A aglomeração dos invisíveis

Medidas elitistas ignoram a realidade das periferias e do transporte público, e põem em xeque as determinações impostas de dentro dos gabinetes

É no bairro de Cidade Tiradentes, na periferia leste de São Paulo, onde se espraiou um dos maiores conjuntos habitacionais da América Latina, que o gabinete da covid-19 do governo João Doria começa a perder a batalha da narrativa do confinamento contra a pandemia — e também onde se começa a entender como é a vida do brasileiro que não pode (nem nunca pôde) ficar em casa um único dia nos últimos 13 meses, desde que o vírus chinês chegou ao país.

“A periferia entendeu o jogo rápido e também se virou rapidamente, pois nunca parou. Quem tinha uma garagem ‘deu um tapa’ e montou algum negócio a meia-porta. E a vida no trem e no metrô nunca mudou”, afirma Alessandro Santana, de 41 anos, que trabalhava, com uma perua Kombi, recolhendo sucata para revenda. Morador do bairro, ele é um dos personagens que ajudaram a ilustrar esta reportagem.

Cidade Tiradentes, São Paulo

Erguida para ser um conjunto-dormitório de pedreiros contratados por empreitada na década de 1980 enquanto subiam os prédios da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo) em parceria com a Cohab (Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo), a área cresceu de forma desordenada pelas invasões de terra. Até hoje conta com poucas linhas de ônibus e o metrô jamais chegou lá, o que estica o caminho para quem trabalha nas demais regiões da capital. Segundo dados oficiais de 2010, com 211 mil habitantes (a estimativa mais recente já aponta 228 mil), o distrito da franja leste tem uma média de 14 mil pessoas por quilômetro quadrado. Para se ter uma régua do que isso significa, só 95 dos 5.568 municípios do país têm mais de 200 mil habitantes — Palmas, a capital do Tocantins há três décadas, não registra esse volume demográfico até hoje. Mais: se fosse uma “cidade” de fato, para além do nome de batismo, Tiradentes teria segundo turno numa eleição para prefeito, de acordo com a lei eleitoral.

Não é um município, mas parece. Trata-se de algo que o chefe do centro de contingência da covid, João Gabbardo dos Reis, e seus cientistas nunca viram de perto — quiçá, porque nunca cruzaram a linha do “cinturão expandido” do rodízio de veículos da prefeitura. E mal sabem eles que essa é uma realidade também em Carapicuíba, Perus, no Grajaú e em todas as curvas que o Rodoanel contorna, ladeando verdadeiras cidades invisíveis do vírus. Não é preciso muito exercício literário dos acadêmicos de plantão para recordar que, do chão das fábricas que margeiam as rodovias, brotam diariamente famílias — cujas necessidades de sobrevivência se sobrepõem a qualquer cor mais escura que o gabinete de Gabbardo queira pintar.

Em Cidade Tiradentes, Alessandro Santana parou seus negócios com sucata na pandemia. O motivo: não havia mais quem recebesse os produtos recolhidos no depósito. “Concorria com a reciclagem em bairros de ‘boy‘, mas, de repente, não tinha mais onde entregar porque estava tudo fechado. Mas quem se ‘prejudicou’ mesmo nessa crise foi o centro, o Pari, o Brás, por causa da fiscalização da prefeitura e do governo do Estado”, diz ele, que passou a viver do seu perfil no YouTube, no qual faz sucesso há dois anos com o Canal do Negão e suas lives inteligentes, avessas ao “politicamente correto” — um negro que é contra cotas raciais, defende meritocracia, liberalismo e conservadorismo e ganha seguidores diariamente à revelia do mainstream.

Nas redes sociais, Alessandro “Negão” posta vídeos, como os que se podem conferir abaixo sobre a realidade que os tecnocratas de ar-condicionado não ultrapassam. “Bom dia! Você já se perguntou por que os shoppings não podem funcionar com o distanciamento social do trem? Por que os governantes não usam a mesma regra?”

