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Mercosul defende regulação das redes em texto sobre proteção às crianças

Tema gera críticas no Congresso por risco de censura em ambiente digital

Lula discursa durante reunião com países parceiros na Cúpula do Mercosul, em Foz do Iguaçu - 20/12/2025 | Foto: Kiko Sierich/Reuters
Lula discursa durante reunião com países parceiros na Cúpula do Mercosul, em Foz do Iguaçu - 20/12/2025 | Foto: Kiko Sierich/Reuters

Os países do Mercosul aprovaram neste sábado, 20, uma declaração especial conjunta sobre a proteção da infância e da adolescência em ambientes digitais. O texto foi acolhido durante a Cúpula de Líderes realizada em Foz do Iguaçu (PR), que reuniu os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (Brasil), Javier Milei (Argentina), Santiago Peña (Paraguai) e Yamandu Orsi (Uruguai). A Bolívia foi representada pelo ministro das Relações Exteriores, Fernando Aramayo.

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Na declaração, os países afirmam preocupação com o aumento de crimes cibernéticos que envolvem crianças e adolescentes, como assédio e intimidação (cyberbullying), violação de privacidade e de dados pessoais (doxxing), abuso e exploração sexual (grooming), além de discriminação, violência e incitação à automutilação e ao suicídio, “influenciados por tendências e desafios disseminados em ambientes digitais”.

O documento também registra inquietação com o “extremismo violento” em ambientes digitais, que pode resultar em ameaças concretas a estabelecimentos escolares e outros espaços frequentados por crianças e adolescentes. Outro ponto destacado é o impacto dos avanços recentes em inteligência artificial, que, segundo o texto, “podem trazer riscos adicionais ao público infantojuvenil”, ao permitir a criação de produtos audiovisuais e interações artificiais usados indevidamente para fins de abuso e exploração sexual infantil.

A declaração enfatiza a importância da educação digital e midiática desde a infância, tanto em ambientes educacionais formais quanto no contexto familiar, com foco no desenvolvimento de habilidades socioemocionais e da capacidade crítica para um uso “consciente, seguro e responsável” dos ambientes digitais.

Para ampliar a cooperação regional, o Mercosul anunciou a realização de uma reunião de ministros da área de segurança pública e Justiça, além de forças policiais dos países-membros, com o objetivo de trocar experiências, boas práticas e soluções técnicas para o combate a crimes cibernéticos contra crianças e adolescentes.

Proposta do Mercosul acena para regulação das redes

O texto também destaca que os serviços digitais devem cumprir as legislações nacionais dos países onde operam, especialmente as normas relacionadas à proteção dos direitos de crianças e adolescentes. As empresas fornecedoras de serviços digitais que atuam na região, caso ofereçam serviços direcionados a esse público ou acessíveis a ele, devem adotar “os níveis mais elevados de segurança por design e de proteção da privacidade e de dados pessoais”, além de atuar de forma proativa e preventiva.

A declaração recomenda ainda que essas salvaguardas não sejam assimétricas entre os países do Mercosul e afirma o compromisso dos Estados em “trabalhar em estreita colaboração” para fortalecer capacidades institucionais e implementar políticas públicas voltadas à proteção da infância e adolescência no ambiente digital. Os países também acordaram em aperfeiçoar a proteção legal contra abuso e exploração sexual on-line e em criminalizar condutas relacionadas a esses crimes, inclusive com cooperação internacional para investigações transfronteiriças.

Reunião do Colégio de Líderes da Câmara que discutiu o texto do PL da Adultização: atalho para a censura, segundo jornal | Foto: Marina Ramos/Câmara dos Deputados
Reunião do Colégio de Líderes da Câmara que discutiu o texto do ECA Digital | Foto: Marina Ramos/Câmara dos Deputados

No Brasil, em setembro, foi sancionada a lei conhecida como ECA Digital, em referência ao Estatuto da Criança e do Adolescente. A norma estabelece obrigações às plataformas digitais para prevenir o acesso de crianças e adolescentes a conteúdos ilegais ou considerados impróprios, como exploração e abuso sexual, violência, intimidação, assédio, jogos de azar e práticas publicitárias predatórias. A lei também prevê regras de supervisão parental, mecanismos mais confiáveis de verificação de idade e disciplina o uso de publicidade e o tratamento de dados pessoais de menores.

Durante sua tramitação, o senador Carlos Portinho (PL-RJ) criticou a proposta e afirmou não se sentir “seguro” para votar o texto: “Tenho dúvida da honestidade, da verdade e do bom propósito desse projeto”. Segundo ele, “a causa é muito nobre, é tão nobre, que ela facilmente pode ser usada com outros propósitos”.

Portinho declarou que “se arrepiou” ao ouvir o governo dizer “que precisa controlar discurso de ódio e plataformas digitais”. Para o senador, “depois que abrir essa porteira para o controle das redes sociais, não se fecha nunca mais”. Ele também manifestou preocupação com a criação de uma possível “agência de controle digital” e afirmou que “não é o Estado que deve controlar” o uso das redes por crianças.

O parlamentar reconheceu a importância da proteção da infância, mas alertou para efeitos colaterais da proposta. “As crianças merecem toda a proteção do ECA e de todos os projetos de lei que trabalhamos aqui, mas por trás desse caroço, tem angu”, disse. “A autoridade vai censurar.”

Leia também: “A ofensiva da censura”, reportagem de Branca Nunes publicada na Edição 141 da Revista Oeste

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