Você se lembra daquele teste em que uma criança precisa resistir a um marshmallow para ganhar dois? Uma sépia, parente do polvo, acaba de passar por ele com louvor. Cientistas da Universidade de Cambridge descobriram que esses moluscos esperam até 130 segundos por um camarão melhor e, mais impressionante, os indivíduos mais pacientes são também os que aprendem mais rápido.
O que é o Experimento do Marshmallow e por que ele ficou famoso?
O teste foi criado pelo psicólogo Walter Mischel, da Universidade de Stanford, no final dos anos 1960. Uma criança é colocada sozinha com um marshmallow à frente e recebe uma escolha: comer agora ou esperar 15 minutos e receber dois.
O teste mede a capacidade de adiar a gratificação, habilidade cognitiva que envolve planejamento futuro, memória de trabalho e controle dos impulsos. Conforme estudos de acompanhamento realizados por Mischel em 1988, crianças que esperaram mais tempo foram descritas pelos pais como adolescentes significativamente mais competentes mais de 10 anos depois.
Uma ressalva importante: uma revisão metodológica de 2018 sugeriu que tanto a capacidade de esperar quanto os resultados futuros podem ser explicados principalmente pelo background socioeconômico da criança, não pelo autocontrole em si. O teste permanece uma ferramenta válida para medir controle inibitório pontual.

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Como os pesquisadores adaptaram o teste para uma sépia?
A pesquisadora Alexandra Schnell, da Universidade de Cambridge, liderou o estudo em colaboração com o cientista Roger Hanlon, do Laboratório de Biologia Marinha de Woods Hole, nos EUA. Como não é possível explicar regras verbalmente a um animal, a solução foi criar um sistema visual de câmaras e portas coloridas.
O funcionamento do experimento adaptado seguiu estas etapas:
- Treinamento inicial: as sépias aprenderam que determinadas cores de porta sinalizavam qual alimento estava disponível e quando seria liberado.
- O dilema: em cada teste, o animal via duas opções simultâneas: um camarão cozido (menos preferido) disponível imediatamente e um camarão vivo (fortemente preferido) em câmara fechada com espera variável.
- A consequência: se a sépia comesse o camarão cozido imediatamente, a câmara com o camarão vivo fechava, exatamente como a criança que come o marshmallow e perde a segunda recompensa.

Quais foram os resultados que surpreenderam os pesquisadores?
Todas as sépias testadas conseguiram esperar pela recompensa preferida, tolerando períodos de 50 a 130 segundos de espera. Conforme análise publicada pela Earth.com, o desempenho foi comparável ao observado em vertebrados de grande cérebro como chimpanzés, corvos e papagaios.
Alexandra Schnell comentou: “Foi bastante surpreendente que as sépias conseguissem esperar mais de dois minutos por um alimento melhor.” O achado mais impactante foi a correlação entre paciência e aprendizagem: as sépias que esperaram mais também aprenderam mais rapidamente em um teste de inversão de aprendizagem, onde a regra era invertida sem aviso, exigindo flexibilidade cognitiva.
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Por que uma sépia teria desenvolvido essa capacidade cognitiva?
As sépias são predadores de emboscada que passam longos períodos se camuflando e aguardando o momento adequado para atacar. Durante esse tempo, não se alimentam. A capacidade de resistir a presas de menor qualidade enquanto aguardam uma oportunidade melhor pode ser uma adaptação direta a esse estilo de vida.
Um detalhe intrigante: as sépias têm vida média de apenas 1 a 2 anos, tempo muito curto para um animal com tamanha capacidade cognitiva. Isso levanta questões sobre a velocidade e a intensidade do desenvolvimento cerebral desses moluscos.

Como o cérebro da sépia se diferencia do de humanos e primatas?
O dado mais perturbador para a neurociência é que as sépias não possuem o córtex pré-frontal, estrutura responsável pelo controle inibitório em humanos e primatas. Cerca de dois terços dos neurônios de um cefalópode não estão no cérebro central, mas distribuídos pelos tentáculos, que funcionam de forma semi-autônoma.
Isso sugere que o autocontrole pode ser uma solução cognitiva convergente: evoluiu independentemente em múltiplas linhagens animais que enfrentam o mesmo problema ecológico de equilibrar recompensas imediatas e futuras em ambientes imprevisíveis.
Outros animais que já passaram no teste do marshmallow
A sépia não é o único animal não humano com capacidade documentada de adiar a gratificação. A tabela abaixo compara o desempenho das espécies mais estudadas:
| Animal | Desempenho no teste | Observação |
|---|---|---|
| Chimpanzés e grandes primatas | Muito consistente | Comparável a crianças de 4 a 6 anos |
| Corvos e papagaios | Alto | Corvos esperam até 10 minutos por recompensa preferida |
| Polvos | Positivo | Resultados documentados em 2020 |
| Sépias | Alto | Única espécie com ligação documentada entre paciência e aprendizagem |
| Cães | Inconsistente | Desempenho abaixo do esperado para mamíferos de porte cognitivo similar |
O que a inteligência da sépia revela sobre a evolução do autocontrole?
A descoberta redefine o que sabíamos sobre os pré-requisitos neurológicos para o autocontrole. Se um animal sem córtex pré-frontal, com arquitetura nervosa distribuída pelos tentáculos e vida de menos de dois anos, consegue adiar a gratificação e aprender mais rápido por isso, o autocontrole não depende de um cérebro como o nosso.
A sépia demonstrou que inteligência e autocontrole são soluções que a evolução encontrou por caminhos radicalmente diferentes, em animais separados por centenas de milhões de anos. O marshmallow, no fundo, testa algo muito mais antigo e distribuído pela natureza do que se imaginava.









