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Política

O silêncio inoportuno

Governo Lula se abstém de condenar ataques terroristas contra Israel

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, Janja e seu assessor de política externa Celso Amorim, durante a 79ª Assembleia Geral das Nações Unidas na sede da ONU em Nova York, em 24 de setembro de 2024 | Foto: Reuters/Brendan McDermid
O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, Janja e seu assessor de política externa Celso Amorim, durante a 79ª Assembleia Geral das Nações Unidas na sede da ONU em Nova York, em 24 de setembro de 2024 | Foto: Reuters/Brendan McDermid

Em meio à instabilidade no Oriente Médio, onde nações como Israel exercem seu direito legítimo de defesa contra ameaças existenciais, a comunidade internacional espera clareza de seus membros. Países democráticos agem em coordenação para conter a proliferação do terrorismo e garantir a segurança regional — objetivos que refletem valores de sociedades livres no espectro da ordem internacional. Neste cenário, o silêncio estratégico do Brasil não se mostra como neutralidade, mas omissão perigosa que mina sua credibilidade como parceiro global. 

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O governo brasileiro, ao abster-se de condenar não apenas ações terroristas, mas também o acelerado avanço do programa nuclear iraniano — que viola múltiplas resoluções do Conselho de Segurança da ONU —, compromete sua retórica de defesa da paz. A comunidade internacional reconhece que a desnuclearização do Irã não é uma questão política, mas imperativo de segurança coletiva. Ignorar este risco sistêmico, enquanto Israel e aliados lutam para conter ameaças imediatas, é falhar na compreensão das verdadeiras fontes de instabilidade regional e global. 

O ataque a Israel

A insistência do Itamaraty em posicionar-se como “equidistante” entre aliados estratégicos do Ocidente e regimes que desafiam a ordem nuclear internacional revela um grave erro de cálculo ou uma forma de tomar posição de forma silenciosa. Enquanto potências como os EUA e Israel defendem valores compartilhados com o Brasil — como liberdade, segurança coletiva e respeito às instituições —, a reticência brasileira isola o país de parceiros naturais. Essa falsa neutralidade, além de fragilizar nossa inserção internacional, ignora que, em conflitos desta magnitude, não tomar partido pela ordem democrática é, implicitamente, enfraquecê-la. 

Ademais, as declarações do assessor internacional Celso Amorim sugerindo risco de uma “Terceira Guerra Mundial” são não apenas desproporcionais, mas geopolítica e historicamente imprecisas. O verdadeiro perigo sistêmico reside na proliferação nuclear por atores não responsáveis, não em conflitos convencionais. Enquanto o Irã avança em seu programa balístico e enriquece urânio em níveis incompatíveis com usos civis, especulações sobre guerras mundiais desviam a atenção da ameaça tangível: um arsenal nuclear nas mãos de um regime que financia grupos terroristas armados e nega o direito à existência de Estados vizinhos. 

A indecência do Itamaraty

O Brasil possui tradição diplomática demasiado valiosa para desperdiçá-la em silêncios cúmplices ou alarmismos vazios. Este é o momento de reafirmar nosso alinhamento com parceiros que defendem a ordem democrática internacional, apoiando explicitamente a desnuclearização verificável e a necessidade de ações militares contra o Irã como condição para a segurança global. A credibilidade exige condenar tanto o terrorismo quanto os programas que ameaçam a não-proliferação, principal pilar da paz desde 1945. Neutralidade diante deste duplo desafio não é opção — é abdicação moral. 

O caminho para a relevância global não passa pela neutralidade cúmplice ou ilusória, mas pela coragem de nomear ameaças e estar ao lado daqueles que garantem a estabilidade do sistema internacional. A credibilidade do Brasil exige este reposicionamento urgente.

Leia também: “O pacifista do terror”, reportagem de Eugenio Goussinsky publicada na Edição 276 da Revista Oeste


Márcio Coimbra é CEO da Casa Política e presidente-executivo do Instituto Monitor da Democracia. Conselheiro da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig). Cientista político, mestre em ação política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal

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