No fundo do porto oriental de Alexandria, no Egito, arqueólogos subaquáticos resgataram 22 blocos monumentais que pertenceram ao lendário Farol de Alexandria, uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo. As peças, com peso de até 80 toneladas cada, estavam submersas há cerca de 1.600 anos.
O que exatamente foi encontrado no fundo do mar?
Os blocos resgatados não são simples pedaços de rocha. Entre os materiais identificados estão dintéis, jambas, umbrais estruturais e lajes de pavimento que compunham a entrada monumental do farol. Cada peça é feita de granito maciço ou pedra calcária bruta, materiais escolhidos pela resistência à salinidade e ao peso da própria estrutura.
A descoberta afastou de vez os rumores que circulavam sobre supostos navios inteiros ou baús com moedas. O que está no fundo do porto são elementos arquitetônicos reais de uma das construções mais ambiciosas da Antiguidade, preservados pela mesma água que os engoliu há dezesseis séculos.

Por que os blocos do Farol de Alexandria foram parar no fundo do mar?
O Farol de Alexandria foi erguido na ilha de Faros no século III a.C., durante o reinado de Ptolomeu II. A estrutura atingia entre 100 e 130 metros de altura e funcionava como referência marítima para embarcações que se aproximavam da costa egípcia, combinando utilidade prática com exibição de poder político.
A destruição veio em etapas. Uma sequência de terremotos entre os séculos XIII e XIV fragmentou gradualmente a construção. Parte das pedras menores foi reaproveitada no século XV na construção da Cidadela de Qaitbay, fortaleza que permanece na entrada do porto até hoje. Os blocos mais densos e volumosos cederam à gravidade e rolaram para as águas, onde permaneceram ocultos por mais de um milênio e meio.
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Como é feito o resgate de blocos com esse peso?
Mover estruturas de até 80 toneladas no fundo do mar exige um planejamento que vai muito além da força bruta. A operação combina engenharia naval de alta capacidade com protocolos rigorosos de preservação histórica, seguindo os padrões do ICOMOS, organismo internacional de referência em patrimônio cultural.
As principais etapas do processo incluem procedimentos específicos para garantir que as peças cheguem à superfície sem fissuras:
- Içamento milimétrico: guindastes flutuantes de altíssima capacidade elevam os blocos em velocidade extremamente reduzida para evitar oscilações
- Banho químico: jatos de água doce removem progressivamente o sal acumulado nas superfícies das pedras após séculos de imersão
- Proteção térmica: lonas especiais impedem a exposição direta ao sol logo após a retirada, evitando dilatação e rachaduras
- Escaneamento 3D imediato: cada bloco ainda molhado é digitalizado com precisão milimétrica antes de qualquer manuseio adicional
Qual projeto está por trás dessa operação arqueológica?
O resgate faz parte do Projeto PHAROS, uma cooperação internacional que reúne o CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica da França), o Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito e a Fundação Dassault Systèmes. O objetivo vai além de tirar pedras da água: a iniciativa pretende reconstruir digitalmente o Farol de Alexandria com base nos fragmentos resgatados e em registros históricos.
Mais de 100 fragmentos arquitetônicos já foram escaneados no fundo do mar ao longo da última década, gerando modelos tridimensionais que preservam fissuras, relevos e marcas de desgaste. Os novos 22 blocos serão incorporados a esse banco de dados, ampliando a precisão da reconstrução virtual. A meta é que qualquer pessoa possa, futuramente, percorrer digitalmente o interior de uma estrutura que não existe mais há séculos.

O que esses blocos revelam sobre a engenharia da Antiguidade?
A posição exata de cada umbral e lintel resgatado revela como os engenheiros da época solucionavam problemas de carga vertical e resistência ao vento litorâneo. A mistura de técnicas egípcias e gregas em um mesmo projeto indica um nível de colaboração e sofisticação técnica que ainda surpreende especialistas contemporâneos.
O fato de que blocos dessa dimensão foram transportados, posicionados e encaixados sem equipamentos modernos é, por si só, um enigma de engenharia. Cada marca deixada na pedra é um dado. E cada dado aproxima os pesquisadores de uma resposta sobre como uma civilização de mais de dois mil anos atrás foi capaz de construir algo que resistiu a séculos de ventos, marés e uso intensivo antes de ser derrubado pela força dos terremotos.
No vídeo a seguir, o Canal History Brasil, com mais de 5 milhões de inscritos, mostra um pouco desse acontecido:
O que acontece agora com os blocos resgatados
As peças não serão expostas imediatamente. O processo de dessalinização e estabilização das rochas leva meses, e qualquer erro nessa fase pode comprometer a integridade dos materiais. Após o tratamento, os blocos passarão por análise arqueológica detalhada antes de serem incorporados ao acervo digital do projeto. Não há previsão de reconstrução física do monumento. O foco, por ora, é preservar o que foi resgatado e garantir que essas peças sobrevivam por mais alguns milênios, desta vez fora da água.









