Golpe de quem?

A questão do "voto auditável" foi promovida à categoria de grande divisor político e ideológico deste Brasil de hoje
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J. R. Guzzo: "Barroso e sua turma têm a obrigação de revelar os nomes dos indivíduos que querem “dar o golpe”. Quem são eles?" | Foto: Nelson Jr./STF/Wilson Dias/Agência Brasil
J. R. Guzzo: "Barroso e sua turma têm a obrigação de revelar os nomes dos indivíduos que querem “dar o golpe”. Quem são eles?" | Foto: Nelson Jr./STF/Wilson Dias/Agência Brasil

(J. R. Guzzo, publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 4 de julho de 2021)

O ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, também é o presidente do Tribunal Superior Eleitoral — e, nesse cargo, o responsável último pelo comando da repartição pública encarregada, entre outros deveres, de contar os votos nas eleições e, no fim das contas, dizer quem ganhou.

Num país normal, deveria ser uma função neutra, mais cerimonial do que executiva, levando-se em consideração que são máquinas que fazem o trabalho — através de sistemas eletrônicos de votação e de apuração dos votos. Mas o Brasil não é um país normal. O que, em qualquer democracia deste mundo, é um absoluto não-assunto, transformou-se aqui no principal problema político das eleições de 2022. Barroso, hoje, é o militante-chefe de um dos lados desta guerra. O presidente da República é o comandante do lado oposto.

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Você já deve estar cansado de ouvir o que dizem os dois e os seus aliados. Barroso é contra qualquer mudança no atual sistema de votação e de apuração dos votos. Mais: ele garante que a campanha da facção adversária é uma tentativa de golpe de Estado. Bolsonaro é a favor do chamado “voto impresso”, ou “auditável”, ou coisa parecida – que permitiria uma verificação mais segura dos votos. Mais: ele garante que se não for feito isso, vão roubar a eleição.

A coisa toda foi promovida à categoria de grande divisor político e ideológico deste Brasil de hoje. Por que não? Num país capaz de transformar a cloroquina em questão de vida ou morte para determinar quem é de direita e de esquerda, nada mais normal que uma operação digital passe a dividir os “defensores da democracia” dos “golpistas-fascistas”.

Barroso, que será substituído no ano que vem na presidência do TSE por outro ativista do voto-como-está-hoje, o colega Alexandre de Moraes, disse ainda outro dia que entre os adeptos do voto impresso” há gente interessada em armar “confusão” para “melar o jogo” e “dar o golpe”.

Bolsonaro, pouco antes, disse que houve fraude na apuração das eleições de 2018; ele recebeu, com certeza, muito mais votos do que o TSE lhe deu. Não espere nada de bom desse bate-boca, porque nenhum dos partidos está interessado em resolver nada numa boa – na lógica, na disposição para aceitar a verdade e na serenidade dos fatos. É pena. Seria uma excelente oportunidade, em cima do que dizem, para demonstrar ao público pagante o que realmente estão querendo dizer – e, sobretudo, o que estão querendo fazer.

Barroso e sua turma têm a obrigação de revelar os nomes dos indivíduos que querem “dar o golpe”. Quem são eles? O presidente da República está nesse bonde? Não é um probleminha menor; segundo o ministro, os defensores do voto impresso querem liquidar a democracia, nada menos que isso. Por que não informa, então, quem são os golpistas, e quais são as provas que existem contra eles? Bolsonaro e sua turma, do seu lado, têm a obrigação de mostrar ao público as provas de que houve fraude nas eleições de 2018 – e quem, exatamente, é o responsável por ela. O presidente do TSE da época? Outros? Quais? Quando? Como?

Barroso diz que o “voto impresso”, além de golpista, é caro. Pelos seus cálculos, a mudança vai custar “2 bilhões de reais”. O ministro, ao mesmo tempo, acha perfeitamente normal a fábula de dinheiro que será queimada com o “Fundo Eleitoral”. Neste ano de 2021, sem eleição nenhuma, os políticos já vão receber do pagador de impostos quase 1 bilhão de reais; imaginem no ano que vem.

O ministro se assusta, também, com “o inferno” que seria licitar a compra de “500 mil impressoras”. E a compra, sem licitação nenhuma, de 500 milhões de vacinas? É nesse nível que está a qualidade do debate.

Leia também: “Vale tudo, menos Bolsonaro-22”, artigo de J. R. Guzzo publicado na Edição 67 da Revista Oeste

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22 comentários

  1. Me parece que aí não há debate algum. É o chamado “lá garantia soy yo”. Barroso é mais um daqueles que tem medo da verdade. E não é apenas para cargos maioritários. O golpe parece que está vindo do STF.

  2. O que se sabe é que não há com auditar os votos de uma dessas urnas eletrônicas de hoje. O PSDB de Aécio tentou e disse que isso é impossível. E aí ficamos nisso até quando?

  3. “Os acusados de fascistas e antidemocráticos defendem a total transparência com a possibilidade de auditoria em caso de duvidas, venham de onde vier. Já os que se dizem democráticos e defensores da transparência são contra!” . E esta ultima defesa parte de muitos políticos de caráter altamente “duvidoso”. Que Brasil é este!!!

