Um tubarão fóssil de aproximadamente 150 milhões de anos está desafiando o que se sabe sobre a evolução dos tubarões modernos. Encontrado no Calcário de Solnhofen, na Baviera, na Alemanha, o animal combina traços anatômicos de grupos tão distintos que os pesquisadores não conseguem enquadrá-lo com segurança em nenhuma ordem de tubarão existente hoje.
O que é o Calcário de Solnhofen?
O Calcário de Solnhofen é uma das formações geológicas mais celebradas da paleontologia mundial. Depositado no Jurássico Superior, o sedimento fino e de baixa energia preserva organismos com um nível de detalhe raramente visto em outras formações, incluindo tecidos moles, escamas e estruturas delicadas que normalmente desaparecem antes da fossilização.
Foi nessa mesma rocha que o Archaeopteryx foi descoberto, o fóssil mais famoso da transição entre dinossauros e aves. O tubarão fóssil batizado de Bavariscyllium veio do mesmo ambiente, o que explica em parte a qualidade excepcional de preservação que permitiu a análise detalhada de seus traços anatômicos.

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Quem estudou o tubarão fóssil Bavariscyllium e onde publicou?
Segundo a cobertura do Phys.org sobre a pesquisa, o estudo foi liderado por Sebastian Stumpf, do Museu de História Natural de Viena e da Universidade de Viena, e publicado em fevereiro de 2026 na revista Communications Biology. A equipe analisou vários esqueletos novos e dentes isolados de Bavariscyllium, o que permitiu uma avaliação muito mais precisa do que havia sido possível anteriormente.
A reanálise foi determinante: o Bavariscyllium havia sido originalmente classificado entre os tubarões-terra, mas os novos espécimes deixaram claro que essa atribuição não se sustentava diante da anatomia completa do animal.
Quais características do tubarão fóssil não se encaixam em nenhuma ordem?
O Bavariscyllium media apenas 25 centímetros de comprimento, mas concentra num corpo pequeno uma combinação de traços que, nos tubarões modernos, pertencem a linhagens completamente separadas.
Entre as características identificadas estão:
- Um órgão sensorial semelhante a um bigode na região da garganta, estrutura hoje encontrada apenas em alguns tubarões-carpete, o mesmo grupo do tubarão-baleia, o maior peixe vivo
- Dentes com morfologia típica dos tubarões-gato, pertencentes à ordem dos tubarões-terra (Carcharhiniformes), o grupo mais rico em espécies, que inclui o tubarão-martelo e o tubarão-tigre
- Corpo fino e alongado que não corresponde ao padrão morfológico de nenhuma das ordens de tubarões existentes hoje

A evolução dos tubarões foi mais variável do que se pensava
O estudo publicado na Communications Biology conclui que o Bavariscyllium exibe traços reminiscentes tanto dos tubarões-carpete quanto dos tubarões-terra, mas insuficientes para situá-lo com segurança em qualquer um dos grupos. Segundo Stumpf, formas como essa ilustram como foi altamente variável a evolução inicial dos tubarões modernos.
Os resultados sugerem que os tubarões desenvolveram uma variedade de formas corporais muito antes do que se imaginava. O que parecia ser uma diversificação relativamente recente pode ter raízes muito mais profundas no tempo geológico, com linhagens experimentando combinações anatômicas que não sobreviveram até o presente.
Por que o Bavariscyllium obriga a rever as estimativas de idade dos tubarões?
Dentes são os fósseis mais comuns dos tubarões, já que o esqueleto cartilaginoso raramente se preserva, e por isso são amplamente usados como marcadores cronológicos. O problema identificado no estudo é que dentes semelhantes aos de uma ordem específica podem pertencer a formas intermediárias como o Bavariscyllium, distorcendo as estimativas de quando cada linhagem surgiu.
Segundo Stumpf, isso cria ao menos três implicações diretas para a paleontologia:
- Atribuições taxonômicas baseadas apenas em dentes isolados precisam ser tratadas com mais cautela
- Estimativas de idade para o surgimento de ordens como os tubarões-terra podem estar equivocadas
- Formas enigmáticas do Jurássico podem estar inflando artificialmente a antiguidade de certos grupos modernos

O que esse tubarão fóssil diz sobre os limites da classificação atual
A dificuldade de classificar o Bavariscyllium não é uma falha metodológica: é exatamente o ponto central do estudo. O animal existiu num período em que as linhagens de tubarões modernos ainda estavam se separando, e sua anatomia reflete um momento em que as fronteiras entre os grupos ainda eram porosas e as formas intermediárias, abundantes.
Para a paleontologia, fósseis como esse são mais valiosos do que espécimes facilmente classificáveis. Um tubarão fóssil de 25 centímetros que não cabe em nenhuma caixa taxonômica é, precisamente por isso, um registro do momento em que essas caixas ainda estavam sendo construídas pela evolução.









