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Início Ciência

Eles perfuraram 523 metros de gelo na Antártida com água quente para alcançar uma rocha de 23 milhões de anos.

Gessika Julia Por Gessika Julia
01 abril 2026 19:05
Em Ciência
Eles perfuraram 523 metros de gelo na Antártida com água quente para alcançar uma rocha de 23 milhões de anos.

Núcleo de rocha na Antártida revela segredos sobre o clima global

Uma grande perfuração na camada de gelo da Antártida Ocidental trouxe novas pistas sobre a história do clima da Terra e sobre o futuro do nível dos mares. A partir de um furo profundo aberto com água quente em Crary Ice Rise, pesquisadores conseguiram retirar um longo núcleo de rochas e sedimentos, capaz de registrar mudanças ambientais ao longo de milhões de anos. Esse tipo de informação é considerado estratégico para entender como o continente gelado responde a períodos de aquecimento global e para melhorar projeções sobre Antártida Ocidental e mudanças climáticas.

O que revela o núcleo de rocha da Antártida Ocidental?

O núcleo retirado sob a camada de gelo da Antártida Ocidental funciona como uma espécie de arquivo natural do clima. Cada camada de sedimento preserva pistas sobre a temperatura, a presença de gelo, a influência do oceano e as condições ambientais em diferentes épocas.

Em um único cilindro de material geológico, é possível acompanhar a alternância entre períodos mais frios, com gelo espesso, e fases mais quentes, com maior presença de água líquida e vida marinha. Essas informações refinam o entendimento sobre como a Antártida Ocidental e o nível do mar já variaram no passado e podem variar no futuro próximo, especialmente em cenários de emissões altas descritos pelo IPCC.

Antártida Ocidental
O núcleo retirado sob a camada de gelo da Antártida Ocidental funciona como uma espécie de arquivo natural do clima.

Antártida já esteve sem gelo em grandes áreas?

As análises iniciais indicam que o material recuperado cobre cerca de 23 milhões de anos de história. Em alguns trechos, há cascalho grosso e fragmentos de rochas grandes, associados à passagem de geleiras intensas, enquanto em outros aparecem lamas finas, restos marinhos e sinais de organismos que dependem de luz.

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Essa combinação sugere que a calota de gelo da Antártida Ocidental já recuou de forma significativa, permitindo a entrada do oceano em áreas hoje completamente congeladas. A presença de sedimentos marinhos e de restos de organismos ligados a ambientes iluminados indica que, em determinados intervalos, o local foi ocupado por águas abertas com temperaturas globais mais altas que as atuais, semelhantes às de períodos quentes como o Plioceno.

Leia também: Tubarão gigante é flagrado na Antártida e desafia tudo o que a ciência sabia sobre os oceanos

Por que a Antártida Ocidental é crucial para o futuro do nível do mar?

A calota da Antártida Ocidental é alvo de atenção porque contém gelo suficiente para elevar o nível médio dos oceanos em cerca de 4 a 5 metros, caso derreta por completo. Embora esse cenário extremo não seja imediato, parte do gelo já mostra sinais de afinamento e instabilidade em resposta ao aquecimento dos oceanos, especialmente nas geleiras Thwaites e Pine Island.

Ao combinar o novo registro geológico com modelos numéricos, pesquisadores buscam estimar em que ritmo essa elevação do mar pode ocorrer em um cenário de aquecimento contínuo. Esses dados ajudam países a planejar políticas de adaptação em cidades vulneráveis a inundações, e alguns impactos práticos podem ser observados em diferentes setores:

  • Avaliação de riscos de inundação em cidades costeiras e estuários, apoiando planos alinhados ao Acordo de Paris
  • Definição de zonas adequadas para expansão urbana sustentável
  • Planejamento de portos e rotas marítimas em cenários de mar mais alto
  • Revisão de seguros e normas para construções em áreas litorâneas
  • Proteção de comunidades vulneráveis em regiões de baixa altitude
Antártida Ocidental
A calota da Antártida Ocidental é alvo de atenção porque contém gelo suficiente para elevar o nível médio dos oceanos em cerca de 4 a 5 metros, caso derreta por completo.

Como o registro climático da Antártida é analisado pelos cientistas?

Depois de extraído, o núcleo de 228 metros é dividido em seções menores e catalogado com rigor. Em laboratórios de diferentes países, equipes examinam cor, textura, composição mineral e conteúdo biológico de cada camada para reconstruir o ambiente antigo.

A análise inclui técnicas de datação e estudos de isótopos para estimar idade das camadas, concentração de dióxido de carbono e mudanças na circulação oceânica. A partir disso, os resultados sobre Antártida Ocidental e mudanças climáticas são integrados a relatórios internacionais que orientam metas de emissões e estratégias de adaptação, como os produzidos pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), com aplicações como as que seguem:

  • Planejamento de longo prazo para energia, transporte e habitação
  • Criação de políticas públicas voltadas à adaptação costeira, articuladas com a ONU e iniciativas globais
  • Suporte a decisões econômicas em setores expostos ao aumento do nível do mar

Se você quer saber mais, separamos o vídeo do TikTok “canalciencianews” falando sobre essa curiosidade:

@canalciencianews

PERFURARAM 500m DE GELO… E REVELARAM UM MISTÉRIO #Antártida #Mistério #Descoberta #Natureza #PlanetaTerra Cientistas perfuraram mais de 523 metros de gelo na Elevação de Gelo de Crary, na Antártida Ocidental, e extraíram um núcleo de sedimento de 228 metros — o mais profundo já obtido sob uma camada de gelo. O projeto internacional SWAIS2C encontrou fósseis marinhos preservados no sedimento, revelando que a região já foi um oceano aberto durante períodos mais quentes da história da Terra. Os registros podem abranger até 23 milhões de anos, incluindo épocas em que a temperatura global estava mais de 2 °C acima dos níveis pré-industriais. Essas evidências são fundamentais para prever como a Calota de Gelo da Antártica Ocidental pode reagir ao aquecimento global atual.

♬ som original – Canal Ciência News

Que lições a Antártida Ocidental oferece sobre o futuro do clima?

Ao revelar que a Antártida Ocidental já enfrentou fases de recuo intenso da camada de gelo, esse tipo de pesquisa mostra como o planeta reage a períodos de forte aquecimento. Esses registros indicam que o sistema de gelo pode entrar em um regime semelhante ao de fases históricas de retração, com possível aceleração do derretimento.

Essas evidências ampliam a capacidade de antecipar tendências de longo prazo e de preparar regiões costeiras para um futuro em que o oceano possa ocupar espaços hoje em terra firme. Assim, estudar a Antártida Ocidental e o nível do mar deixa de ser assunto restrito a expedicionários e climatologistas e passa a integrar o planejamento urbano e econômico de vários países, influenciando decisões de órgãos como o IPCC e de acordos climáticos internacionais.

Tags: Antártida OcidentalCiênciagelorocha da Antártida

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