Em 1997, quando as águas da Represa Dicle terminaram de subir no sudeste da Turquia, bairros inteiros do distrito de Eğil desapareceram sob o lago para sempre. O que ninguém esperava encontrar décadas depois foram mesquitas, cemitérios e tumbas de uma cidade de 2.400 anos, preservados no fundo, de pé e praticamente intactos.
O que os mergulhadores encontraram no fundo da represa?
A descoberta aconteceu durante um mergulho de treinamento de equipes de busca e resgate da Gendarmaria turca. As imagens capturadas no fundo do lago mostraram estruturas históricas em um estado de conservação que surpreendeu até os especialistas.
Segundo o Hurriyet Daily News, o Prof. Dr. İrfan Yıldız, da Universidade Dicle, analisou as imagens e confirmou que mesquitas, madrasas, cemitérios e tumbas mantiveram sua integridade estrutural após décadas completamente submersos.

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Os séculos de civilizações que habitaram a cidade antes da água chegar
Localizada a cerca de 52 quilômetros de Diyarbakır, às margens do Rio Tigre, a cidade de Eğil foi ocupada por uma sequência ininterrupta de povos ao longo dos milênios: hurri-mitanni, assírios, urartus, medos, persas, romanos e bizantinos, antes de passar ao domínio islâmico após 639 d.C.
Tumbas cortadas nas falésias ao redor do castelo e inscrições antigas na rocha mostram que a região servia tanto à defesa quanto ao registro de poder dessas civilizações. As estruturas submersas datam de cerca do século V a.C., mas estão inseridas em um vale que acumula camadas culturais de milênios.
O que a cidade perdeu quando o reservatório encheu em 1997?
Construída entre 1986 e 1997 para abastecimento de água e geração de energia, a Represa Dicle inundou bairros inteiros de Eğil. Em 1995, as autoridades relocaram as tumbas dos profetas Zülkifl e Elyesa para terrenos mais altos, mas deixaram para trás:
- A mesquita adjacente à tumba do Profeta Elyesa
- A Madrasa Caferiye, de época otomana
- Parte do cemitério do bairro Tekke
- O Banho Deran, do período bizantino
- Tumbas rupestres e inscrições nas falésias ao redor do castelo
Por que as estruturas da cidade sobreviveram décadas no fundo do lago?
A preservação excepcional não foi obra do acaso. A água do reservatório tem baixos níveis de oxigênio e correntes mínimas, reduzindo drasticamente a oxidação e a erosão que normalmente degradam a pedra exposta ao ar. O isolamento total do local eliminou as formas mais comuns de dano a sítios históricos: sem visitantes, sem intervenção mecânica e sem tráfego de qualquer tipo.
O caso de Eğil não é isolado. O canal Euronews em Português, com mais de 1,27 milhão de inscritos, documentou o destino de outra cidade turca que enfrentou situação semelhante, com doze mil anos de história submersos por uma barragem hidroelétrica:
O que torna Eğil única entre os sítios históricos submersos?
Segundo o Earth.com, evidências históricas sobrevivem à inundação quando há condições favoráveis de água, como as de Eğil. A maioria dos reservatórios destrói a relação espacial entre as estruturas que engole, mas em Eğil as construções permanecem onde sempre estiveram, em posição original. Três fatores fazem do sítio uma raridade:
- Múltiplas estruturas preservadas em relação ao espaço original, sem deslocamento
- Camadas culturais de diferentes civilizações acessíveis no mesmo sítio
- Condições hidrodinâmicas excepcionais que funcionaram como câmara de conservação natural
A ameaça que a seca representa para o que a água preservou na cidade
Em anos de seca, quando o nível do reservatório cai, paredes e marcadores funerários reaparecem brevemente pela superfície, permitindo que moradores e pesquisadores reconectem a antiga planta do bairro com a margem atual do lago. Mas essa janela é instável: variações repetidas no nível d’água expõem a alvenaria à erosão por ressecamento e resedimentação.
O Prof. İrfan Yıldız defende estudos sistemáticos de arqueologia subaquática com urgência, antes que ciclos de seca e cheia deteriorem o que décadas de imersão constante protegeram. A cidade de 2.400 anos sobreviveu ao tempo e à água, mas pode não sobreviver à instabilidade climática.





