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Início Ciência

O lagarto venenoso que inspirou um dos remédios mais comentados do mundo, o Ozempic

Gessika Cristiny Santos de Oliveira Por Gessika Cristiny Santos de Oliveira
03 maio 2026 22:05
Em Ciência
O lagarto venenoso que inspirou um dos remédios mais comentados do mundo, o Ozempic

Veneno de lagarto do deserto inspira medicamentos inovadores para controle metabólico

Entre os animais do deserto norte-americano, poucos despertam tanto interesse científico quanto o Monstro de Gila, um lagarto de aparência robusta, coloração marcante e fama de venenoso; ele é um dos dois únicos lagartos venenosos conhecidos no mundo, e seu veneno inspirou diretamente o desenvolvimento dos medicamentos GLP-1, usados hoje no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade, o que torna o Monstro de Gila uma peça central em estudos sobre venenos, GLP-1 e sua aplicação na medicina moderna.

O que é o Monstro de Gila e por que ele é tão importante na medicina?

O Monstro de Gila, conhecido cientificamente como Heloderma suspectum, é um dos raros lagartos venenosos do planeta. Habita regiões áridas do sudoeste dos Estados Unidos e do norte do México, passa boa parte do tempo em tocas subterrâneas e se alimenta em intervalos irregulares, muitas vezes com longos períodos de jejum.

Para ver de perto esse fascinante animal e entender como funciona o seu sistema de veneno único, vale a pena conferir o vídeo do criador @RichardRasmussen. No conteúdo abaixo, ele visita um espaço de conservação, mostra o lagarto em detalhes e conta curiosidades incríveis — como o fato de o veneno desse réptil ter ajudado na criação de remédios para diabetes:

Como o Monstro de Gila e o GLP-1 se relacionam na medicina?

O interesse científico sobre o Monstro de Gila cresceu quando se observou que ele conseguia passar semanas sem comer e, ainda assim, suportar refeições muito volumosas quando surgia oportunidade. Em humanos, isso causaria grandes oscilações da glicose, com risco de hipoglicemia no jejum prolongado e picos após grandes refeições, algo que está no centro das preocupações da diabetologia.

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No lagarto, esse descompasso não parecia ocorrer com a mesma intensidade, sugerindo um sistema hormonal eficiente para controlar a glicemia. Essa observação levou cientistas a investigar o GLP-1 e a buscar no veneno do animal pistas de moléculas que pudessem imitar e potencializar esse hormônio intestinal em humanos, explorando o conceito de incretinas no tratamento de doenças metabólicas.

Leia também: Os escorpiões são “armados” com metal e o utilizam de diferentes maneiras para sobreviver

Quais descobertas do veneno desse réptil ajudaram a criar remédios GLP-1?

Ao estudar o veneno do animal, cientistas identificaram um peptídeo batizado de exendina-4, estruturalmente parecido com o hormônio humano GLP-1 peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1. A exendina-4 é formada por uma cadeia de 39 aminoácidos, um peptídeo relativamente curto, o que permite sua síntese e modificação em laboratório com boa precisão, mantendo sua afinidade pelo receptor de GLP-1.

Um ponto importante é que a exendina-4 apresenta cerca de 53% de semelhança estrutural com o GLP-1 humano GLP-1 7-36. Essa similaridade é suficiente para que a exendina-4 se ligue ao receptor de GLP-1 e imite muitos dos efeitos desse hormônio natural, ao mesmo tempo em que sua estrutura distinta confere maior estabilidade e duração de ação no organismo. Assim, ela se tornou um modelo de agonista de GLP-1 mais estável e adequado para uso clínico.

Como o Monstro de Gila influenciou os medicamentos GLP-1 e o tratamento do diabetes?

O GLP-1 está envolvido em processos como liberação de insulina, desaceleração do esvaziamento gástrico e modulação da sensação de saciedade. O desafio em humanos sempre foi a curta duração desse hormônio no organismo, o que dificultava sua aplicação terapêutica. A exendina-4, por outro lado, apresentava ação prolongada e abriu caminho para o desenvolvimento da exenatida, o primeiro agonista do receptor de GLP-1 aprovado para uso clínico.

A descoberta da exendina-4 levou à criação de uma versão sintética chamada exenatida, aprovada em 2005 pelo FDA e comercializada como Byetta. Para entender como esse tipo de remédio beneficia o organismo, vale observar seus principais efeitos em pacientes com diabetes tipo 2:

  • Estimula a secreção de insulina de forma dependente da glicose
  • Retarda o esvaziamento gástrico e reduz picos de glicose após as refeições
  • Diminui o apetite e favorece menor ingestão calórica
  • Auxilia na perda de peso e pode reduzir o risco cardiovascular em alguns grupos
O lagarto venenoso que inspirou um dos remédios mais comentados do mundo, o Ozempic
A exenatida mimetiza o GLP-1 de forma prolongada para controlar o diabetes tipo 2 ao regular a insulina, a digestão e o apetite.

Leia também: O fenômeno natural que criou os colossais Doze Apóstolos na costa da Austrália

Por que esse réptil é importante para o futuro dos remédios GLP-1?

A contribuição do Monstro de Gila para a medicina moderna não se limita à criação de um único fármaco. Esse caso mostrou como substâncias presentes em venenos animais podem se transformar em ferramentas para bloquear doenças metabólicas com grande impacto em saúde pública. A trajetória da exendina-4 até os medicamentos atuais ilustra um caminho que começa na observação de um animal selvagem e termina em terapias prescritas diariamente em diversos países.

A partir desse exemplo, laboratórios ao redor do mundo intensificaram a busca por compostos presentes em outros animais venenosos, plantas e microrganismos. No caso específico dos remédios baseados em GLP-1, a tendência é avançar em formulações orais, em combinações com outros hormônios intestinais e em novas indicações, como esteatose hepática metabólica, reforçando o papel do Monstro de Gila como símbolo da ligação entre natureza e inovação em saúde.

Tags: animaisCuriosidadesDiabetes

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