A aliança mais cínica da política brasileira

Alckmin está entrando para a história política do Brasil como um caso extremo de hipocrisia, de falsidade ou de oportunismo
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O ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin e o ex-presidente Lula, durante jantar que selou a aliança entre os dois - 19/12/2021 | Foto: Divulgação/Ricardo Stuckert
O ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin e o ex-presidente Lula, durante jantar que selou a aliança entre os dois - 19/12/2021 | Foto: Divulgação/Ricardo Stuckert

(J.R. Guzzo, publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 27 de março de 2022)

O ex-governador Geraldo Alckmin está entrando para a história política do Brasil como um caso extremo de hipocrisia, de falsidade ou de oportunismo — ou, muito provavelmente, as três coisas ao mesmo tempo. Trata-se de um exagero, mesmo para os baixíssimos padrões de moralidade da política nacional: é comum que a fauna desse ecossistema vire a casaca o tempo todo, e passe a dizer hoje o contrário do que dizia ontem, mas Alckmin é realmente uma história de superação. Dias atrás, ele assinou sua ficha de inscrição num desses pequenos partidos que prestam serviços ao PT e se qualificou, oficialmente, para ser candidato a vice-presidente na chapa de Lula nas eleições presidenciais de 2022. É a aliança mais cínica de que se tem notícia, há anos, na vida política brasileira.

Desde que começou a se anunciar a possibilidade dessa aberração, tempos atrás, Alckmin passou a ter um problema insolúvel. Antes de se dispor ao papel que está representando hoje, ele disse o seguinte: “Depois de ter quebrado o Brasil, Lula diz que quer voltar ao poder. Ou seja, meus amigos, ele quer voltar à cena do crime”. Como sair, agora, de um negócio desses? Não foi a mídia que falou em volta à cena do crime, nem os adversários; foi ele mesmo, Alckmin, de sua livre e espontânea vontade, e por iniciativa própria.

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Falando em português claro, para não complicar as coisas, Alckmin chamou Lula de ladrão — coisa que o seu principal adversário, o presidente e também candidato Jair Bolsonaro até agora não fez, não com essas palavras ou com essa clareza. Depois de ter dito, não retirou o que disse. Quer dizer, então, que o ex-governador está pronto a servir como vice de alguém que ele considera corrupto? Sim, quer dizer exatamente isso.

Lula foi condenado por corrupção e lavagem de dinheiro pela Justiça brasileira, em três instâncias e por nove magistrados diferentes; Alckmin, portanto, estava apenas anunciando um fato, quando falou em volta “à cena do crime”. O problema é por que ele, agora, se bandeou para o lado dos que considerava criminosos até outro dia. Não é só a questão da ladroagem, que bateu recordes na era Lula-Dilma — um caso raro na história universal da roubalheira, com os ladrões assinando confissões de culpa e devolvendo dinheiro roubado. Alckmin, ao se unir a Lula, está se unindo a tudo o que sempre combateu em sua vida. Ele está agora, por exemplo, no mesmo palanque que o MST — que, segundo Lula, vai “participar” ativamente do seu governo. Um de seus colegas de campanha já disse que escritura de propriedade de terra, para ele, só se for assinada por Deus, com firma reconhecida. É o novo Alckmin.

Leia também: “A esperança venceu a vergonha”, artigo de Augusto Nunes publicado na Edição 92 da Revista Oeste

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