  4. Continuo insistindo que a boa imprensa deveria divulgar o que é o VOTO IMPRESSO, e o que Bolsonaro e todos nos queremos. Quem vencer com o VOTO IMPRESSO leva, portanto não é Bolsonaro que esta ameaçando GOLPE, ele esta prevendo sim que a população dificilmente aceitará a vitória do LULA, já proclamada por pesquisas, sem o VOTO IMPRESSO, e os conflitos sociais poderão ser graves. Isso não é GOLPE mas exigir transparência nas urnas como exigem as verdadeiras democracias.

    1. Esse é o Brasil onde o STF luta contra um aprimoramento mais do que necessário. Tem que pôr mandato nesses togados para durarem pouco, se ruins como esses, se bons deixam o exemplo.

  5. Como disse Abraham Weintraub, as poderosas famílias que controlam o Brasil, certamente estão no comando das “marionetes” do STF para tirar o “intruso” que inoportunamente ocupa o Planalto e atrapalha seus planos. Queria ser uma mosquinha para saber como agem, como corrompem. Velha Imprensa, STF, Senado, Congresso, a ordem é um ataque em todas as frentes. A ganância pelo poder, pelo controle, não importando se há pandemia, desemprego, fome. O povo já sabe o que quer, como quer e não vai mais aceitar fraude, enganação ou conversa de político em véspera de eleição. Encontraram seu líder e mesmo que o derrubem(o que acho muito improvável) continuarão a trilhar o caminho que Bolsonaro traçou. Para toda ação existe uma reação.

  6. Como uma instituição que presa a democracia poderia estar contra a evolução e o aprimoramento?
    É uma flagrante intromissão contra a transparência e garantia da lisura do processo.

  7. “Bolsonaro e sua turma (…) têm a obrigação de mostrar ao público as provas de que houve fraude nas eleições de 2018.” Sim? Não, não têm, não. Acaso alguém teria como provar que não houve fraude em 18 nem haverá em 22? Também não, ninguém. E por quê? Que provas haveria para mostrar se as urnas não permitem que os resultados que exibem sejam conferidos? Mas as “provas” de que há quem queira “melar o jogo” e “dar o golpe”, o STF e o Senado já tratam de colher. Elas devem ser consideradas válidas? O processo de “investigação” é correto? Guzzo de vez em quando nos atira umas gracinhas de lá de cima do muro em que se põe sentado balançando as pernas. Que espera ver? O surgimento daquela tal “3ª via” proba, sensata, elegante e competente? Divertido, isso…

  8. O voto aberto seria o ideal porque não só haveria a possibilidade de recontá-los, como também saberíamos como votam os Imparciais.

  9. O MAIOR PROBLEMA É SE UM DIA O BRASILEIRO DESCOBRIR O TAMANHO DA ESQUERDA, ESSES MINISTROS SE BORRAM DE MEDO, OU VCS ACHAM QUE O ANDRADE TEVE MAIS DE 40mi DE VOTOS NA ELEIÇÃO PASSADA? As pessoas nem ao menos sabiam o nome desse sujeito….

    1. Me parece que ele só foi eleito por consentir/concordar em colocar os Senadores, imprensa, academia, artistas, sindicatos, estudantes ligados à UNE e os partidos desclassificado9s de esquerda, contra o atual Governo Federal, numa demonstração cabal do quanto é medíocre e traidor, traição essa ampla, geral e irrestrita.

    2. Esse é outro vagabundo. A sua covardia é bem mais elevada que os seus 2 metros de altura. É mais um pulha que o Brasil que presta é obrigado a aturar.

  10. Independentemente se vai ter fraude com as urnas nas condições atuais, ou se a ideia é utilizar o voto passível de auditoria para criar confusão e dar golpe, o fato é que, nossa Constituição nos obriga a auditar o voto caso existam dúvidas quanto a lisura da apuração e/ou dos resultados obtidos!
    Esse assunto já havia sido determinado pelo Congresso, Instituição legitima para tanto, e o voto impresso – passível de ser confrontado com os resultados obtidos eletronicamente -, foi o vencedor, e, portanto, é o que deveríamos praticar.
    Sob outro aspecto, não existem dúvidas para qualquer cidadão com mais de dois neurônios, que em tudo existe possibilidade de fraude, inclusive e principalmente no meio eletrônico por não ser visível a operação realizada para o resultado obtido – não é à toa que anos após anos os Bancos empenham milhões de dólares correndo atrás dos hackers que lhes fraudam os sistemas!
    Se não é para fraudar e é uma solução fácil de se implementar, a ponto de sermos o único país que se utiliza do voto eletrônico e não possui qualquer meio de auditoria, por quê a resistência?

    1. CRISTALINO COMO ÁGUA DE POTE. TUDO BEM EXPLICADO E ESCLARECIDO. QUEM TEME AUDITAGEM, ESCONDE ALGUMA COISA. PARABÉNS MARCO POLO.

  11. E até quando vamos sair de casa pra votar e ter a ilusão que o nosso voto foi de fato para
    o candidato que escolhemos? O cara aparece as 18h com um papel na mão e o resultado como assim, e temos que confiar nele? estamos vivendo dias estranhos, ta todo mundo loco, satanãs esta a todo vapor mesmo, tudo invertido, valores, ideais, sociedade doente.

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