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Política

Um Brasil de ex-covardes

A tirania não se impõe apenas pela força do poder, mas sobretudo pela covardia cotidiana, difusa e moralmente anestesiada dos indivíduos comuns

Bandeira gigante do Brasil instalada na fachada do Palácio do Planalto | Foto: José Cruz/Agência Brasil; brasileiros
Bandeira gigante do Brasil instalada na fachada do Palácio do Planalto | Foto: José Cruz/Agência Brasil

Era uma manhã de domingo de 2008, estava indo para a missa das 6h com o intuito de “adiantar meu dia”, pois, às 16h, haveria um jogo entre São Paulo e Corinthians e, às 12h, um jogaço imperdível na La Liga. Eu e meus amigos já havíamos combinado, para o almoço e o resto da tarde, um churrasco de adolescente: pouca carne, cerveja da mais barata e bons papos entre amigos. Ao passar em frente a um bar, na avenida que levava à paróquia, enquanto muitos ainda dormiam em São José dos Campos, um casal brigava a plenos pulmões; o homem estava visivelmente alterado e a mulher, visivelmente assustada — ainda que mantivesse certa postura afrontosa ante o seu algoz. Ao lado da contenda, um homem de 1,90m, bem-apessoado e de ombros largos, postava-se a meio caminho do homem bravo e da moça acuada. Ele estava tanto a observar a discussão acalorada, quanto a tentar acalmar o homem exaltado. O indivíduo hostil, com um litrão da Brahma na mão direita, usava a esquerda para apontar o dedo na face da mulher e estava a um passo de agredi-la fisicamente — pois, verbalmente, ela já havia sido brutalmente atacada. Notando isso, a mulher se afastou para trás do conciliador. O que a moça não sabia é que estava tentando proteger-se atrás de um covarde de quase 2 metros de altura.

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O covarde, prevendo a garrafada que iria levar pela moça, em vez de evitá-la com uma das mãos, revidar a agressão, ou simples e honradamente ser escudo para a vítima, escolheu a via que os fracos sempre escolhem: se esquivou e correu enquanto se justificava aos que assistiam ao teatro de sua moleza de masculinidade. O resultado foi que a garrafada acertou o ombro da mulher, e os estilhaços cortaram parte de sua orelha esquerda. Rapidamente outros homens, esses com mais testosterona e certos valores de dignidade, tomaram o que restou da garrafa da Ambev da mão do agressor e, entre mata-leões e chutes de field goal na boca do estômago do desgraçado, ensinavam na prática ao bundão cheio de retórica o que ele deveria ter feito quando teve a oportunidade.

Eu corri para o local, mas os justiceiros chegaram antes, e quando tentei descontar minha raiva no agressor, percebi que era melhor fazer o que ninguém tinha feito ainda, sustentar a moça agredida que parecia querer desmaiar. Peguei uma garrafa de água e uns pacotes de gaze na farmácia 24 horas ao lado, sentei-me junto dela no meio-fio enquanto escutava seu choro. Cinco ou 10 minutos depois uma viatura da polícia encostou, puxou pranchetas e algemas, prendeu o ex-valente e encaminhou a moça ao hospital. Dei meu breve relato aos policiais, os outros também, inclusive o bundão, depois fui à missa das 7h30, pois a anterior já estava no fim àquela altura.

Lembrei-me desse caso esta semana, depois de ser questionado por um daqueles colegas que foram ao churrasco e tiveram de escutar meu relato heroico daquela manhã; depois de falarmos brevemente sobre a política atual, ele disse: “Será que estaríamos realmente dispostos a lutar pela liberdade do Brasil? É isso que me questiono com sinceridade”. Ao que respondi: “Acho que isso depende do quórum de covardes e honrados que estiverem disponíveis nos dias de combate”.

+ A coragem em tempos de medo

Como disse Jordan Peterson: “Se você tem medo dos poderosos, espere até ver do que os fracos são capazes”. Não sou daqueles que fingem que não há uma relação direta entre covardia moral difusa e degradação política estrutural; não consigo ser cínico a esse ponto. O covarde é comum em todo canto. Tal como na anedota que contei acima, ele se faz de conciliador, se interpõe entre o bem e o mal, mas quando precisa agir, de fato, se mostra como alguém irremediavelmente impotente e moralmente fraco. Para deixar claro desde já, o que sustento aqui é que a tirania não se impõe apenas pela força do poder, mas sobretudo pela covardia cotidiana, difusa e moralmente anestesiada dos indivíduos comuns.

