publicidade
Política

A misoginia além do gênero: o esvaziamento da proteção feminina

'A lei, em sua essência, deveria ser o limite intransponível para quem carece de moralidade'

misoginia artigo martha de sousa
'Para proteger a mulher de verdade, precisamos de clareza, limites para os amorais e, acima de tudo, uma coragem honesta para admitir que a lei é o fim da linha' | Foto: Reprodução/Freepik

Por Martha de Sousa*

O debate público brasileiro caminha, a passos largos, para a substituição da ciência pela retórica e do Direito pela conveniência política. O exemplo mais recente e perigoso é a tentativa de legislar sobre a “misoginia” sem o devido rigor conceitual.

Ao transformarmos um termo científico e psicológico profundo em um “coringa” jurídico de contornos vagos, não estamos protegendo as mulheres. Estamos, na verdade, esvaziando a gravidade das agressões reais e desamparando aquelas que a lei finge abraçar.

Receba nossas atualizações

O analgésico para quem não tem valores

A lei, em sua essência, deveria ser o limite intransponível para quem carece de moralidade. No entanto, há uma inversão lógica no ar: acredita-se que decretos podem substituir o caráter.

+ Leia mais notícias de Política em Oeste

Como bem sabemos, quem possui valores sólidos não precisa de uma arma estatal apontada para a cabeça para respeitar a dignidade de uma mulher. O respeito nasce da percepção do valor intrínseco do outro, não do medo da sanção.

Ao focarmos apenas na punição final, estamos tentando tratar um câncer social com analgésicos. A lei é o remédio para o sintoma (a agressão), mas a causa reside em uma estrutura de valores contaminada.

Punir o “amoral” é necessário. Entretanto, acreditar que a punição isolada educa uma sociedade é um estelionato intelectual que ignora a raiz do problema: a percepção distorcida do papel feminino.

Misoginia e as três esferas do esvaziamento

Para que a defesa da mulher seja poderosa, ela precisa ser específica. Quando a lei se torna genérica, ela se perde em três esferas fundamentais:

  1. A esfera científica e conceitual

A misoginia, na psicologia e na sociologia, é o ódio sistêmico ou patológico ao feminino. Ao vulgarizarmos o termo para enquadrar qualquer divergência de ideias ou conflito de temperamento, provocamos um esvaziamento semântico. Se “tudo” é misoginia, o crime real de ódio torna-se apenas mais um ruído estatístico. É um desrespeito às vítimas de violência extrema equiparar seus traumas a meros aborrecimentos cotidianos.

  1. A esfera social e a insegurança jurídica

Sem uma definição clara, a lei vira refém da “ótica do julgador”. O Direito deixa de ser um escudo protetor para se tornar uma loteria subjetiva, onde a interpretação ideológica de um magistrado pode valer mais do que a evidência dos fatos. Essa trivialização enfraquece o sistema judiciário e gera uma falsa sensação de segurança que se desfaz diante da primeira tragédia real.

  1. A esfera cultural e a reprodução doméstica

Este é o ponto que o “politicamente correto” evita tocar. A misoginia não é um código genético masculino; é uma construção cultural muitas vezes multiplicada dentro de casa. Em muitos lares, as próprias mulheres, por herança educacional ou instinto de sobrevivência em estruturas arcaicas, tornam-se guardiãs desse preconceito. Ao educarem filhos homens para serem servidos e filhas mulheres para a submissão, elas alimentam a engrenagem que a lei, tardiamente, tentará punir no futuro.

A verdadeira defesa da mulher

Mulheres estão morrendo e sofrendo abusos reais. É precisamente por isso que não podemos aceitar o “populismo legislativo” que entrega leis elásticas em troca de aplausos em redes sociais. Uma lei genérica é desvirtuante; ela inflama o conflito entre gêneros sem resolver a desvalorização da mulher na base da pirâmide social.

A solução não está apenas no Código Penal, mas na restauração de uma estrutura de valores onde a mulher seja vista como sujeito de direitos e dignidade absoluta, e não como um objeto ou um sub-cidadão. Enquanto a sociedade — homens e mulheres — não encarar que a misoginia é ensinada no café da manhã e reforçada na ausência de princípios éticos, continuaremos enxugando gelo com leis simbólicas.

Para proteger a mulher de verdade, precisamos de clareza, limites para os amorais e, acima de tudo, uma coragem honesta para admitir que a lei é o fim da linha, mas a educação e os valores são o ponto de partida. Qualquer coisa diferente disso é apenas barulho político sobre o silêncio das vítimas reais.

Leia também: “Em nome da ‘inclusão’, a exclusão das mulheres”, artigo de Ana Paula Henkel publicado na Edição 314 da Revista Oeste


*Estrategista de liderança e desenvolvimento executivo. Palestrante International. Instagram @marthacdesousa.

Leia mais sobre:

0 comentários
Nenhum comentário para este artigo, seja o primeiro.
Canal Oeste
Nossos colunistas
Foto do autor J. R. Guzzo (diretor perpétuo)
J. R. Guzzo (diretor perpétuo)
Foto do autor Augusto Nunes
Augusto Nunes
Foto do autor Ana Paula Henkel
Ana Paula Henkel
Foto do autor Guilherme Fiuza
Guilherme Fiuza
Foto do autor Rodrigo Constantino
Rodrigo Constantino
Foto do autor Alexandre Garcia
Alexandre Garcia
Foto do autor Antonio Cabrera
Antonio Cabrera
Foto do autor Eugênio Esber
Eugênio Esber
Foto do autor Evaristo de Miranda
Evaristo de Miranda
Foto do autor Flávio Gordon
Flávio Gordon
Foto do autor Roberto Motta
Roberto Motta
Foto do autor Miriam Sanger
Miriam Sanger
Foto do autor Adalberto Piotto
Adalberto Piotto
Foto do autor Frank Furedi, da Spiked
Frank Furedi, da Spiked
Foto do autor Jeffrey A. Tucker.
Jeffrey A. Tucker.
Foto do autor Theodore Dalrymple
Theodore Dalrymple
Foto do autor Flavio Morgenstern
Flavio Morgenstern
Foto do autor Ubiratan Jorge Iorio
Ubiratan Jorge Iorio
publicidade
publicidade