O ex-mártir

"O antigo santo da luta anticorrupção, bandido para a esquerda e traidor para os bolsonaristas é um homem como qualquer outro", observou J.R. Guzzo
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| Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
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“O antigo santo da luta anticorrupção, bandido para a esquerda e traidor para os bolsonaristas é um homem como qualquer outro”, observou J.R. Guzzo

o ex-mártir
Moro não é um demônio — e nem um mártir. Não é a flor do mal — e nem a flor do bem | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
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(J.R. Guzzo, publicado na Gazeta do Povo em 03 de dezembro de 2020)

O ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro é um homem multifásico — vale coisas diferentes para pessoas diferentes em épocas diferentes. Quando comandava a Operação Lava Jato era um herói nacional. Sozinho, sem outras forças que não fossem a própria integridade pessoal e o seu cargo de juiz numa vara da Justiça federal em Curitiba, enfrentou e pôs na cadeia um ex-presidente da República, diretores das empreiteiras de obras públicas que costumavam governar o país e grandes estrelas do sistema de corrupção por atacado que deitava e rolava no Brasil de então.

Ao mesmo tempo, era o inimigo número um do PT, da esquerda em geral e da nebulosa de juristas amadores e profissionais que se apresentam com a marca de “garantistas” e atribuem à lei e à justiça, acima de qualquer outra coisa, o dever de absolver réus acusados de corrupção e outros crimes — sempre por “erros processuais”, ou alguma outra desculpa do mesmo tipo. Deixava horrorizados, em especial, os ministros do Supremo Tribunal Federal que operam como despachantes de escritórios de advocacia milionários, como os que defendiam o ex-presidente Lula e as mega empreiteiras corruptas.

Um deles acusou Moro de criar uma “república” ilegal em Curitiba, onde estaria em vigor a “ditadura” pessoal do juiz.

Quando já estava no Ministério da Justiça, foi promovido à categoria de monstro, absolutamente top de linha, pelos mesmos petistas, esquerdistas e garantistas de sempre, inclusive os internacionais, depois da divulgação de gravações ilegais de conversas que tinha tido com um dos promotores da Lava Jato. Gritou-se, pelo Brasil e pelo mundo, que estava ali a prova de que Lula era inocente dos crimes pelos quais tinha sido condenado — o criminoso, ao contrário, seria Moro. As fitas gravadas não demonstraram nada de errado. A “denúncia” derreteu — e nunca mais se ouviu falar do site de “jornalismo investigativo” que publicou as conversas, gravadas, aliás, por um hacker que acabaria na cadeia.

Tempos depois, foi demitido do seu cargo de ministro da Justiça pelo presidente Jair Bolsonaro, em razão de desentendimentos crônicos sobre nomeações na polícia e outros temas conexos. Transformou-se de imediato, nesse momento, num herói da esquerda que o odiava até a véspera — e, ao mesmíssimo tempo, num traíra da pior qualidade para a porção da direita bolsonarista que até aquele instante o tratava como a Santíssima Trindade concentrada num homem só.

Parte da oposição passou a delirar abertamente com a “candidatura” de Moro à Presidência da República; por uns momentos fugazes, imaginou-se que ele seria a grande “alternativa” a Bolsonaro, a quem acusava de delitos variados num processo que acabou resultando em três vezes zero.

Em sua última fase, aberta agora, Moro não é mais a esperança da esquerda, nem dos liberais e nem dos garantistas; por outro lado, tornou-se um satanás ainda mais feio para o bolsonarismo. É o resultado direto do anúncio que ele fez no dia do segundo turno das eleições municiais. Moro, o ex-herói da Lava Jato, ex-herói da “resistência” e vilão dos dois lados em circunstâncias diversas, anunciou que vai trabalhar na consultoria americana Alvarez & Marsal — que é, imaginem só, a administradora judicial de ninguém menos que a Odebrecht, a mais notável de todas as condenadas pelo próprio Moro.

Entre os clientes da consultoria americana estão outras inesquecíveis vedetes da Lava Jato, como a Sete Brasil e a empreiteira de obras Queiroz Galvão. Sergio Moro, segundo ele próprio, aceitou o cargo para ajudar empresas como essas a não pecarem mais; vai mostrar a elas como “fazer a coisa certa” e ensinar como praticar “políticas de integridade e anticorrupção”.

Não há dúvida de que Moro, segundo todos os especialistas em questões desta espécie, tem o direito de ganhar a própria vida e de ficar rico na iniciativa privada, agora que não é mais membro do governo; é muito melhor do que fazer o contrário, como é o caso de tantas estrelas da vida pública brasileira, que decidem enriquecer justo quando entram no time que está mandando. Mas sempre é bom ficar claro que o antigo santo da luta anti-corrupção, bandido para o consórcio PT-Lula-esquerda, traidor para os bolsonaristas e esperança da “oposição”, é um homem como qualquer outro. Não é um demônio — e nem um mártir. Não é a flor do mal — e nem a flor do bem.