Quantos covardes são necessários para aceitar mansamente uma carga tributária de cerca de 40% ao ano? Quantos homens e mulheres subnutridos de honra são precisos para aceitar uma corrupção política tão afrontosa como a nossa? Quanta pavonice marica é necessária para ignorar a amizade e cumplicidade estranha de Vorcaro com membros do Supremo? Quanta desfaçatez deve ser acumulada para ignorar a simpatia de nosso governo federal por ditaduras sanguinárias? Certamente muita, e de muitas pessoas ao mesmo tempo, mas com certeza não é possível somar cada covarde e medir suas fraquezas de valores, só sabemos que tais covardes formam uma massa reconhecível, um conglomerado que se retroalimenta na fraqueza coletiva e nas desculpas apaziguadoras de suas vergonhas. São várias as formas de ser covarde, alguns justificam e moldam suas covardias com “pontos de vista” que aplainam e acalmam os denunciadores; outros ignoram sob a desculpa de que “sempre foi e sempre será assim”; e outros ainda simplesmente ignoram, não se importam, fingem que a corrupção só fica em Brasília, que sua cada vez mais difícil subsistência, a incapacidade de melhorar financeiramente, e a dureza existencial de seus filhos e netos, não passam por um Estado tão necrosado e tão ladrão.

+ Mais gente precisa ter coragem, artigo de Adalberto Piotto publicado na Edição 279 da Revista Oeste

Disse certa vez que o preço da liberdade era o de enfrentar os tiranos que tentam cerceá-la, todavia ignorei o cálculo dos que estão confortavelmente em suas poltronas de tibieza e medo. Como enfrentar os tiranos se entre a vítima e o algoz se encontra um povo bundão, indiferente, quieto, incapaz de sobrepujar sua languidez de caráter, de se indignar com o principal crime de Estado que é justamente ter um Estado criminoso?

Não espero revoluções, até porque sou contra elas; revoluções só trazem o desprezível e o imoral para a superfície, em vez de limpar os dejetos que estão no fundo. O que se espera é muito mais simples, ainda que muito mais difícil: espera-se que os homens e mulheres, em suas intimidades e privacidades, alimentem uma antipatia clara contra os tiranos, que o medo não os domine, que na primeira oportunidade deem vazão às suas razões e, não raro, consigam novos adeptos da honradez corajosa; forjando assim, conversa a conversa, consciência a consciência, ex-covardes que, quando o Estado os afrontar, não fujam nem precisem se justificar em suas covardias.

Como mostra a lenda do Flautista de Hamelin, é muito fácil encantar as massas e controlar mentes infantilizadas, medrosas; mas não há flautas suficientes para convencer cada ouvido quando os indivíduos estão espalhados, quando a indignação se encontra pulverizada e tão extensa em seu teor e certeza que se torna uníssona. Gosto de chamar isso de Rebelião das Consciências: o ato consciente, decisivo e individual de repugnância moral que nos faz levantar a cabeça mesmo em meio à encantadora melodia dos flautistas, que ousadamente nos impulsiona a sair da fila dos covardes e opor-nos à obediência dos silenciosos e dos fingidores.

Leia também: O ex-covarde e os napoleões de toga, artigo de Augusto Nunes publicado na Edição 286 da Revista Oeste

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3 comentários
  1. João Baptista
    João Baptista

    Excelente artigo. Coragem é coisa rara. Mas o senso do comum, do correto, do que é justo é inerente ao ser humano. Exceto, é claro, entre políticos e juízes do tão sofrido Brasil.

  2. Luiz fernando Chalet ferreira
    Luiz fernando Chalet ferreira

    Pois é, onde estão os corajosos que irao nos ouvir? Os que estão hoje nos governando, lutaram décadas para chegar onde estão, empunhando a bandeira do socialismo . E hoje , com 40% do PIB pra distribuir aos companheiros , nem se lembram dos carentes de alfabetismo e dignidade.

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