Imagine uma cidade do interior de Minas Gerais onde o céu é colorido por parapentes todas as tardes e onde uma boa parte das famílias tem alguém morando em Boston. Governador Valadares, no Vale do Rio Doce, ganhou o apelido de “Valadólares” e o título de Capital Mundial do Voo Livre por motivos que se cruzam na mesma história.
Como uma guerra mundial mudou o destino do leste mineiro
Tudo começou com a mica. Durante a Segunda Guerra Mundial, esse mineral virou peça-chave para a indústria elétrica e de aviação dos países aliados, e as jazidas do leste de Minas entraram no radar dos americanos. Engenheiros dos Estados Unidos se instalaram na região para extrair o minério, montaram oficinas e abriram estradas.
Entre eles estava Richard Pitt Simpson, conhecido como Mister Simpson. O americano ficou na cidade depois da guerra, abriu a primeira escola de inglês local e fundou o Rotary Club. Foi a semente do que viria depois, conforme contam pesquisas da socióloga Sueli Siqueira, da Universidade Vale do Rio Doce (Univale), que estuda o fenômeno migratório há mais de 30 anos.

Por que tantos valadarenses escolheram morar em Boston?
A resposta está nas redes formadas por Mister Simpson e seus contatos. A partir dos anos 1960, jovens da cidade começaram a viajar para os Estados Unidos por meio de programas de intercâmbio, e a região metropolitana de Boston, no estado de Massachusetts, virou destino preferido.
O fluxo cresceu em ondas. Foram jovens de classe média, depois trabalhadores em busca de renda nos anos 1980, e famílias inteiras a partir dos anos 2000. As remessas de dólares que voltavam para casa renderam o apelido carinhoso de “Valadólares”, como mostram os estudos da Univale.
O retorno desses emigrantes, com capital e experiência internacional, moldou o comércio, o mercado imobiliário e até o sotaque da cidade. Outdoors bilíngues e lojas de remessas internacionais fazem parte da paisagem urbana.

A montanha preta que virou rampa de campeões mundiais
O outro grande capítulo da cidade está a 1.123 metros de altitude. O Pico da Ibituruna, cujo nome em tupi significa “serra negra” ou “nuvem negra”, domina o horizonte e oferece quase 900 metros de desnível em relação ao Rio Doce.
Essa diferença de altitude cria correntes térmicas excepcionais, ideais para asa-delta e parapente. A formação rochosa é tombada como monumento natural pelo artigo 84 dos Atos das Disposições Transitórias da Constituição estadual de 1989, conforme o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA). A delimitação foi formalizada pela Lei 21.158, de 2014.
A primeira exploração da região aconteceu em 1573, com o bandeirante Sebastião Fernandes Tourinho, que descia o rio em busca de metais preciosos. Hoje, a montanha é também uma Unidade de Conservação administrada pelo Instituto Estadual de Florestas, com mais de mil hectares de Mata Atlântica preservada.
Os títulos mundiais que colocaram o Brasil no mapa do voo livre
O primeiro grande marco foi em 1983, quando o município passou a sediar etapas do Campeonato Brasileiro de Voo Livre. O Pico entrou no circuito internacional pouco depois e recebeu duas competições históricas para o esporte no país.
Entre as conquistas reconhecidas pela Confederação Brasileira de Voo Livre (CBVL), vale destacar:
- Mundial de asa-delta de 1989: primeiro mundial da modalidade realizado no Brasil, com pilotos de dezenas de países nas rampas da Ibituruna.
- Paragliding World Cup de 1994: primeira etapa internacional de parapente sediada no país, ampliando a fama da cidade entre pilotos europeus.
- Mundial de Parapente FAI de 2005: nova rodada internacional confirmou o destino como referência global do esporte.
- Reconhecimento da CBVL: a entidade considera Valadares o templo do voo livre brasileiro e atribui à cidade o título de Capital Mundial.
Essa trajetória explica por que pilotos de toda parte continuam pousando na cidade entre janeiro e março, quando as térmicas ficam mais fortes. Voos duplos com instrutor estão disponíveis para quem nunca subiu numa rampa.
Quem busca conhecer as belezas de Governador Valadares, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Canal GVT, que conta com mais de 9.500 visualizações, onde o apresentador mostra uma vista aérea incrível do Centro, da Ilha dos Araújos e do Pico da Ibituruna:
O que fazer além de voar sobre a serra?
A cidade combina esportes radicais, passeios à beira-rio e programas culturais que revelam a história do Vale do Rio Doce. Estes são os principais atrativos:
- Pico da Ibituruna: rampa de decolagem para parapente e asa-delta com vista panorâmica do vale inteiro. Voos duplos com instrutor estão disponíveis para iniciantes.
- Ilha dos Araújos: calçadão às margens do Rio Doce com restaurantes, bares e espaço para caminhada e exercícios ao ar livre.
- Museu da Cidade: acervo de documentos, fotografias e peças indígenas dos aimorés que contam a história da região.
- Parque Natural Municipal: cerca de 10 hectares de Mata Atlântica com trilhas leves, fauna nativa e espaços de educação ambiental.
- Estrada de Ferro Vitória a Minas: o trem de passageiros da Vale conecta Valadares a Vitória (ES) e a Belo Horizonte, com paisagens de serra e rio ao longo do percurso.
Quando o clima favorece cada tipo de passeio?
O clima tropical com verão quente e úmido exige planejamento. Confira as condições por período:
Estação de calor ardente e úmido. Refresque-se cedo no Parque Municipal e aproveite as manhãs calmas na Ilha dos Araújos.
As chuvas começam a recuar. Aposte em esportes de natureza fazendo trilhas desafiadoras até o majestoso Pico da Ibituruna.
Dias de céu limpo e estiagem dominam o cenário. Trata-se do momento mais seguro para realizar voo livre em Governador Valadares.
Acompanhe a movimentação da cidade durante a transição. Prestigie os tradicionais campeonatos de parapente e conheça as feiras regionais.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar conforme o ano.
Visite a capital mundial do voo livre
O leste de Minas guarda uma das histórias mais curiosas do país, costurada entre a mica da Segunda Guerra, as viagens para Boston e os voos sobre a montanha preta. Poucos lugares conseguem reunir, num mesmo dia, café coado de manhã e parapente colorindo o céu à tarde.
Você precisa subir a Ibituruna no fim da tarde e ver o Vale do Rio Doce inteiro lá embaixo, para entender por que tanta gente saiu da cidade e por que tanta gente quer voltar.









