Era uma manhã de domingo de 2008, estava indo para a missa das 6h com o intuito de “adiantar meu dia”, pois, às 16h, haveria um jogo entre São Paulo e Corinthians e, às 12h, um jogaço imperdível na La Liga. Eu e meus amigos já havíamos combinado, para o almoço e o resto da tarde, um churrasco de adolescente: pouca carne, cerveja da mais barata e bons papos entre amigos. Ao passar em frente a um bar, na avenida que levava à paróquia, enquanto muitos ainda dormiam em São José dos Campos, um casal brigava a plenos pulmões; o homem estava visivelmente alterado e a mulher, visivelmente assustada — ainda que mantivesse certa postura afrontosa ante o seu algoz. Ao lado da contenda, um homem de 1,90m, bem-apessoado e de ombros largos, postava-se a meio caminho do homem bravo e da moça acuada. Ele estava tanto a observar a discussão acalorada, quanto a tentar acalmar o homem exaltado. O indivíduo hostil, com um litrão da Brahma na mão direita, usava a esquerda para apontar o dedo na face da mulher e estava a um passo de agredi-la fisicamente — pois, verbalmente, ela já havia sido brutalmente atacada. Notando isso, a mulher se afastou para trás do conciliador. O que a moça não sabia é que estava tentando proteger-se atrás de um covarde de quase 2 metros de altura.
+ Leia mais notícias de Política em Oeste
Receba nossas atualizações
O covarde, prevendo a garrafada que iria levar pela moça, em vez de evitá-la com uma das mãos, revidar a agressão, ou simples e honradamente ser escudo para a vítima, escolheu a via que os fracos sempre escolhem: se esquivou e correu enquanto se justificava aos que assistiam ao teatro de sua moleza de masculinidade. O resultado foi que a garrafada acertou o ombro da mulher, e os estilhaços cortaram parte de sua orelha esquerda. Rapidamente outros homens, esses com mais testosterona e certos valores de dignidade, tomaram o que restou da garrafa da Ambev da mão do agressor e, entre mata-leões e chutes de field goal na boca do estômago do desgraçado, ensinavam na prática ao bundão cheio de retórica o que ele deveria ter feito quando teve a oportunidade.
Eu corri para o local, mas os justiceiros chegaram antes, e quando tentei descontar minha raiva no agressor, percebi que era melhor fazer o que ninguém tinha feito ainda, sustentar a moça agredida que parecia querer desmaiar. Peguei uma garrafa de água e uns pacotes de gaze na farmácia 24 horas ao lado, sentei-me junto dela no meio-fio enquanto escutava seu choro. Cinco ou 10 minutos depois uma viatura da polícia encostou, puxou pranchetas e algemas, prendeu o ex-valente e encaminhou a moça ao hospital. Dei meu breve relato aos policiais, os outros também, inclusive o bundão, depois fui à missa das 7h30, pois a anterior já estava no fim àquela altura.
Lembrei-me desse caso esta semana, depois de ser questionado por um daqueles colegas que foram ao churrasco e tiveram de escutar meu relato heroico daquela manhã; depois de falarmos brevemente sobre a política atual, ele disse: “Será que estaríamos realmente dispostos a lutar pela liberdade do Brasil? É isso que me questiono com sinceridade”. Ao que respondi: “Acho que isso depende do quórum de covardes e honrados que estiverem disponíveis nos dias de combate”.
Como disse Jordan Peterson: “Se você tem medo dos poderosos, espere até ver do que os fracos são capazes”. Não sou daqueles que fingem que não há uma relação direta entre covardia moral difusa e degradação política estrutural; não consigo ser cínico a esse ponto. O covarde é comum em todo canto. Tal como na anedota que contei acima, ele se faz de conciliador, se interpõe entre o bem e o mal, mas quando precisa agir, de fato, se mostra como alguém irremediavelmente impotente e moralmente fraco. Para deixar claro desde já, o que sustento aqui é que a tirania não se impõe apenas pela força do poder, mas sobretudo pela covardia cotidiana, difusa e moralmente anestesiada dos indivíduos comuns.
