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A epidemia global da confusão sobre gênero

Inicia-se uma guerra cultural assim que uma criança chega ao berçário

Em janeiro de 2019, quando foi apontada ministra das Mulheres, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves declarou que esta seria uma “nova era no Brasil: meninos vestem azul, meninas vestem rosa”. Em seu discurso de posse como ministra, ela afirmou que “ninguém vai nos impedir de chamar as meninas de princesa e os meninos de príncipe. Vamos acabar com o abuso da doutrinação ideológica”.

Particularmente, não me importo com a cor da roupa das crianças, mas, em um ponto fundamental, Damares Alvares está absolutamente certa. A guerra da cultura global – especialmente no Ocidente – começa nos berçários. Já faz algum tempo que as famílias são sujeitadas a um fluxo constante de propaganda política que dita que não devem mais criar as crianças como os pais faziam no passado. Também são instruídas a abandonar a maneira como as comunidades tradicionalmente viam as distinções entre meninos e meninas, e homens e mulheres.

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Em todo o Ocidente – mas em especial na esfera anglo-americana e no norte da Europa – uma parte significativa das elites abraçaram a ideia de que criar os filhos com neutralidade de gênero é o caminho certo a seguir.

Na mídia ocidental a criação de gênero neutro é encorajada como muito moderna, e os pais que adotam essa prática são vistos como modelos para outros pais e mães. Um grupo pequeno, mas considerável, de pais “inovadores” adotaram a ideologia de neutralidade de gênero e abraçaram um estilo de criação que evita designar um gênero biológico às crianças.

Esses pais se vangloriam de oferecer às suas crias a liberdade de decidir por conta própria o que querem ser.

Na verdade, a legitimação da criação com neutralidade de gênero constitui um ato de irresponsabilidade dos adultos. Em vez de guiar a criança para ajudá-la a entender seus atributos biológicos e assumir a responsabilidade pelo desenvolvimento da identidade das crianças, eles colocam o fardo da formação do caráter na criança.

A guerra pelas palavras

O primeiro passo da campanha para eliminar distinções entre meninos e meninas foi declarar uma guerra contra o uso de linguagem relacionada a gênero. O alvo principal foram palavras que destacavam a distinção entre meninos e meninas ou chamavam atenção para as diferentes formas de comportamento entre os sexos. Defensores da neutralidade de gênero estão convictos de impedir que as crianças nos berçários e no ensino fundamental adotem a linguagem e os valores da geração que as precedeu.

A primeira vez que me deparei com a guerra pelas palavras no ensino infantil foi na Austrália. Em 1995, a creche na Universidade La Trobe, em Melbourne, baniu o uso de cerca de vinte palavras, incluindo os termos relacionados a gênero “menina” e “menino”, para promover sua missão de alterar os papéis tradicionais dos sexos. Aqueles que violassem esse código eram forçados a pagar uma multa e eram tratados como se tivesse usado um termo chulo.

Na virada do século XXI, a cruzada contra a linguagem específica de gênero ganhou um forte impulso.

Uma nova pedagogia emergiu encorajando funcionários de berçários e professores dos primeiros anos a promover ideais de neutralidade de gênero para as crianças sob seus cuidados.

Em muitas partes do mundo o ensino infantil e o fundamental se tornaram o espaço principal para mudar o comportamento e os valores das crianças para os valores mais atualizados da engenharia social. Como é típico, a Suécia, que atua como pioneira e paradigma de ambições de engenharia social, assumiu a liderança da defesa da neutralidade de gênero. Professores do ensino infantil sueco são encorajados a evitar se referir ao gênero da criança.

Então, em vez de se referir a elas como meninos ou meninas, os educadores os chamam de “colega” ou usam o primeiro nome. Pré-escolas são organizadas de forma a desencorajar as crianças a desenvolver uma sensação de pertencimento a um gênero específico. A neutralidade de gênero é encorajada como um antídoto iluminado para o que é caricaturado como atitudes masculinas e femininas antiquadas.

Em 2012, a guerra de propaganda política voltada para o enfraquecimento da noção de identidade de gênero nas crianças foi reforçada com a introdução de um novo pronome neutro, “hen”. Em anos recentes, essa nova palavra foi amplamente adotada por toda a sociedade sueca. As crianças são consciente e explicitamente doutrinadas a uma visão de mundo em que meninos e meninos, e homens e mulheres, têm uma existência frágil e fugaz. O objetivo dessa pedagogia de neutralidade de gênero é desafiar o que seus defensores chamam de “papéis tradicionais e padrões de gênero”. Em seu lugar, querem introduzir um novo padrão não tradicional – em que meninos e meninas, e homens e mulheres, pensem em si mesmos como “hen”.

A promoção da neutralidade de gênero não tem como desígnio apenas eliminar as diferentes formas de comportamento de meninos e meninas, mas também prejudicar a capacidade de crianças de identificar e agir de acordo com seu sexo biológico. Defensores do dogma da neutralidade de gênero afirmam que o sexo que é atribuído às crianças no nascimento não deveria ser levado tão a sério. Desta forma, o sexo biológico, que na realidade é determinado no momento da concepção, é considerado invisível e insignificante por meio da sanção administrativa de ser considerado transitório. A transformação de uma certidão de nascimento em uma declaração de preferência identidade implica que a descrição de um bebê é temporária e tem chance de mudar. De acordo com essa sabedoria, as crianças devem decidir depois como querem ser identificadas.

A promoção e celebração da neutralidade de gênero ganhou uma poderosa influência na cultura ocidental. Infelizmente, um número excessivo de pessoas inteligentes imagina que esse dogma e as práticas associadas a ele afetam apenas uma pequena quantidade de gente, e que logo essa loucura vai passar como uma moda ultrapassada.

A realidade é bastante diferente, uma vez que hoje em dia a neutralidade de gênero está se tornando cada vez mais institucionalizada.

Não faz tanto tempo que a maioria das pessoas ficou genuinamente chocada e surpresa quando o Facebook anunciou que agora tinha 71 identidades para o usuário escolher. Outros acharam graça do surgimento de um número interminável de pronomes trans inéditos, como zie, sie, ey, ve, tey ou e. Mas acharam menos divertido quando descobriram que a polícia podia acusá-los do crime recém-inventado de transfobia se não usassem o pronome correto.

George Orwell dizia que aqueles que decidem quais palavras temos autorização para usar também podem controlar nossos pensamentos e nosso comportamento. É por isso que tanta coisa está em jogo nessa guerra das palavras que acontece do lado de fora do berçário.

(Tradução de Alyne Azuma)

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