Há 125 milhões de anos, um ninho com 13 filhotes de dinossauro foi soterrado no nordeste da China e preservado intacto até ser escavado por pesquisadores. O que a equipe conjunta da Universidade de Jilin e da Universidade de Toronto encontrou dentro desses corpos minúsculos derrubou o que a ciência acreditava sobre como o Psittacosaurus se alimentava nos primeiros meses de vida.
O ninho que guardou 13 filhotes de dinossauro intactos por 125 milhões de anos
Os fósseis vêm da Formação Yixian, na Província de Liaoning, uma das regiões mais ricas em fósseis do mundo. Os 13 indivíduos foram confirmados como filhotes com menos de um ano pela análise dos próprios ossos: o tecido era do tipo de crescimento rápido, com alta irrigação sanguínea e sem as marcas de interrupção que aparecem em animais mais velhos.
Todos os 13 preservavam aglomerados de pedras na região abdominal, exatamente onde ficaria o estômago. Isso confirmou que o comportamento era sistemático e não resultado de ingestão acidental de areia ou terra.

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As pedras que funcionavam como um estômago extra
Muitos animais engolem pedras para triturar o alimento que os dentes não conseguem pulverizar. Em aves modernas, os músculos do estômago pressionam o alimento contra essas pedras, quebrando materiais duros e fibrosos. O Psittacosaurus funcionava de forma parecida: seu bico cortava plantas, mas os dentes não trituravam com eficiência suficiente.
O estudo publicado no periódico Science China Earth Sciences confirmou que essas pedras, chamadas de gastrólitos, tinham função digestiva real nos filhotes. Nos adultos, esse comportamento já era conhecido, mas ninguém esperava encontrá-lo em animais tão jovens. Nos filhotes, a estratégia servia para:
- Triturar vegetais duros e fibrosos que os dentes pequenos não conseguiam processar
- Compensar a menor força de mordida dos animais jovens
- Garantir melhor aproveitamento dos nutrientes desde os primeiros meses de vida

Como os pesquisadores provaram que não era coincidência?
A presença de pedras no abdômen de um único filhote poderia ser descartada como acidente. Encontrá-las em todos os 13 indivíduos do mesmo ninho, na mesma posição anatômica, tornou a hipótese de coincidência praticamente impossível.
Segundo o comunicado divulgado pelo EurekaAlert, os pesquisadores compararam a quantidade de pedras com uma curva já estabelecida para aves vivas, que relaciona o peso do animal com a quantidade ingerida. Os filhotes do Psittacosaurus caíram na faixa esperada para animais que realmente usam pedras para digerir.
O que as pedras revelam sobre onde esses filhotes viviam?
As pedras de um dos espécimes foram analisadas individualmente. A maioria era de rocha vulcânica local, com superfícies rugosas e formas entre angulosas e arredondadas. A maior delas media 1,5 cm, tamanho considerável para um animal com menos de um ano de vida.
Pesquisas anteriores sobre gastrólitos em dinossauros já indicavam que a composição das pedras reflete os materiais disponíveis nas imediações do animal. A origem local das rochas sugere que os filhotes as obtinham perto do ninho, sem se deslocar longas distâncias, apontando para uma área de vida bem restrita nos primeiros meses de existência.
Para entender melhor como funciona a ingestão de pedras em dinossauros, o canal Philipessauro, com mais de 3 mil inscritos especializados em paleontologia, aborda o tema com precisão no vídeo a seguir:
Uma estratégia alimentar que desafiou o que a ciência acreditava
Uma análise biomecânica publicada em 2021 no periódico Palaeontology sugeria que os filhotes de Psittacosaurus teriam uma dieta diferente da dos adultos, já que mordiam com muito menos força. A nova descoberta inverte essa lógica ao mostrar que a estratégia digestiva era a mesma desde o nascimento.
“A presença dessas pedras fornece informações valiosas e contribui para a reconstrução da biologia deste dinossauro herbívoro”, escreveu Longhan Wang, autor principal do estudo.
As implicações para a ciência são diretas:
- A dieta do Psittacosaurus era mais parecida entre jovens e adultos do que se supunha
- A ingestão de pedras como estratégia digestiva surgiu muito cedo na vida do animal
- O modelo de história de vida da espécie precisa ser revisado à luz desses dados
Por que o Psittacosaurus é o dinossauro não aviário mais completo da história?
Com mais de 1.000 espécimes catalogados, cobrindo desde ovos até adultos, o Psittacosaurus é o dinossauro não aviário mais bem documentado que existe. Pertencia ao mesmo grupo do famoso Triceratops, mas era bípede, menor e mais primitivo.
Esse volume de fósseis o torna uma referência única para entender como os dinossauros cresciam e se comportavam. Cada achado bem preservado em espécimes jovens tem potencial de reescrever capítulos inteiros da paleontologia, e este ninho com 13 filhotes é mais um exemplo disso.