Metrô de São Paulo, Linha Vermelha (12 de abril de 2021) / @CanaldoNegaoo

Metrô de São Paulo, Linha Vermelha (9 de abril de 2021) / @CanaldoNegaoo

Estação Covid

Mário Mendes, de 36 anos, trabalha com tecnologia da informação — instala câmeras de segurança em portarias de condomínios, restaurantes, alarmes e faz manutenção de computadores. Sua esposa, cujo nome será preservado nesta reportagem por medo de retaliação, é funcionária do Hospital Tiradentes, na Avenida dos Metalúrgicos, uma das artérias que dão acesso à região. É dela a descrição real do impacto da caneta dos governantes no transporte público. “A cada três horas, agora passa um [ônibus]”, diz. De fato, a maior frota latino-americana perdeu cerca de 3 mil carros na pandemia — são mais de 14 mil normalmente —  e sobram relatos de filas gigantescas e aglomerações em terminais. De acordo com o Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema), o volume de passageiros nos ônibus aumentou em 300 mil de janeiro para fevereiro.

Nesse jogo de empurra, aliás, também empresários e o poder público perderam receita. De acordo com dados da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), o prejuízo no país foi de R$ 12 bilhões na pandemia — 2.900 municípios têm serviços organizados de veículos. Nesta semana, o Metrô paulista divulgou que o rombo no ano passado nas catracas foi de R$ 1,7 bilhão nos cofres do Estado.

“Caso a situação de confinamento persista, o Metrô não vai conseguir recuperar a demanda em nível suficiente para restabelecer seu equilíbrio econômico-financeiro. As ações de redução de custos e as atividades de obtenção de receitas tarifárias não serão suficientes para suprir a falta da receita tarifária”, aponta o Relatório Integrado Anual do Metrô, publicado pelo jornal O Estado de S.Paulo nesta semana.

O documento, contudo, confronta o próprio governo paulista. Afinal, foram várias as declarações de autoridades, como a do próprio secretário dos Transportes, Alexandre Baldy, segundo o qual a empresa sempre operou com a totalidade dos equipamentos. Ou seja, não era verdade: a companhia tirou trens de circulação e aumentou o tempo de espera nas plataformas, e as imagens desta reportagem falam por si só.

Na linha mais cheia, a Vermelha, por exemplo, que liga as zonas oeste e leste, três composições saíram de circulação recentemente, o que pode até parecer pouco, mas não para quem embarca na Estação Sé com destino a Itaquera no rush do final da tarde.

Leia também a reportagem “O vagão e o vírus”

Mário Mendes, de Cidade Tiradentes, ainda narra o dilema de ter dispensado seus três funcionários no ano passado — não pela falta de demanda, mas pelas dificuldades impostas pelo poder público para executá-las —, o aumento nos preços de equipamentos, mas, principalmente, o que chama de “pandemia eleitoral”. Assim ele encerrou a entrevista: “Para eles está bom, né? Mas vai ser assim até o ano que vem?”. Provavelmente vai, Mário.

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30 comentários

  1. Em vez de tirar aumentem o numero de trens e ônibus; isto poderá diminuir a superlotação.E autorizem a quem possuir kombi a poder, enquanto durar a pandemia a fazer lotação.

    1. Silvio Navarro, que artigo de excelência, que perfeição de realidade e que prazer em lê-lo.Cidade Tiradentes, Sapopemba e outros na periferia de São Paulo, são pequenas cidades.Atualmente constam nas estatísticas da covid,com maiores índices da doença e número de mortes.Isso explica em parte todo seu texto.Eles jamais poderiam escolher o “fique em casa”, impossível.Digo aqui por me sentir segura, São Paulo teve a pior gestão da pandemia,por Covas e Dória.Pequeno e médio comércio faliram,como vários outros setores.Ainda vivemos o livro de Jacques Lambert “os dois Brasis”.Se vc perguntar onde fica a cidade Tiradentes, poucos saberão responder.Vejo no bairro Pinheiros onde resido,pobreza, pequeno comércio falido,fome e moradores de rua.Obrigada pelo artigo certeiro e verdadeiro.

    2. E achas que o governador e o prefeito querem isso? Eles não querem solução, querem o caos econômico para criar condições a uma revolta social e guindar o totalitário comunismo ao poder.

  2. Excelente! Tocou na ferida! E aí governador Dória, procede a informação de que o metrô reduziu o número de composições em circulação e aumentou o tempo de espera nas plataformas? Mas não era a gestão a favor da vida?

    1. Se essa CPI da Covid tivesse a intenção de punir alguém, tanto os governadores quanto prefeitos deveriam ser punidos pelo que deixam de fazer quanto pelo que roubam.Deveriam obrigar esses palhaços que “comandam” a crise a visitar a periferia e conviver, pelo menos, um dia com esse tipo de vida. De um jeito ou de outro eles pagarão caro por isso. O povo brasileiro é muito manso para não sair arrebentando tudo, mas uma hora isso pode acontecer!