Relembre a saída de Sergio Moro do governo Bolsonaro, na reportagem publicada na edição n° 5 da Revista Oeste

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15 comments

  1. Só lembrar que ele não foi demitido do governo; ele pediu demissão, após, ainda como ministro, convocar uma coletiva para atacar o governo do qual fazia parte, sem qualquer substrato probatório concreto.

  2. Se realmente a agenda anticorrupção do setor público for, agora, para o setor privado – certo. A corrupção sistêmica, obviamente, atua pelos dois lados. Se no setor público foi “desidratada”, que, ao menos, no setor empresarial vingue plena! Não nos esqueceremos jamais que muitos se elegeram graças às boas façanhas da Força Tarefa Lava Jato, odiada pelos corruptos e corruptores. Seria ideal que fossem imprescritíveis os crimes de corrupção ativa e passiva, notadamente os que envolvem o furto, desvio ou superfaturamento para pagar propinas com dinheiro público (seu, meu nosso e deles, pago por todos com impostos diretos e indiretos).

  3. Justiça seja feita,
    é preciso lembrar que ele não foi demitido do governo; ele pediu demissão, após, ainda como ministro, convocar uma coletiva para atacar o governo do qual fazia parte, sem qualquer substrato probatório concreto.

  4. Apenas, quanto ao texto de Guzzo, a ressalva já feita acima por outros leitores, de que foi ele o protagonista de sua demissão, num ato covarde e irresponsável, Moro, também é multifacetado, se comporta em quaisquer circunstâncias, com a mesma fisionomia serena, tranquila, fria, de quem possui de fato dupla moral e muito pouco escrúpulos à se pautar!

  5. Quem está num cargo como o do BRETAS ou esteve MORO, não pode deixar exacerbar ideologias, ou sequer focar objetivos profissionais, seja no funcionalismo público ou mesmo num ambiente de empresa.
    Moro continua sendo pequeno.
    E não adianta rotular-nos sermos povo que teme a orfandade .
    Deus é mais, MORO demonstrava ser mais, BOLSONARO demonstra ser mais.
    Os comunistas destituiram DEUS.
    O povo se iludi, podem tapea-lo ou mesmo condiciona-lo até por ordens “papais”, mas nunca arrancarão de sua essência a confiança, a certeza de que o bem sempre vence o mal.
    Credo, é isto…

  6. Ele não é a flor do bem e nem a flor do mal e também devia parar de atrapalhar o governo e devia parar de causar instabilidades na política. Que fique quieto na iniciativa privada, atuando como cidadão e não como camaleão, uma hora político, outra hora carreirista no mundo empresarial.

    1. Como assim foi demitido? Me lembro de assistir apreensiva o pronunciamento do ex-ministro, anunciando sua saída. Tem os méritos dele, é odiado pelos petistas, mas não por todos os bolsonaristas. Quem é honesto há de reconhecer seus méritos. Mas, como qualquer outro ser humano, também tem erros.

  7. Demitiu-se…..
    Acostumado a julgar, equivocou-se ao pensar que derrubaria o governo.
    Não é mesmo MÁRTIR! Rasgou definitivamente qualquer interpretação dessa.
    Pra que dizia cuidar da biografia, acabou por sepultá-la ao defender os bandidos a pretexto de fazê-los andar na linha……
    triste fim de um juiz que iludiu brasileiros…..

  8. Obs. o texto diz que o PR demitiu o moro, isso é mentira! aliás moro saiu do cargo numa coletiva de imprensa espetaculosa! ele está a cada dia se revelando um ser sem caráter e imoral!

  9. Além da inexatidão de afirmar que Mouro foi demitido pelo PR (quando na verdade pediu desligamento do cargo de Ministro), a conclusão do artigo não respeita a linha de raciocício do mesmo. Gostaria de ver mais cidadãos brasileiros se comportando como o “homem como qualquer outro”.

  10. Nada posso dizer sobre o comportamento de Moro no desempenho do cargo de juiz. Não tenho como afirmar que ele agiu com parcialidade na lava jato, notadamente contra Lula. Todavia, com o seu comportamento ao deixar o Ministério da Justiça, bem como sua atuação nas redes sociais, comportando-se como comadre invejosa, já estou achando que talvez não seja tão descabida a possibilidade de parcialidade apontada pelos defensores do ex-presidente. Portanto, apurar é preciso, doa a quem doer!!! Sabe-se lá se Moro não fez tudo planejado, assumindo o cargo de ministro já pensando em sair do governo, atirando contra o chefe, esperando que manifestações populares monstruosas exigissem sua permanência no cargo e pedissem a saída de Bolsonaro??? É de lembrar que Jânio Quadros ao renunciar esperava manifestação popular exigindo sua permanência, o que nunca aconteceu!!! Agora, como uma indicação ao STF, ou uma candidatura à presidência do país, parecem meras fantasias, não há outra alternativa senão a de trabalhar na iniciativa privada, ensinando empresas a fazer a “coisa certa”. Como perguntar não ofende, pergunta-se: o que significa para ele fazer a coisa certa??? Quem viver, verá!

