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Política

No ano passado, 66 autoridades dos Três Poderes usaram jatinhos privados em Brasília

Viagens em aeronaves desse tipo envolveram ao menos 58 parlamentares, 4 ministros do Executivo e 4 do Supremo Tribunal Federal

Aeronave VC-99C da Força Aérea Brasileira | Foto: Divulgação/Flickr/Força Aérea Brasileira (FAB)
Exemplo de modelo de jatinho, mas público — a aeronave VC-99C da Força Aérea Brasileira | Foto: Divulgação/Flickr/Força Aérea Brasileira (FAB)

Viagens em jatinhos privados envolveram ao menos 58 parlamentares, quatro ministros do Executivo e quatro do Supremo Tribunal Federal (STF) no terminal executivo do Aeroporto de Brasília durante 2025. Os dados são do jornal Folha de S.Paulo.

A relação de passageiros inclui 38 deputados federais, 20 senadores, além de ministros de Estado e integrantes do Supremo Tribunal Federal. Os voos ocorreram em aeronaves de empresários, empresas de táxi aéreo e, por vezes, dos próprios políticos.

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Entre os registros, destaca-se o do presidente da Câmara, Hugo Motta (PP-PB). Ele utilizou o avião de Marcelo Perboni em janeiro para comparecer ao enterro do pai do deputado Arthur Lira (PP-AL). A assessoria de Perboni explicou ao jornal que “na ocasião, em um momento de luto, Marcelo Perboni disponibilizou transporte para a ida do deputado citado [Motta], em caráter estritamente pessoal e solidário”. Motta não se manifestou.

Depois de assumir a presidência da Câmara, em fevereiro de 2025, ele passou a poder utilizar aeronaves da FAB.

Casos emblemáticos de uso de jatinhos e conexões empresariais

Avião da FAB
Um dos jatinhos do Grupo de Transportes Especiais (GTE), da FAB | Foto: Tenente Enilson/FAB

Outro caso é o do senador Otto Alencar (PSD-BA), presidente da CCJ, que realizou três viagens em jatos fretados pela Prime You em março, abril e junho. Segundo o parlamentar, “o advogado Ciro Soares, que tem residência e escritório em Salvador, advogado em casos do PSD da Bahia, me convidou para esses voos”. Soares detalhou que utiliza voos fretados para deslocamentos rápidos e convidou o senador por coincidirem no mesmo destino.

Leia mais: “Toga combina com jato”, artigo de Augusto Nunes publicado na Edição 316 da Revista Oeste

O conselheiro do Tribunal de Contas da Bahia Otto Alencar Filho, filho do senador, possui participação societária na M&A Participação. A empresa integra o quadro societário da Mollitiam, beneficiada com R$ 12 milhões do Banco Master entre 2022 e 2025. Em nota, Alencar Filho afirmou que os serviços prestados foram faturados e que todos os impostos foram pagos.

O senador Ciro Nogueira (PP-PI) também aparece na lista, tendo realizado oito voos em aeronave pertencente a um dos sócios da JBS Terminais, empresa do grupo JBS.

Autoridades do Judiciário e suspeitas de conflito

No Judiciário, ministros como Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques figuram entre os usuários dos jatinhos. Moraes e sua mulher, Viviane Barci, foram registrados pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) em oito embarques no hangar executivo, sempre em voos da Prime Aviation. Documentos enviados à CPI do Senado mostram que o escritório de Viviane Barci de Moraes recebeu R$ 80 milhões em dois anos do Banco Master.

Em 4 de julho, Dias Toffoli embarcou no terminal executivo e seguiu em avião da Prime Aviation para Marília (SP), sua cidade natal. Relator do inquérito sobre fraudes que envolvem o Master, ele deixou o caso depois de a PF mostrar pagamentos de uma empresa a ele, o que, segundo o ministro, tem relação com a venda de participação no Tayayá Resort.

Leia também: “Hora de partir”, artigo de Augusto Nunes publicado na Edição 317 da Revista Oeste

Kassio Nunes Marques, vice-presidente do TSE, viajou diversas vezes no avião do advogado Gustavo Severo, que atua no tribunal. Severo já representou o ex-governador Claudio Castro (PL) no TRE do Rio de Janeiro, mas o caso está perto do julgamento final. Nunes Marques participou do julgamento no TSE e votou pela absolvição do ex-governador.

Legalidade e riscos de conflito de interesses

Gleisi Hoffmann
Vista aérea da Esplanada dos Ministérios, em Brasília | Foto: Reprodução/Agência Senado

Embora ministros do Executivo possam utilizar aeronaves da FAB para fins profissionais, alguns aparecem na lista de passageiros do terminal privado. Segundo o UOL, Rui Costa, ex-ministro da Casa Civil, e Sidônio Palmeira, da Secretaria de Comunicação, usaram jato dos filhos de Nestor Hermes, investigado por grilagem de terras na Bahia.

O uso de aviões privados por autoridades não configura ilegalidade, mas pode levantar suspeitas quando há relação com pessoas que podem se beneficiar de decisões públicas. Especialistas afirmam que há risco de conflito de interesses e possibilidade de crime em caso de troca de favores.

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