Quantos covardes são necessários para aceitar mansamente uma carga tributária de cerca de 40% ao ano? Quantos homens e mulheres subnutridos de honra são precisos para aceitar uma corrupção política tão afrontosa como a nossa? Quanta pavonice marica é necessária para ignorar a amizade e cumplicidade estranha de Vorcaro com membros do Supremo? Quanta desfaçatez deve ser acumulada para ignorar a simpatia de nosso governo federal por ditaduras sanguinárias? Certamente muita, e de muitas pessoas ao mesmo tempo, mas com certeza não é possível somar cada covarde e medir suas fraquezas de valores, só sabemos que tais covardes formam uma massa reconhecível, um conglomerado que se retroalimenta na fraqueza coletiva e nas desculpas apaziguadoras de suas vergonhas. São várias as formas de ser covarde, alguns justificam e moldam suas covardias com “pontos de vista” que aplainam e acalmam os denunciadores; outros ignoram sob a desculpa de que “sempre foi e sempre será assim”; e outros ainda simplesmente ignoram, não se importam, fingem que a corrupção só fica em Brasília, que sua cada vez mais difícil subsistência, a incapacidade de melhorar financeiramente, e a dureza existencial de seus filhos e netos, não passam por um Estado tão necrosado e tão ladrão.
+ Mais gente precisa ter coragem, artigo de Adalberto Piotto publicado na Edição 279 da Revista Oeste
Disse certa vez que o preço da liberdade era o de enfrentar os tiranos que tentam cerceá-la, todavia ignorei o cálculo dos que estão confortavelmente em suas poltronas de tibieza e medo. Como enfrentar os tiranos se entre a vítima e o algoz se encontra um povo bundão, indiferente, quieto, incapaz de sobrepujar sua languidez de caráter, de se indignar com o principal crime de Estado que é justamente ter um Estado criminoso?
Não espero revoluções, até porque sou contra elas; revoluções só trazem o desprezível e o imoral para a superfície, em vez de limpar os dejetos que estão no fundo. O que se espera é muito mais simples, ainda que muito mais difícil: espera-se que os homens e mulheres, em suas intimidades e privacidades, alimentem uma antipatia clara contra os tiranos, que o medo não os domine, que na primeira oportunidade deem vazão às suas razões e, não raro, consigam novos adeptos da honradez corajosa; forjando assim, conversa a conversa, consciência a consciência, ex-covardes que, quando o Estado os afrontar, não fujam nem precisem se justificar em suas covardias.
Como mostra a lenda do Flautista de Hamelin, é muito fácil encantar as massas e controlar mentes infantilizadas, medrosas; mas não há flautas suficientes para convencer cada ouvido quando os indivíduos estão espalhados, quando a indignação se encontra pulverizada e tão extensa em seu teor e certeza que se torna uníssona. Gosto de chamar isso de Rebelião das Consciências: o ato consciente, decisivo e individual de repugnância moral que nos faz levantar a cabeça mesmo em meio à encantadora melodia dos flautistas, que ousadamente nos impulsiona a sair da fila dos covardes e opor-nos à obediência dos silenciosos e dos fingidores.
Leia também: O ex-covarde e os napoleões de toga, artigo de Augusto Nunes publicado na Edição 286 da Revista Oeste





































Excelente artigo. Coragem é coisa rara. Mas o senso do comum, do correto, do que é justo é inerente ao ser humano. Exceto, é claro, entre políticos e juízes do tão sofrido Brasil.
Ótimo artigo. É isso mesmo.
Pois é, onde estão os corajosos que irao nos ouvir? Os que estão hoje nos governando, lutaram décadas para chegar onde estão, empunhando a bandeira do socialismo . E hoje , com 40% do PIB pra distribuir aos companheiros , nem se lembram dos carentes de alfabetismo e dignidade.