CPI é sinônimo de farsa de terceira categoria

A comissão inventada, agora, para 'apurar responsabilidades' na administração da covid-19 promete ser um exagero em matéria de hipocrisia, desonestidade e mentira pura e simples
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A única coisa que realmente deveria ser apurada: a roubalheira desesperada à qual Estados e municípios se dedicam há mais de um ano
A única coisa que realmente deveria ser apurada: a roubalheira desesperada à qual Estados e municípios se dedicam há mais de um ano | Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

(J. R. Guzzo, publicado no jornal Gazeta do Povo em 19 de abril de 2021)

Comissões parlamentares de inquérito, de qualquer nível e para qualquer finalidade, são possivelmente o maior clássico em matéria de fraude que a vida pública brasileira criou nos últimos 500 anos. Ao contrário do boi, nada se aproveita de uma CPI.

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Jamais as investigações de deputados e senadores investigam realmente alguma coisa e, com certeza, jamais descobrem o que os seus criadores e participantes prometem descobrir. Na melhor das hipóteses, são pura perda de tempo e desperdício acintoso de dinheiro público. Na pior, e mais frequente, são apenas uma ferramenta para fazer chantagem. Em qualquer dos casos, CPI é sinônimo de farsa, e farsa de terceira categoria. Um drama de circo teria vergonha de oferecer ao distinto público algo tão ruim.

Mesmo com esse histórico, a CPI inventada, agora, para “apurar responsabilidades” na administração da covid-19 promete ser um exagero em matéria de hipocrisia, desonestidade e mentira pura e simples. Não há absolutamente nada de concreto e objetivo a apurar — salvo, é óbvio, a única coisa que realmente deveria ser apurada: a roubalheira desesperada à qual Estados e municípios se dedicam há mais de um ano, desde que receberam do STF a autonomia total para cuidar da epidemia e, por força da situação de emergência, ganharam o direito de fazer compras sem licitação.

Mas essa investigação, justamente, os parlamentares que agem no submundo do Congresso não querem fazer. Ladroagem e incompetência, só se for federal; a corrupção que de fato existe, a estadual e municipal, tem de continuar protegida.

Nada representa tão bem o espírito da coisa quanto as ameaças feitas por um dos pretendentes mais agitados à presidência da CPI. É uma obra-prima. O homem, representante do Amazonas, afirmou em público — e foi levado altamente a sério por muito jornalista — que o governo federal “não fez nada para evitar a entrada do vírus no Brasil”. Acredite se quiser: foi isso mesmo que ele disse, e é em cima dessa razão que ele quer processar o governo, certamente por genocídio.

Como assim, “não impediu”? E qual dos 200 países do mundo conseguiu impedir? Estados Unidos? Inglaterra? Austrália? A Europa supercivilizada? A África? O que ele sugere como explicação para os 3 milhões de mortes que a covid-19 causou no mundo até agora?

A estupidez, como se sabe desde sempre na política brasileira, é livre. O curioso é a ligeireza que os colegas do deputado e o resto do “Brasil que pensa” dedicam a surtos como esse — hoje em dia está valendo tudo, decididamente. Para coroar o seu desempenho, o candidato a chefe dessa nova farsa disse que não cederia a “pressões” para incluir os Estados e municípios na CPI. É claro que não: seu Estado, o Amazonas, é um daqueles em que mais se roubou por conta da epidemia.

Manaus descobriu-se de repente sem balões de oxigênio — pela simples razão de que os governos locais, que têm a responsabilidade direta pelo sistema hospitalar público, só foram se lembrar do problema quando as pessoas estavam morrendo por falta de ar. Mas o deputado não aceita “pressões”. CPI, só nos outros.

Leia também: “A aglomeração dos invisíveis”, reportagem publicada na Edição 56 da Revista Oeste

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