A semaglutida e a tirzepatida mudaram o tratamento da obesidade de forma inegável. Pacientes perdem entre 15% e 21% do peso corporal em ensaios clínicos, resultados que antes só eram vistos com cirurgia bariátrica. Mas à medida que o uso dessas medicações se expande, uma preocupação metabólica ganha espaço entre médicos e pesquisadores: parte do peso perdido não é gordura, mas massa muscular. Entender o quanto isso é real, em que situações representa risco e o que a literatura científica recomenda para evitar é essencial para quem está em tratamento ou considera iniciar.
Quanto de músculo se perde com os medicamentos GLP-1?
Os números variam dependendo do estudo, da população analisada e do método de medição utilizado. Uma metanálise publicada no final de 2024, que reuniu 22 ensaios clínicos randomizados com 2.258 participantes, identificou que a perda de massa magra corresponde a aproximadamente 25% do total de peso perdido com agonistas do receptor GLP-1. Outros estudos relatam proporções entre 15% e 40%, dependendo de quanto tempo durou o tratamento e se havia intervenção nutricional e de exercício associada.
Parte dessa variação tem uma explicação técnica importante. O que os estudos chamam de “massa magra” inclui não só músculo esquelético, mas também órgãos, ossos, líquidos e tecido conjuntivo. Uma análise do fisiologista Keith Baar, da Universidade da Califórnia em Davis, aponta que boa parte da redução de massa magra relatada com o uso de GLP-1 vem do fígado, que encolhe com a perda de gordura hepática, e não propriamente do tecido muscular. Isso não elimina o risco, mas contextualiza os dados.
A perda muscular com GLP-1 é diferente da que ocorre em dietas comuns?
Essa é uma das perguntas centrais da pesquisa atual. Um estudo de grande escala usando randomização mendeliana, conduzido pela Universidade de Hong Kong e publicado em 2025 com dados de mais de 800 mil indivíduos, confirmou que os medicamentos GLP-1 reduzem tanto gordura quanto músculo, mas a perda de gordura é substancialmente maior. A composição corporal resultante é favorável quando comparada ao peso de partida. Análises com ressonância magnética, incluindo o subestudo SURPASS-3 com tirzepatida, mostram ainda que a qualidade do músculo que permanece melhora, graças à redução da miosteatose, que é o acúmulo de gordura dentro do tecido muscular.

Quem corre mais risco de perder músculo em quantidade preocupante?
A ciência é mais clara nesse ponto. Grupos específicos precisam de atenção redobrada durante o tratamento com semaglutida ou tirzepatida. Os principais fatores de risco para perda muscular clinicamente relevante incluem:
- Idade avançada, especialmente acima dos 60 anos, quando a síntese proteica já está naturalmente reduzida
- Baixa massa muscular de base, condição chamada de pré-sarcopenia
- Sedentarismo, já que a ausência de estímulo mecânico acelera o catabolismo
- Ingestão proteica insuficiente durante o período de restrição calórica induzida pelo medicamento
- Perda de peso muito rápida, associada a doses altas sem adaptação progressiva
Um estudo de coorte prospectivo apresentado no Congresso Europeu de Obesidade de 2025, com 200 adultos tratados por seis meses com semaglutida ou tirzepatida, mostrou que mulheres perderam em média 10,8 kg de gordura, mas apenas 0,63 kg de músculo. Homens perderam 12 kg de gordura contra apenas 1 kg de músculo. Esses resultados foram alcançados com supervisão médica, orientação nutricional e prática de treinamento resistido, o que sugere que o contexto do tratamento é tão determinante quanto a molécula.
O que a ciência recomenda para preservar a massa muscular
Em maio de 2025, um grupo de especialistas de diferentes sociedades científicas publicou um consenso chamado Prioridades Nutricionais para Apoiar a Terapia com GLP-1 para Obesidade. O documento estabelece diretrizes práticas para reduzir o risco de perda muscular excessiva em pacientes usando esses medicamentos. As principais recomendações são:
- Consumo de proteínas entre 1,2 e 1,6 g por quilograma de peso corporal ideal por dia, bem acima da recomendação padrão de 0,8 g/kg
- Treinamento de força pelo menos duas vezes por semana, com exercícios multiarticulares como agachamentos, levantamentos e supinos
- Distribuição da proteína ao longo das refeições do dia, evitando concentrá-la em apenas uma refeição
- Monitoramento regular da composição corporal, não apenas do peso na balança
- Atenção especial à ingestão de cálcio, vitamina D e magnésio, sobretudo em idosos e mulheres na pós-menopausa
O papel do treinamento de força vai além do músculo
Pesquisadores do American College of Sports Medicine recomendam que pacientes em uso de agonistas GLP-1 façam sessões de musculação direcionadas a todos os grupos musculares principais, com séries de 8 a 12 repetições, pelo menos duas vezes por semana em dias não consecutivos. O treinamento de força não apenas atenua a perda muscular como também sustenta o metabolismo de repouso, que tende a cair com a redução do peso corporal. Músculo esquelético é o maior sítio de captação de glicose do organismo, o que significa que preservá-lo tem impacto direto no controle glicêmico, na imunidade e na proteção óssea.
O que está sendo desenvolvido para tornar esse processo mais preciso
A pesquisa sobre GLP-1 e composição corporal avança rapidamente. No encontro anual da American Diabetes Association em 2025, foram apresentados dois estudos relevantes. O primeiro mostrou que o bimagrumab, um anticorpo monoclonal que bloqueia a proteína ativina tipo II, quando combinado com semaglutida, permitiu perda de gordura com preservação ou até ganho de massa muscular. O segundo introduziu um biossensor capaz de rastrear a fenilalanina, um aminoácido liberado durante a degradação muscular, permitindo monitoramento em tempo real da perda de músculo durante o tratamento. Essas ferramentas ainda estão em fase de ensaios clínicos, mas sinalizam que o campo caminha para personalizar cada vez mais o acompanhamento de quem usa esses medicamentos.
A semaglutida e a tirzepatida são ferramentas terapêuticas com eficácia comprovada, mas seu potencial real depende do que é feito em paralelo ao medicamento. A preservação da massa muscular não é um detalhe secundário: ela define se o resultado final na balança representa ganho de saúde metabólica e funcional ou apenas redução de número. Proteína adequada, treinamento de força e acompanhamento profissional continuam sendo os pilares que determinam a qualidade da perda de peso, independentemente da molécula utilizada.





