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Política

Eugenia de linguagem polida

A esquerda transformou o controle demográfico em bandeira emancipatória

'A convergência entre neomalthusianismo e eugenia culminou, ao longo do século 20 e início do 21, em políticas de controle populacional que atingiram de forma desproporcional populações negras, pardas e periféricas', escreve Lucas José | Foto: Divulgação/Oeste | Imagem criada com o auxílio de inteligência artificial
'A convergência entre neomalthusianismo e eugenia culminou, ao longo do século 20 e início do 21, em políticas de controle populacional que atingiram de forma desproporcional populações negras, pardas e periféricas', escreve Lucas José | Foto: Divulgação/Oeste | Imagem criada com o auxílio de inteligência artificial

A esquerda passou por uma mutação significativa na forma de tornar seus discursos mais palatáveis ao grande público. Uma das pautas em que essa transformação é mais evidente é a do aborto, hoje frequentemente apresentada como política de justiça social e emancipação feminina.

A base teórica desse discurso remonta ao fim do século 17, com Thomas Malthus. A teoria malthusiana sustentava que o crescimento populacional exacerbado ameaçava os recursos naturais e a ordem social, pois, segundo Malthus, a população cresceria em progressão geométrica, enquanto os meios de subsistência cresceriam apenas em progressão aritmética. É indispensável destacar que Malthus era pastor anglicano e defendia o chamado “controle moral”, um conjunto de normas que incluía a abstinência sexual e o adiamento dos casamentos, que só deveriam ocorrer mediante a comprovação da capacidade de sustentar a provável prole.

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Essa concepção deu origem, no fim do século 19, ao neomalthusianismo, que reformulou o problema demográfico sob uma ótica estatal. Se o malthusianismo clássico enfatizava a moralidade individual, o neomalthusianismo passou a defender que o Estado deveria intervir diretamente no controle das taxas de natalidade por meio de políticas públicas de planejamento familiar. Adaptado à era industrial, esse novo discurso recorreu à ciência e à tecnologia médica, enxergando o crescimento populacional das classes pobres como a principal raiz da miséria, da criminalidade e da instabilidade política.

O criador do termo “eugenia”

É nesse mesmo contexto que surge Francis Galton, sobrinho de Charles Darwin, criador do termo “eugenia”. Galton procurou aplicar a ideia de seleção natural ao estágio civilizacional da sociedade moderna, classificando pobres, doentes e minorias raciais como um fardo para o progresso humano. Essa mentalidade não permaneceu restrita ao campo teórico. Margaret Sanger colocou tais ideias em prática ao fundar a Planned Parenthood. Sanger defendia explicitamente que o controle da natalidade seria a ferramenta definitiva para “limpar o estoque biológico” da humanidade, argumentando que a procriação das classes trabalhadoras e de grupos racializados representava um peso econômico e social para os Estados Unidos.

A convergência entre neomalthusianismo e eugenia culminou, ao longo do século 20 e início do 21, em políticas de controle populacional que atingiram de forma desproporcional populações negras, pardas e periféricas. Sob o verniz retórico do “planejamento familiar” e da “autonomia reprodutiva”, consolidou-se um modelo que direciona o aborto justamente às camadas mais vulneráveis da sociedade. Nos Estados Unidos, estudos geoespaciais indicam uma concentração desproporcional de clínicas de aborto em bairros majoritariamente negros e latinos. Aproximadamente 80% das instalações de aborto cirúrgico da Planned Parenthood estão localizadas a uma distância caminhável dessas comunidades. Embora representem cerca de 13% da população feminina do país, mulheres negras respondem por algo entre 35% e 40% dos abortos realizados anualmente.

O problema brasileiro

No Brasil, o padrão se repete. O aborto é praticado majoritariamente por mulheres negras, jovens e pobres. O argumento frequentemente usado é o de que mulheres ricas abortam com segurança, enquanto mulheres pobres morrem em procedimentos clandestinos. Isso revela uma normalização moral da eliminação do filho, como se o problema estivesse apenas nas condições do procedimento, e não no ato em si. A tragédia social é instrumentalizada para legitimar a morte de bebês como política pública.

Assim, o que se apresenta hoje como discurso “progressista” e humanitário carrega, em seu núcleo histórico e prático, uma lógica elitista e higienista. A esquerda contemporânea assimilou esse legado, suavizando-o com a linguagem dos direitos individuais, mas com o objetivo de reduzir o número dos “indesejáveis”. A defesa do aborto atualmente representa um mecanismo moderno de exclusão, que transfere para os mais pobres o custo moral e biológico de uma ordem social incapaz de oferecer alternativas reais de dignidade, proteção e futuro.


(*) por Lucas José é estudante de Direito na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

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