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Início Ciência

Os países nórdicos onde o gelo antigo ainda move a crosta e pode reativar falhas que pareciam adormecidas

Laila Por Laila
06 junho 2026 03:35
Em Ciência
Falhas antigas cortam a paisagem gelada dos países nórdicos

Falhas antigas cortam a paisagem gelada dos países nórdicos

Mesmo longe das bordas mais ativas das placas, a crosta dos países nórdicos ainda guarda tensões deixadas pela última era glacial. O degelo atual pode alterar esse equilíbrio e mudar a leitura do risco sísmico na região.

Por que a crosta ainda se move nos países nórdicos?

A maioria dos países nórdicos não está sobre uma fronteira ativa entre grandes placas tectônicas, como ocorre no Japão, no Chile ou na Indonésia. Mesmo assim, a região registra tremores porque falhas antigas continuam respondendo a forças acumuladas no subsolo.

O ponto central está na herança da última era glacial. Durante milhares de anos, o peso do gelo comprimiu a Escandinávia; depois do derretimento, a crosta começou a se recuperar lentamente, em um processo que ainda não terminou.

Costa nórdica elevada mostra marcas do rebote glacial

Leia também: O que deslizamentos no fundo do mar contam sobre grandes terremotos e por que isso importa

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Como o gelo antigo empurrou a crosta para baixo?

Na última era glacial, encerrada há cerca de 11.700 anos, camadas de gelo de até 3 quilômetros de espessura cobriam grandes áreas da Escandinávia. Quando esse peso desapareceu, o terreno começou a subir em um processo chamado ajuste isostático glacial.

O estudo publicado pela AGU discute como mudanças de massa na superfície, incluindo gelo, água e sedimentos, podem alterar tensões na crosta e influenciar a sismicidade.

Esse movimento ajuda a entender por que a região segue ativa em escala geológica mesmo longe das bordas tectônicas mais conhecidas:

  • O gelo antigo comprimiu a crosta, acumulando tensões ao longo de milhares de anos.
  • O derretimento reduziu o peso, permitindo que o terreno começasse a subir.
  • A elevação ainda continua, especialmente em áreas centrais da Suécia e da Finlândia.
  • Falhas antigas podem ser reativadas, mesmo longe dos limites clássicos entre placas.
Corte geológico mostra crosta subindo e falha antiga reativada

Que terremotos revelam o risco real na região?

A Fenoscândia, região que inclui a Escandinávia, a Finlândia e a Península de Kola, não é sismicamente inativa. Estudos paleossísmicos indicam que grandes terremotos ocorreram ali no fim da última era glacial.

O artigo publicado no Geophysical Journal International trata da sismicidade intraplaca na região e mostra por que tremores podem ocorrer mesmo em áreas afastadas das bordas tectônicas mais conhecidas.

Um dos casos mais importantes envolve a Falha de Pärvie, na Suécia, associada a um terremoto estimado em magnitude 7,5 há cerca de 9.000 anos. Essa evidência mostra que a paisagem nórdica preserva marcas de eventos muito mais fortes do que os tremores cotidianos sugerem.

Como o degelo atual pode mexer na crosta?

O novo alerta vem da sobreposição entre a herança glacial antiga e o degelo moderno. À medida que geleiras encolhem, especialmente na Islândia, na Groenlândia e em outras regiões frias, a distribuição de peso sobre a crosta muda novamente.

A reportagem da Science descreve um estudo que vinculou o derretimento glacial induzido pelo aquecimento global ao aumento do risco sísmico nos Alpes. Embora o caso seja alpino, o mecanismo interessa a regiões nórdicas afetadas por gelo e rebote glacial.

Por que a Islândia mostra a crosta respondendo mais rápido?

A Islândia é um caso especial porque reúne geleiras, vulcões, falhas e uma posição sobre a Dorsal Mesoatlântica. Suas mais de 400 geleiras recuam desde o fim do século 19, com aceleração nas últimas décadas.

Próximo à calota Vatnajökull, medições de GPS indicam que a crosta pode subir mais de 20 milímetros por ano. Esse soerguimento altera pressões sobre câmaras de magma e sistemas de falhas, o que pode influenciar terremotos e erupções futuras.

Os efeitos monitorados pelos pesquisadores mostram como a perda de gelo pode se conectar a processos profundos da Terra:

  • Alívio de peso sobre a crosta, causado pela redução da massa de gelo.
  • Mudança na pressão sobre câmaras magmáticas, especialmente em sistemas vulcânicos ativos.
  • Redistribuição de tensões em falhas, que pode favorecer tremores em áreas sensíveis.
  • Resposta mais rápida do terreno, possivelmente subestimada por modelos climáticos tradicionais.

Para aproximar esse processo do público, o Olhar Digital, com 963 mil inscritos, transmitiu em 9 de julho de 2025 um programa com 4.080 visualizações sobre como o derretimento de geleiras pode tornar erupções vulcânicas mais frequentes e explosivas:

O que essa relação muda no risco sísmico?

Os estudos não dizem que todos os tremores nos países nórdicos serão causados pelo aquecimento global. A conclusão é mais específica: mudanças de massa na superfície, especialmente por perda de gelo, podem alterar o equilíbrio de falhas já existentes.

A principal mensagem é de monitoramento, não de alarme imediato. Terremotos continuam impossíveis de prever com data e hora, mas entender como o degelo altera tensões antigas pode tornar os modelos de risco mais realistas nas próximas décadas.

Tags: geologiapaíses nórdicosterremotos

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