Você já imaginou abrir um celeiro empoeirado e encontrar um Citroën parado há quase quatro décadas? Foi exatamente isso que aconteceu em Lincolnshire, na Inglaterra. O carro pertenceu a John Watkins, engenheiro da Força Aérea Real que ajudou a bater o recorde mundial de velocidade terrestre em 1983, e guardou seu hatchback pessoal em 1988 para nunca mais voltar.
Quem era John Watkins e qual é a ligação com o recorde mundial?
John Watkins era engenheiro da Força Aérea Real Britânica (RAF) e trabalhou diretamente no Thrust 2, o veículo a jato que estabeleceu o recorde mundial de velocidade terrestre em outubro de 1983. Pilotado por Richard Noble no deserto de Black Rock, em Nevada, o Thrust 2 atingiu 633,468 mph (cerca de 1.019 km/h) em velocidade oficial, com picos de até 650,88 mph nas passagens mais rápidas.
No mesmo mês em que ajudou a colocar o Thrust 2 nos livros do Guinness World Records, Watkins comprou seu carro pessoal: um simples hatchback de família com motor de 1,6 litro e velocidade máxima de 109 km/h. A diferença entre os dois veículos era de quase dez vezes. O homem que trabalhou no carro mais rápido sobre a Terra escolheu, para o dia a dia, um dos modelos mais modestos do mercado europeu da época.

Por que o Citroën BX ficou 38 anos guardado sem ser tocado?
Watkins usou o Citroën BX 16RS por cinco anos e o guardou no celeiro em 1988 com a intenção de fazer uma restauração. A porta nunca mais foi aberta. Com o passar das décadas, o carro foi sendo incorporado à paisagem do galpão, cercado por ferramentas, caixas e objetos domésticos acumulados ao longo dos anos.
A história só veio a público em janeiro de 2026, quando a família chamou Jonny Smith, apresentador do canal britânico The Late Brake Show, especializado em automóveis clássicos e barn finds, para inspecionar o veículo. O que ele encontrou era o retrato fiel de 38 anos de abandono: camada grossa de poeira cobrindo toda a carroceria, ferrugem em vários pontos, danos de roedores na estofagem e na fiação, uma roda faltando e o motor recusando a partir.
O que ainda estava preservado no interior do carro?
Apesar do estado deteriorado, o Citroën guardou elementos que surpreenderam os especialistas. A carroceria mantinha a estrutura básica intacta, os vidros estavam inteiros e os componentes originais de fábrica seguiam presentes. Entre os destaques estavam:
- A suspensão hidroneumática característica da Citroën, sistema exclusivo da marca que usa esferas de gás para absorção de impactos.
- O painel original da época, com todos os instrumentos no lugar.
- Os tecidos dos bancos dos anos 1980, deteriorados, mas reconhecíveis.
- Os componentes mecânicos originais de fábrica, sem substituições posteriores.
No jardim da propriedade, a equipe encontrou ainda um Triumph 2000 clássico parado desde 1983, com uma árvore crescendo através do banco, transformado em peça quase escultural pela natureza.
Por que um Citroën BX comum virou raridade?
O Citroën BX foi produzido entre 1982 e 1994, com mais de 2,3 milhões de unidades fabricadas. O paradoxo é que, justamente por não ser caro o suficiente para ser preservado, mas útil o suficiente para ser rodado até o fim, a maioria dos exemplares desapareceu nas sucatas antes de atingir o status de clássico.
Dados do registro britânico de veículos mostram que apenas 194 unidades do BX ainda circulam no Reino Unido, com outras 1.083 declaradas fora de circulação. O exemplar de Lincolnshire se destaca não pelo valor de mercado, mas pela história documentada e verificável que carrega, com peças originais intactas e proveniência diretamente ligada a um dos momentos mais marcantes da engenharia automotiva do século XX.
O canal The Late Brake Show, com mais de 787 mil inscritos especializados em automóveis clássicos e descobertas raras, acompanhou toda a inspeção do veículo e a tentativa de reativação do motor, documentando cada detalhe do barn find de Lincolnshire:
O que é um barn find e por que esse caso é especial?
O termo barn find, literalmente “achado de celeiro”, descreve a descoberta de um veículo clássico esquecido em propriedades rurais, garagens ou galpões por décadas. É o sonho dos colecionadores: um veículo que escapou das sucatas, dos acidentes e das reformas mal feitas justamente por ser esquecido no momento certo.
O Citroën de John Watkins é um exemplo quase perfeito do gênero, não pelo valor financeiro, mas pela narrativa que carrega. Um engenheiro que ajudou a quebrar o recorde de velocidade terrestre no mesmo mês em que comprou um carro de família modesto, guardou o veículo cinco anos depois e nunca voltou. Trinta e oito anos de silêncio num celeiro inglês transformaram um hatchback comum em um objeto com história impossível de reproduzir.









