidade de alimento: sementes, frutos e brotos acessíveis na vizinhança imediata sustentam o bando ao longo do ano.
- Ambiente favorável para fauna urbana: a presença delas indica que o local pode abrigar diferentes espécies de aves e animais silvestres.
- Função ecológica ativa: ao se mover e se alimentar, as caturritas atuam como dispersoras de sementes, reforçando funções ecológicas no entorno.
O canal Osvaldo Scalabrini, com mais de 225 mil inscritos, registrou a ave em seu habitat natural no Pantanal, com imagens próximas do bando e dos ninhos comunitários:
Essa ave é benéfica ou prejudicial para o meio ambiente urbano?
Um estudo publicado em Communications Biology (Nature, 2025), que monitorou interações planta-pássaro ao longo de um ciclo anual completo em ambientes urbanos e periurbanos, mostrou que periquitos invasores, incluindo a caturrita, funcionam simultaneamente como antagonistas e mutualistas: ampliam a conectividade entre redes ecológicas e criam interações entre espécies que anteriormente não se relacionavam.
O quadro completo exige cautela. Dentro do seu território nativo na América do Sul, a presença da caturrita é ecologicamente natural. Fora desse range, como em cidades do sudeste brasileiro e em países europeus como Espanha e Itália, a espécie é classificada como invasora biológica, com populações urbanas originadas de aves escapadas que continuam em expansão.

Como atrair essa ave para o jardim de forma responsável?
Se a presença das caturritas é agradável e você vive na área de distribuição nativa da espécie, algumas adaptações simples no jardim são suficientes para estimulá-la. A recomendação é criar condições naturais, sem oferecer alimento processado ou industrializado:
- Plantar árvores frutíferas ou espécies com sementes que sirvam como fonte de alimento regular ao longo do ano.
- Manter árvores altas ou palmeiras onde possam pousar e eventualmente construir ninhos comunitários.
- Disponibilizar recipientes com água fresca, especialmente nos dias de calor intenso.
- Evitar podas excessivas nas árvores para não eliminar os locais de descanso e nidificação preferidos pela espécie.

Qual é a diferença entre a caturrita nativa e a invasora?
O contexto geográfico muda completamente a classificação ecológica da espécie. No Sul e Centro-Oeste do Brasil, Argentina e Uruguai, a caturrita é parte do equilíbrio natural e atua na dispersão de sementes. No sudeste brasileiro e na Europa, populações originadas de aves escapadas de cativeiro se expandem sem controle e podem pressionar espécies nativas locais.
Essa distinção importa para quem deseja atrair ou manejar a espécie de forma responsável. Identificar se você está na área de ocorrência natural da ave é o primeiro passo antes de qualquer intervenção no jardim ou no entorno.
A caturrita como termômetro do verde urbano
Longe de ser algo negativo em seu contexto nativo, a presença dessa ave indica que o entorno mantém condições favoráveis para a vida silvestre. O canto forte e os ninhos volumosos que chamam atenção são, na verdade, sinais de que a natureza ainda encontra espaço para acontecer bem pertinho de quem mora na cidade.
Observar as caturritas no cotidiano urbano é também uma forma de monitorar, sem nenhum equipamento, a qualidade do verde ao redor. Onde essa ave se instala e prospera, o ambiente ainda oferece o mínimo necessário para a fauna silvestre coexistir com as pessoas.









