Quando a Terra atravessou uma fase fria e seca há quase 1 milhão de anos, a linhagem humana chegou perto de desaparecer. Antes do Homo sapiens existir, nossos ancestrais ficaram reduzidos a um grupo minúsculo tentando sobreviver em ambientes cada vez mais hostis.
Quando a Terra quase interrompeu nossa história evolutiva?
Um estudo publicado na revista Science estimou que, há cerca de 930.000 anos, a população reprodutiva dos nossos ancestrais caiu de pelo menos 100.000 indivíduos para apenas 1.280. Segundo os autores, isso representou uma redução de 98,7%.
O colapso teria durado entre 930.000 e 813.000 anos atrás, um intervalo de aproximadamente 117.000 anos. Em escala humana, seria como se toda a linhagem que levaria aos humanos modernos coubesse em uma população menor que a de um bairro pequeno.

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Como o clima da Terra empurrou ancestrais ao limite?
Esse período ocorreu na transição entre o Pleistoceno Inferior e o Pleistoceno Médio. Foi uma fase marcada por ciclos frios prolongados, chuvas irregulares e ambientes mais secos, especialmente em áreas da África onde grupos antigos do gênero Homo tentavam sobreviver.
Os fatores ambientais que tornaram essa fase tão difícil ajudam a entender por que a população ancestral teria encolhido tanto:
- Glaciações prolongadas esfriavam grandes regiões e alteravam habitats inteiros.
- Oceanos mais frios mudavam a umidade disponível e afetavam o ciclo das chuvas.
- Mega-secas africanas reduziam água, plantas, animais de caça e rotas seguras.
- Refúgios isolados podem ter separado pequenos grupos em áreas mais habitáveis.

O que é um gargalo genético em uma espécie?
Um gargalo genético acontece quando uma população perde grande parte de seus indivíduos e apenas poucos continuam se reproduzindo. A espécie sobrevive, mas passa a carregar uma diversidade genética menor, como se sua história tivesse atravessado uma passagem estreita.
A descoberta foi feita com o modelo FitCoal, sigla para Fast Infinitesimal Time Coalescent, desenvolvido por Haipeng Li e Yi-Hsuan Pan, da Universidade da Academia Chinesa de Ciências. Como não há DNA preservado de ancestrais tão antigos, a ferramenta analisou genomas de mais de 3.000 pessoas de 50 populações humanas atuais.
Por que há tão poucos fósseis desse período?
O estudo também ajuda a explicar uma ausência que intrigava paleontólogos: existem poucos fósseis humanos conhecidos exatamente nesse intervalo, tanto na África quanto na Eurásia. De acordo com a reportagem da Science, uma possibilidade é direta: havia poucos indivíduos para deixar vestígios.
Para visualizar melhor essa quase extinção, o canal Zoomundo, com 220 mil inscritos, publicou um vídeo com 34.133 visualizações explicando como a humanidade ancestral pode ter ficado reduzida a cerca de 1.280 indivíduos por milhares de anos:
Que detalhe genético pode ter mudado tudo?
Durante esse período crítico, pode ter ocorrido uma mudança marcante: a fusão de dois cromossomos ancestrais, formando o cromossomo 2 humano. Essa fusão é uma das diferenças mais visíveis entre humanos e outros grandes primatas.
Além da mudança genética, alguns elementos do ambiente e do comportamento podem ter ajudado pequenos grupos a atravessar essa fase extrema:
- Grupos isolados podem ter sobrevivido em regiões com recursos mais estáveis.
- Áreas costeiras africanas talvez tenham oferecido alimento em fases de seca intensa.
- Ferramentas acheulianas podem ter melhorado a caça, o corte e o aproveitamento de recursos.
- O cromossomo 2 humano pode ter marcado uma virada importante na linhagem do gênero Homo.
O que a Terra antiga deixou no DNA moderno?
Por volta de 813.000 anos atrás, a população ancestral começou a crescer novamente. Os pesquisadores ainda não sabem exatamente o que permitiu essa recuperação, mas uma combinação de melhora climática, refúgios habitáveis e ferramentas mais eficientes pode ter aberto caminho.
Hoje, bilhões de pessoas vivem no planeta, mas a linhagem humana já passou por um corredor muito estreito. Parte dessa travessia continua registrada no DNA moderno, lembrando que a nossa história quase terminou antes mesmo de começar.









