Quando uma mudança acontece no centro da Terra, é fácil imaginar um cenário alarmante. Mas o caso do núcleo interno é mais técnico do que apocalíptico: ele quase zerou sua rotação relativa e pode ter entrado em uma nova fase de oscilação.
O que muda no núcleo interno da Terra?
Segundo o estudo publicado na Nature Geoscience, os sismólogos Yi Yang e Xiaodong Song, da Universidade de Pequim, identificaram sinais de que o núcleo interno da Terra quase cessou sua rotação relativa na última década analisada.
A descoberta não significa que o centro do planeta tenha parado de girar em sentido absoluto. A análise divulgada pela Science News explica que o núcleo pode alternar fases em que gira ligeiramente mais rápido ou mais devagar que a superfície.

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Como ondas sísmicas revelam a rotação da Terra?
Como ninguém acessa diretamente o centro do planeta, pesquisadores usam ondas sísmicas geradas por terremotos como uma espécie de exame indireto. Elas atravessam o núcleo interno sólido e mudam seu tempo de propagação conforme cruzam regiões profundas.
Na prática, a leitura sísmica usada para identificar a rotação relativa depende de comparações muito precisas:
- Os pesquisadores analisam terremotos repetidos, registrados em regiões semelhantes ao longo dos anos.
- As ondas atravessam o núcleo interno antes de chegar aos sensores sísmicos.
- Pequenas diferenças no tempo de chegada indicam mudanças na rotação relativa.
- A comparação entre décadas permite detectar fases de super-rotação, desaceleração e possível sub-rotação.

Por que a Terra não parou nem girou ao contrário?
De acordo com o Observatório Nacional, a leitura correta é que o núcleo interno quase parou em relação ao restante do planeta, não que a rotação global tenha sido interrompida.
Até cerca de 2009, os dados indicavam uma super-rotação, com o núcleo girando um pouco mais rápido que a superfície. Segundo a divulgação da ScienceDaily, uma equipe liderada por John Vidale, da Universidade do Sul da Califórnia, reforçou em 2024 que o núcleo interno desacelerou desde o fim dos anos 2000.
O que o ciclo de 70 anos sugere?
O registro científico indexado no PubMed também descreve a desaceleração como uma mudança detectável por sinais sísmicos. A hipótese defendida por Yi Yang e Xiaodong Song é que o núcleo interno participe de uma oscilação multidecadal de aproximadamente 70 anos.
Para visualizar melhor como as ondas sísmicas revelam o interior profundo, o canal Nas Fronteiras do Universo, com mais de 108 mil inscritos e 312.565 visualizações nesse conteúdo, explica com Sérgio Sacani por que a oscilação do núcleo não significa o fim do planeta:
O modelo organiza a mudança como um ciclo, não como um evento isolado. Os marcos propostos ajudam a entender a sequência:
- Início dos anos 1970: uma virada anterior aparece nos registros sísmicos analisados.
- 2009 e 2010: a rotação relativa quase zera e começa uma fase mais lenta.
- Meados dos anos 2040: o modelo sugere uma possível nova virada no ciclo.
Quais efeitos essa mudança pode ter na Terra?
Os efeitos diretos para a vida cotidiana são mínimos. A mudança pode influenciar variações muito pequenas na duração dos dias, na escala de milissegundos, algo imperceptível para humanos, mas detectável por instrumentos de alta precisão.
O interesse científico está na ligação entre o núcleo interno sólido, o núcleo externo líquido e o manto terrestre. Essa interação pode ter relação com oscilações de longo prazo no campo magnético terrestre, mas ainda não há consenso sobre efeitos diretos em clima global, placas tectônicas ou terremotos.
O que a Terra mostra sobre seu próprio centro?
A parte mais importante da descoberta é separar ciência de alarmismo. A mudança no núcleo interno é relevante para entender a dinâmica profunda do planeta, mas não aponta para uma catástrofe geológica iminente.
O centro da Terra continua inacessível aos olhos, mas não está mudo. Suas oscilações deixam marcas sutis em terremotos antigos e recentes, permitindo que a ciência transforme diferenças quase invisíveis em informação sobre o funcionamento profundo do planeta.









