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Política

Tagliaferro diz que Moraes 'pode tirar sua vida' se voltar ao Brasil

Ex-assessor do ministro no TSE comenta reportagem especial de Oeste

Tagliaferro atuou diretamente em processos sensíveis relacionados às eleições de 2022 e às investigações que se seguiram aos atos de 8 de janeiro de 2023 | Foto: Divulgação/Oeste
Tagliaferro atuou diretamente em processos sensíveis relacionados às eleições de 2022 e às investigações que se seguiram aos atos de 8 de janeiro de 2023 | Foto: Divulgação/Oeste

O perito Eduardo Tagliaferro, ex-assessor do ministro Alexandre de Moraes no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), afirmou, em entrevista ao Faroeste à Brasileira desta sexta-feira, 29, que não pretende retornar ao Brasil por temer represálias. Segundo ele, sua volta poderia resultar em consequências graves.

“Óbvio que eu não gostaria, porque sei quem é Moraes”, declarou Tagliaferro. “E sei que eu estando aí é para calar, inclusive pode até fazer um simulado e tirar a minha vida, porque ele não quer que eu fale.”

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Atualmente vivendo na Itália, Tagliaferro teve sua extradição solicitada por Moraes ao Ministério da Justiça. Ele é denunciado pela Procuradoria-Geral da República pelo vazamento de conversas internas de servidores do Supremo Tribunal Federal (STF) e do TSE. O ex-assessor deve ser ouvido na próxima terça-feira, 2, pela Comissão de Segurança Pública do Senado, em audiência presidida pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A oitiva ocorrerá no mesmo dia em que começa o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Tagliaferro afirmou que responderá a todas as perguntas dos parlamentares. “Tudo que a mim for perguntado será respondido prontamente, da melhor forma possível, esclarecendo tudo o que aconteceu”, disse. Ele pretende detalhar procedimentos adotados pelo TSE e pelo STF durante o período em que trabalhou na assessoria, além de expor situações que envolvem a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal.

“Era uma perseguição, e não um monitoramento”, diz Tagliaferro

Durante a entrevista, Tagliaferro explicou que não havia um sistema estruturado de vigilância, mas, sim, a compilação de informações repassadas ao gabinete do ministro. “Não existia um monitoramento, ninguém era monitorado, principalmente o povo”, disse. “O que existia de fato eram… investigações, análises direcionadas.” Segundo ele, tratava-se de uma prática de receber denúncias e links de conteúdo na internet enviados por servidores, que eram repassados a juízes auxiliares. “Era uma perseguição, e não um monitoramento.”

Interpelado sobre por que decidiu tornar públicas suas informações, Tagliaferro declarou que tomou a decisão ao perceber que havia um direcionamento nas medidas adotadas. “Só vinham denúncias quando o pessoal olhava e era tudo direcionado da direita e nada da esquerda”, revelou. Ele disse ainda que começou a guardar provas com a intenção de divulgá-las quando se sentisse seguro. Segundo o perito, a aplicação da Lei Magnitsky, que prevê sanções contra autoridades estrangeiras acusadas de violações de direitos humanos e corrupção, foi um ponto de virada em sua decisão de se manifestar publicamente.

O ex-assessor também comentou episódios que envolvem parlamentares. Sobre a deputada federal Carla Zambelli (PL-SP), disse que ela foi alvo de perseguição semelhante à sofrida por outros nomes, como o jornalista Allan dos Santos e o ex-deputado Daniel Silveira. “O julgamento dela, de fato, foi, aos meus olhos, ilegal”, afirmou. Tagliaferro indagou o fato de Moraes ter conduzido processos em que era parte diretamente interessada.

A respeito das eleições de 2022, o ex-assessor do TSE afirmou que não teve contato com as urnas eletrônicas, mas sustentou que houve manipulação indireta. “A fraude foi feita de uma forma diferente”, declarou. “Ela foi feita denegrindo a imagem da direita, atacando constantemente a direita, impedindo de que ela falasse, impedindo de que ela fizesse campanha.” Para ele, medidas como bloqueio de perfis em redes sociais influenciaram a decisão de eleitores indecisos.

Tagliaferro relatou ainda que coordenava grupos de assessores que recebiam informações de diferentes fontes, inclusive agências de checagem. Segundo ele, havia diversas frentes de coleta de material, mas sua atuação concentrava-se nos contatos com juízes auxiliares do TSE e do STF. Ele afirmou possuir registros das conversas mantidas em grupos virtuais e disse que parte desse material já foi repassada a Oeste.

Indagado se aceitaria proteção do Estado brasileiro para revelar informações adicionais, respondeu que não. “Não preciso de proteção do Estado, porque vou fazer isso [divulgar as informações] no Senado Federal e na Câmara Federal”, afirmou. “Não confio mais no Estado brasileiro.”

A entrevista também trouxe referência a trocas de mensagens divulgadas pela reportagem de Oeste. Em um dos casos, o advogado Renato Ribeiro de Almeida teria informado a Tagliaferro que participaria de um programa de televisão e que faria defesa do ministro Moraes, pedindo acompanhamento da equipe do TSE. O perito confirmou que tais informações eram repassadas a juízes auxiliares e que esse procedimento era frequente.

Ao final, o ex-assessor reiterou que continuará a prestar esclarecimentos em instâncias parlamentares e em veículos de comunicação. Ele reafirmou não acreditar que poderia retornar ao Brasil em segurança. “O simples fato de Moraes sair [do STF], para mim, é pouco”, afirmou. “Ele tem que sair e ficar preso. Independente disso, eu sempre vou, em qualquer lugar do mundo, correr esse perigo.”

Leia também: “A fraude exposta”, reportagem de Edilson Salgueiro, Rachel Díaz e Carlo Cauti, que expõe novos documentos da Vaza Toga

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