    1. Meu caro Silvio, esse Governador <uh!!!?? João AGRIPINO Dória o DITADOR realmente é um FARSANTE e um PULHA. Ele e seus CIENTISTAS estão pouco se lixando para o povo de São Paulo. O seu grande negocio era a VACINA SINOVAC BUTANTÃ, que tem uma " fantástica eficacia!" uma imunização de 50,38%, que não é segredo pra ninguém, mas nem a CHINA recomenda essa VACINA. Assim ,metro, trem,ônibus serão FOCOS DE TRANSMISSÃO e o GOVERNADOR FICA EM CASA jamais pora as suas patinhas em Cidade Tiradentes ou qualquer outro lugar, seria OVO ..cionado. Abcs

  3. Traços bem marcados da realidade. Trabalho na região metropolitana e a periferia nunca parou. Isolamento como? Se num mesmo barraco moram de 5 a 8 pessoas, todas apinhadas? Usar máscaras como? Se nem o dinheiro para o pão tem? Álcool em gel? O que é isto?

  4. Para elite ficar em casa, soa tão , como direi, até um sacrifício suave… serviços delivery, filmes e entretenimentos que o dinheiro pode comprar. Enquanto isto, o trabalhador pobre e principalmente o informal , vê a geladeira vazia, o filho pedindo comida e a incerteza do amanhã batendo a sua porta.
    O mais triste ainda é constatar prefeitos e governadores colocando interesses políticos, acima das necessidades mais básicas dos menos favorecidos.
    É triste!

  5. Prefeitos e governadores que negam a realidade da população são os VERDADEIROS NEGACIONISTAS. A eles e aos seus partidos, o nosso VOTO NEGADO. Sejamos “negacionistas” TODOS.

  6. Não precisa ser inteligente para saber que se uma determinada linha de metrô transporta 2 milhões de pessoas por dia , e se reduz o fluxo , vai acumular mais nas que restaram. Basta não ser um retardado mental e ou mau caráter. Isso vale tam

  7. Editoriais sérios sobrevivem da verdade verdadeira(hoje temos que registrar assim), e de seus assinantes é claro.
    Não sei o que deu nas cabeças desses jornalistas, pessoas físicas de carne e osso, gente que tem família, gente que tem filhos nas escolas. Não dá prá entender serem subservientes a orcrims, a redações claramente comprometidas com os globalistas não com a Pátria! Como mudam de lado com facilidade, na cara limpa!
    Será somente pela sobrevivência? Amor à profissão?
    Meu Deus, trabalham para um jornalismo que defende tudo “científico” como o Gabbardo, qdo o científico sequer existe!
    A própria China acaba de reconhecer a baixa eficácia de vacinas que já tomamos! Então é só prá foder um governo honesto e matar quem é pobre da esquerda incapaz?
    Porque não focam os resultados desses lockdowns? Porque não se indignam com as ações da PF e reportam sobre o fim da lava-jato, a preservação dos corruptos, os laços entre o congresso e o STF que estão destruindo nossa honradez?
    PEC DA BENGALA
    PEC DA PRISÃO EM SEGUNDA INSTÂNCIA
    VOTO IMPRESSO, “ainda que tardia”
    Haveremos de restituir nosso voto junto ao Rodrigo Pacheco.
    Nossa prestação de contas é com quem votamos, e nos traem assombrosanente, desde a promulgação da carta comunista de 1.988.

