A capacidade das plantas de sobreviver sob a luz solar intensa foi uma das adaptações mais importantes da história da vida na Terra. Um novo estudo liderado pela Universidade de Genebra (UNIGE), na Suíça, revelou como um sistema de proteção contra a radiação ultravioleta do tipo B (UV-B) surgiu há mais de 400 milhões de anos e continua presente nas plantas modernas. A pesquisa utilizou a espécie Marchantia polymorpha, uma hepática considerada uma das representantes mais próximas das primeiras plantas que colonizaram os ambientes terrestres, oferecendo pistas valiosas sobre a evolução dos mecanismos que permitiram a sobrevivência da vegetação fora da água.
Por que a radiação UV-B representa um desafio para as plantas?
A luz solar é indispensável para a fotossíntese, processo responsável pela produção de açúcares e pela liberação de oxigênio na atmosfera. No entanto, além da energia necessária para o crescimento, o Sol também emite radiação UV-B, que pode causar danos significativos às células vegetais.
Entre os principais impactos da exposição excessiva à radiação UV-B estão:
- Danos ao DNA celular.
- Alterações nas membranas celulares.
- Comprometimento dos sistemas fotossintéticos.
- Aumento do estresse oxidativo nos tecidos vegetais.
Ao longo da evolução, as plantas desenvolveram mecanismos sofisticados para detectar e responder a essa ameaça, garantindo sua adaptação aos ambientes terrestres.

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Como funciona o sistema ancestral de proteção descoberto pelos cientistas?
O estudo se concentrou em uma proteína chamada UVR8, considerada o principal fotorreceptor responsável pela detecção da radiação UV-B. Quando essa molécula absorve luz ultravioleta, inicia uma série de reações bioquímicas que alteram a atividade de diversos genes relacionados à proteção celular.
Os pesquisadores descobriram que esse mecanismo fundamental já estava presente nas primeiras plantas terrestres. A análise mostrou que tanto a ativação quanto a desativação do receptor UVR8 permanecem surpreendentemente conservadas ao longo de centenas de milhões de anos de evolução.
Os componentes centrais identificados incluem:
- Ativação do receptor UVR8 pela radiação UV-B.
- Resposta genética para aumentar a proteção celular.
- Produção de moléculas de defesa e aclimatação.
- Mecanismos de desativação que evitam respostas excessivas.
Essa conservação sugere que a estratégia foi extremamente eficiente desde os primórdios da colonização terrestre pelas plantas.

O que a Marchantia polymorpha revelou sobre a evolução vegetal?
A Marchantia polymorpha pertence a uma linhagem de plantas que surgiu quando os primeiros organismos vegetais começaram a deixar os ambientes aquáticos. Por isso, ela funciona como uma verdadeira janela para o passado evolutivo das plantas terrestres.
Embora o núcleo do sistema UVR8 tenha permanecido praticamente inalterado, os cientistas identificaram diferenças importantes na forma como algumas proteínas reguladoras atuam. Um dos destaques foi a proteína SPA, que exerce funções distintas quando comparada às observadas em plantas modernas, como a Arabidopsis thaliana.
Os resultados mostraram que indivíduos de Marchantia sem a proteína SPA apresentaram maior tolerância à radiação UV-B, indicando que essa proteína atua como um limitador da resposta protetora nessa espécie ancestral.
Por que essa descoberta é importante para a ciência atual?
Segundo o professor Roman Ulm, do Departamento de Ciências Vegetais da Universidade de Genebra, os resultados indicam que os principais “blocos de construção” do sistema de defesa contra UV-B já existiam muito cedo na evolução das plantas. No entanto, sua organização e regulação foram sendo modificadas ao longo do tempo.
Essa conclusão ajuda os cientistas a compreenderem como diferentes grupos vegetais desenvolveram estratégias específicas para lidar com ambientes cada vez mais complexos e variados.

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Como essa pesquisa pode ajudar diante das mudanças climáticas?
As alterações climáticas estão modificando padrões de luminosidade, cobertura de nuvens e condições ambientais em diversas regiões do planeta. Entender como as plantas respondem ao estresse causado pela radiação solar tornou-se uma questão estratégica para a agricultura, a conservação ambiental e a segurança alimentar global.
Ao revelar a origem de um dos sistemas de proteção mais antigos da história da vida terrestre, o estudo oferece novas perspectivas sobre a capacidade das plantas de se adaptarem a cenários futuros. Além de aprofundar o conhecimento sobre a evolução vegetal, a pesquisa pode contribuir para o desenvolvimento de culturas mais resistentes às mudanças ambientais, ajudando a preservar a produtividade agrícola em um clima cada vez mais desafiador.









