Na mais recente manifestação de servilismo da velha imprensa à teocracia judiciária — eventualmente disfarçado por críticas aos efeitos dessa causa primordial —, a Folha de S. Paulo publicou uma reportagem em que acusa Jair Bolsonaro de articular um “poder paralelo” dentro do Congresso Nacional. Sim, segundo a reportagem da jornalista Marianna Holanda, um Parlamento eleito pelo voto direto e universal, instância máxima da soberania popular, passou a ser retratado como ameaça à ordem institucional, por ousar exercer suas prerrogativas constitucionais. É, ipsis litteris, a tese dos nossos aiatolás de toga.
Eis aí o mundo às avessas em que se transformou o Brasil: um Congresso que legisla e fiscaliza torna-se, aos olhos dos sacerdotes da hermenêutica constitucional e dos escribas do consórcio jornalístico, uma força “paralela”, quase subversiva. A palavra “paralelo”, neste contexto, não é neutra: carrega a insinuação de ilegitimidade, como se apenas um dos Poderes — precisamente o menos representativo, o menos fiscalizável e o único composto inteiramente de burocratas não-eleitos — tivesse o direito de decidir o destino da nação.
Receba nossas atualizações
+ Leia notícias de Política em Oeste
Eis o retrato perfeito da juristocracia brasileira: um Supremo Tribunal Federal que não se limita a interpretar a Constituição, pretendendo, em vez disso, reescrevê-la ao sabor de seus esquemas de poder. Uma corte que legisla por meio de canetadas monocráticas. Um partido não-declarado que subverte o Direito, criminalizando adversários, censurando vozes dissidentes e se apresentando, com o beneplácito de Folhas e que tais, como o verdadeiro regente da vida nacional.
O poder paralelo da toga
Enquanto isso, um ex-presidente que articula maioria no Senado, com o objetivo de nomear ministros e — pasmem! — submeter o Judiciário a alguma forma de controle constitucional, é tratado como golpista. Porque, claro, querer limitar o poder ilimitado do STF é uma ameaça à democracia. E, como se sabe, no jargão revolucionário do neo-constitucionalismo (ou seria pós-constitucionalismo?), democracia é definida como um sistema em que 11 iluminados não-eleitos submetem “213 milhões de tiranos soberanos” — nas palavras de Carmen Lúcia.
Com sua habitual falta de clareza moral, o jornal paulista contribui decisivamente para a normalização desse estado de exceção. Não se espanta com ministros que prendem sem processo, instauram inquéritos secretos, acusam, julgam e sentenciam — acumulando em si todas as funções de um Estado absolutista. Ao contrário: reserva seu repúdio àqueles que ainda acreditam na divisão dos Poderes, na autoridade do Parlamento e na necessidade de freios e contrapesos.
Quando o jornalismo abandona a vigilância do poder (ademais, de um poder ilegítimo) para se tornar seu assessor de imprensa, a democracia já não corre perigo… porque já morreu faz tempo.




































Essa imprensa tradicional virou um antro de energúmenos sem noção que se preocupam mais em ganhar mimos do governo do que defender a verdadeira democracia.
Flávio Gordon é realmente excelente! Parabéns.
Entre a Folha e a latrina existe muita coisa. A Folha é um instrumento que a maioria do STF se utiliza para produzir suas jurisprudências.
Essa tal de marina holanda é uma sem moral faz parte de um pequeno grupo que precisa demais do emprego por isso se submetem ….
O judiciário é uma praga que engole e destrói toda a riqueza do país, mancomunados com os políticos e outros