  8. Excelente Silvio, mas poderá ficar muito pior se em 2022 não tivermos o VOTO IMPRESSO. Você e a competente equipe de jornalismo da revista oeste, jovem pan, gazeta do povo poderiam iniciar intensa campanha de esclarecimento, que o VOTO IMPRESSO é a única forma de AUDITAR e se necessário RECONTAR as apurações das urnas eletrônicas, e evitará graves conflitos sociais em disputas acirradas e sem transparência nas urnas. Tramita importante PEC no Congresso que necessita ser aprovada até out/21. Voto impresso não é retrocesso, sua implantação custa menos que os penduricalhos do Judiciário, e não ‘VIOLA O SIGILO E A LIBERDADE DO VOTO”, como declarou recentemente o STF para tornar INCONSTITUCIONAL, Lei aprovada pelo Congresso em 2015, e o Congresso do Maia e Alcolumbre sequer questionou ou recorreu de tamanha interferência do Poder Judiciário no Legislativo.
    Silvio, assisti recente entrevista na BandNews do dr. Paulo Chap Chap diretor geral do Hospital Sírio Libanês, que para atendimento à COVID, contratou mais de 700 profissionais da saúde, criou mais de 100 leitos, e hospitalizou mais de 3500 pacientes, com importantes resultados de baixa letalidade, ou aproximadamente 4% para o total de hospitalizados e 12% para os casos graves com ventilação mecânica.
    Entendo que vários hospitais privados em São Paulo, tenham obtido resultados aproximados, portanto se nossa rede pública e hospitais de campanha que receberam vultosos aportes do governo federal, tivessem a mesma performance, seguramente teríamos muito menor letalidade, portanto salvo muitas vidas.
    Silvio, procure fazer esse levantamento para que a sociedade saiba quem são os genocidas deste pais, e que será muito útil para levar via boa imprensa para o PALCO ELEITORAL da CPI da PANDEMIA, aquela de autoria do INUTIL senador Randolfe Rodrigues que votou CONTRA todas as reformas, trabalhista, previdenciária, MP871 de combate às fraudes da previdência, Marco Legal do Saneamento Básico, PEC emergencial, Orçamento, e outras, e tudo judicializa como verdadeiro despachante no STF.

  9. Parabéns Silvio, como é bom ter uma mídia decente, jornalistas verdadeiros, gente séria e competente. Sinto orgulho de ser assinante.

  10. Algo deve ser feito urgentemente. Ou alguém duvida que em junho, época de frio e hospitais cheios normalmente, haverá um novo lockdown (ou toque de recolher) o quê agravará a restrição alimentar (melhor dizendo fome) e aumentará a pobreza Preocupam-se com vidas, mesmo que essas vidas peçam esmolas no farol e vivam debaixo de pontes! E que seus filhos fiquem mais atrasados pois não abrem a Educação de qualidade. Talvez, o melhor a ser feito seria as pessoas que ainda têm uma kombi, ou uma pessoa que tenha uma van escolar, encher de marmitas ou doces para vender nos bairros do boy. Prédios novos surgem a cada dia e praças estão cheias nos fins de semana (devido aos parques que estão fechados), pois segundo o fiscal de aeroporto e seus çientiztas o ar faz mal a saúde! Façam tudo antes que inventem uma nova variante.

  11. Agora entendo as frases de Marina Silva: “Vamos inverter a lógica”
    Até o meu filho de 3 anos entende que estão fazendo tudo ao contrário. E também a frase de José Dirceu: “Vamos tomar o Brasil e não será pelas urnas!”

    Não vai demorar muito para o seu Kalil (BH) e o seu agripino (SP) fecharem os pontos de ônibus, os terminais e o metrô. Afinal, para eles, são aglomerações desnecessárias. O coitado que reúne umas poucas pessoas DENTRO da sua casa é o culpado (artigo inviolável segundo a CF 1988), e com certa ajuda da imprensa de necrotério. Mas aglomerações com entrevistas diárias, no aeroporto ou no palácio dos Bandeirantes, são supernecessárias?

  12. Texto muito bem escrito, fácil de ler, fluido. Gostei do Canal do Negão, quanta coisa boa pra aprender com tanta gente! Só pra vc entender, sou só uma tia do zap, mesmo! Aprendendo, antes tarde do que nunca, a ficar antenada com os acontecimentos através de fontes de qualidade.

  13. Excelente matéria. Aos poucos, certamente, os paulistas passam a compreender que a gestão da pandemia no Estado e no Município de São Paulo resultou em milhares de mortes, desemprego e quebradeira de inúmeras empresas e pequenos negócios.

  14. É revoltante verificar a inépcia, a irresponsabilidade e a desumanidade da maioria dos políticos, que fecham os olhos às necessidades e dificuldades em que vivem os trabalhadores brasileiros, como descreve o artigo acima. Chega a ser desumano o tratamento que dispensam à população carente! Quando isso vai mudar? Quando teremos políticos sérios e comprometidos com a Nação? Depois de eleitos, esquecem as promessas de campanha, trabalham para encher os bolsos e roubar, com poucas exceções. É uma tristeza!

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