  11. Importante citar, Guzzo, que o ex-juiz não foi demitido do governo, ao contrário! Pediu demissão, convocou uma coletiva onde fez o anúncio e graves acusações ao presidente, numa atitude surpreendente que fez muitos, dado a sua credibilidade até então, achar que o governo iria “desidratar”. Passados mais de seis meses nada surgiu que lhe desse crédito. Eu, como apoiador do presidente, e é o caso de muitos, continuo exaltar o trabalho do Moro juiz, mas o Moro ex-ministro, o Moro homem, na minha avaliação, deixou a desejar e perdeu minha admiração.

  12. continuo grata pelo excelente trabalho corajoso do juiz Sergio Moro.
    Também acho que como Ministro da Justiça começou fazendo um bom trabalho. Mas foi seduzido ou se deixou seduzir, como queiram, por voos mais altos, pela turma ensebada da esquerda light ou gourmet, pelos “intelectuais” sofisticados e os puxa sacos ambiciosos do PSDB. Apostou all in e PERDEU ! Assim, como homem, como cidadão, caiu na vala comum de tanta gente egocentrica e louca por tirar vantagem da situação e mostrou seus pés de barro que a toga escondia .. Serve a vários senhores e fica com quem lhe dá mais .. estava e está venda ..

  13. Existem críticas injustas no caso. Também é possível ver que muitas pessoas não entendem a função dele na nova condição de Advogado de grandes conglomerados que inclusive atuam no exterior. Ele sabe que existem ações que não poderá participar por conflitos de interesses e justa posição em empresas que ele mesmo condenou. Os delatores estão ainda pendurados em seus contratos com a Justiça e falta provar algumas cláusulas. Como o STF, principalmente o Gilmar Mendes deseja anular todas as provas e fechar a lava-jato, os empresários tenderão ser condenados e voltar para a prisão. Um ex-juiz, poderá ajudar, se ele quiser participar dos processos que envolvem pessoas com fôro privilegiado, a garantir as delações, além de ter acesso a documentos e fatos que ele não conseguir como magistrado. Quem deve estar queimando os miolos é o Lula e o Gilmar Mendes, além de políticos ainda com cargos.
    Para terminar, se quem critica com ódio e com modelo de esquerda, tem que pedir para que se compare o Moro com outros familiares de ministros que atuaram em processos que seus parentes sentenciaram. A OAB deveria analisar bem esta história do “dois pesos e duas medidas”. Se tiver um processo para afastar a mulher do Gilmar Mendes dos processos de empresas envolvidas na lava-jato, aí sim, teremos uma jurisprudência para ser debatida.

  14. Salvo que, Moro foi demitido quando na verdade pediu escandalosamente sua demissão, para anunciar em parceria com a impressa líder do ódio a Bolsonaro, conversas de tivera no whatsapp com Bolsonaro e Carla Zambelli, entendo adequados os comentários do mestre Guzzo sobre a figura Moro nos cenários que transitou.
    Todavia, ex admirador de Moro, fiquei decepcionado com o mau caráter de um ministro que durante 16 meses foi conivente com Bolsonaro e seus ministros, omitindo “intervenções” de Bolsonaro na PF e mais grave ainda, disse desconhecer tal procedimento em governos anteriores. Demonstrou, não ter conhecimento que FHC (diários da presidência) e Lula (entrevista UOL), avançaram muito mais nesse procedimento com a PF.
    Essa lamentável tentativa de Moro desqualificar o presidente em momento tão critico da pandemia, econômico e político, demonstram inaptidão para a responsabilidade de homem público. Lembrei-me daquele episódio no governo Temer, quando seu Ministro da Cultura, Marcelo Calero (desconhecido com muitos títulos), gravara conversas com outros ministros para denunciá-los e teve inclusive a ousadia ao se demitir, de gravar a conversa com o presidente. A intenção era flagrar um crime de responsabilidade? Graças a essas atitudes, esse inexpressivo cidadão politico após essa curta permanência no governo, elegeu-se deputado federal pelo RJ.
    Creio que Moro reconhece seu equivoco recente de buscar notoriedade política, e parte para uma consultoria que entendo adequada, na orientação a empresas que penalizadas patrimonialmente por crimes cometidos por seus ex dirigentes, produzem, empregam e podem ajudar a recuperar o crescimento necessário para o pais, se recuperadas para tanto.
    Afinal Guzzo, nossa imprensa tem histórico de quem nasceu primeiro?. O agente público corrupto (pediu propina) ou o empresário corruptor(ofereceu propina).

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