Brasil, o falso bandido da COP26

O país tem pouco a ver com a deterioração da natureza causada pelas emissões de carbono, mas mesmo assim foi alvo da militância ecológica mundial
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Joaquim Leite é ministro do Meio Ambiente
Joaquim Leite é ministro do Meio Ambiente | Foto: Divulgação/Ministério do Meio Ambiente

(Por J.R. Guzzo, publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 3 de novembro de 2021)

A conferência internacional para debater o clima, essa “COP” da qual se fala com tanta intimidade, é uma demonstração impecável da contrafação em que se transformou a questão ambiental nas altas esferas em que supostamente ela é tratada. Já é a 26ª reunião que fazem, aparentemente sem resultado algum: o problema, em vez de diminuir com a hiperatividade fanática de governos, megaempresas e ONGs de países ricos, só aumentou neste primeiro quarto de século de conversa. É claro que os burocratas-chefe, os empresários e a militância ecológica mundial, empenhados em “salvar o planeta”, não aceitam diminuir o seu próprio bem-estar em um milímetro, em nenhum item que possa aliviar o problema. Em compensação, nunca deixam de encontrar e denunciar culpados pela “destruição” da natureza: os países subdesenvolvidos, que estão acabando com o mundo porque querem melhorar as suas economias e escapar da pobreza. E de todos eles, está na cara quem é o grande bandido: o Brasil.

O grande problema ambiental da humanidade é a deterioração da natureza causada pelas emissões de carbono, resultado típico e direto da operação de economias altamente desenvolvidas — o Brasil, por todas as evidências disponíveis, tem muito pouco a ver com isso. A dificuldade do Brasil, na área, é muito clara: chama-se desmatamento, que de fato está em crescimento — embora seja, comprovadamente, muito menor do que era 15 ou 20 anos atrás. Isso só acontece, naturalmente, porque o Brasil é o país que tem mais florestas em todo o mundo. Mais, e principalmente: essas florestas existem numa situação de anarquia, sem a presença do Estado e entregues à mais completa ilegalidade.

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Quase 100% do desmatamento no Brasil é resultado direto do crime – invasões de terras, roubo de madeira, mineração clandestina, fraude nas terras indígenas, grilagem e outras desgraças devidas à falta de investimento na segurança e à inépcia oficial. Se o governo não consegue garantir a segurança nem de uma favela no Rio de Janeiro, por que iria fazer diferente na Amazônia? A verdade é que o Estado brasileiro, por incompetência dos três Poderes e em consequência de um sistema legal suicida, não consegue sequer dar títulos de propriedade nesses fins do mundo. Só mesmo por um milagre não haveria desmatamento na Amazônia.

Isso não tem nada a ver com o progresso da agricultura e da pecuária legítimas, como querem, de um modo geral, os poderes presentes à COP. Eles acham que acabando com o agronegócio brasileiro vão salvar a floresta e o “planeta”; mas podem arrancar do chão o último pé de soja e nenhuma árvore, nenhuma, deixará de cair na Amazônia. Mas quem, entre as grandes potências e no “movimento ambiental”, está interessado em fatos? Muito mais interessante, para todos eles, é investir no pânico — e esconder com sua retórica de fim do mundo a falta de coragem para enfrentar os problemas reais do clima e da preservação da natureza.

“Estamos a um minuto da meia-noite”, discursou o primeiro-ministro da Grã-Bretanha. É mesmo? E o que ele sugere que se faça a respeito? Que tal, já que está operando a toda no mercado do apocalipse, aplicar uma multa no presidente dos Estados Unidos? A ida da comitiva de Joe Biden à COP, com os seus carros blindados à prova de bomba atômica, seus Boings privados e sua multidão de sábios ambientais, deve ter queimado, em uma semana, mais carbono que qualquer país subdesenvolvido em um ano. Isso tudo para o homem dormir em público na conferência? É pouco.

Veja também: Uma Pergunta para J.R. Guzzo: A imprensa brasileira faz uma oposição construtiva?”

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