Brexit e covid-19: duas siglas, duas rupturas

O dilema do primeiro-ministro inglês Boris Johnson é uma escolha de Sofia que nenhum governante quer enfrentar em sua carreira

No intervalo de um mês, a maior preocupação do primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, e dos representantes da União Europeia deixou de ser o Brexit para ser a covid-19. Duas siglas, duas rupturas.

Na quarta-feira, dia 25 de março, uma montagem com duas fotos simbolizou o momento delicado na Inglaterra: numa delas, a Rainha Elizabeth II falava ao telefone, que, pelo modelo, parece ser o mesmo da época de sua coroação em 1953; do outro lado da linha, estava o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson.

Em tempos de coronavírus, a rotina dos encontros semanais entre os dois foi alterada e o encontro pessoal deu lugar a uma conversa por voz. Sem contato, portanto. A Rainha e o primeiro-ministro dando o exemplo é parte da estratégia para convencer as pessoas a permanecerem em casa e evitarem a infecção. Infelizmente, enquanto a Revista Oeste estava prestes a fechar este número, foi divulgado que o residente em Downing Street estava com a moléstia.

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Foi num curto espaço de tempo que Johnson foi brutalmente pressionado a mudar de uma posição baseada em convencer a sociedade a se isolar voluntariamente para medidas restritivas, que incluíam fechamento de grande parte das atividades econômicas não essenciais até multas pesadas para quem quebrasse a quarentena.

O drama de Johnson ao tomar a decisão pode ser resumido numa indagação feita por ele na reunião de emergência realizada no domingo passado, dia 22, que sacramentou a decisão de um lockdown sem precedentes na história do Reino Unido: “Como faremos? Usando a polícia”? No dia seguinte, ao se dirigir à nação para anunciar o que deveria ser feito, Johnson afirmou que “nenhum primeiro-ministro desejaria adotar medidas como essa”.

Johnson fez de tudo para não usar o governo e limitar a liberdade dos ingleses.

Mas, ao longo de uma semana, as advertências e pedidos não foram suficientes para reduzir a disseminação do vírus. Até o dia do discurso em que anunciou a gravidade da situação e as medidas restritivas, muita gente ainda vivia normalmente as suas vidas.

O resultado logo apareceu: a taxa de expansão do número de infectados e de mortos aumentou significativamente. Johnson evitou o quanto pôde usar o poder estatal, mas não havia mais como esperar. Era preferível mudar a estratégia e transmitir segurança à sociedade. Era preciso agir como líder num momento grave.

Pela demora, o primeiro-ministro foi duramente criticado. Um dos mais ferozes foi (e tem sido) o jornalista Piers Morgan, que defende mais restrições. Boa parte das críticas vieram daqueles que acreditam que o governo pode restringir liberdades num piscar de olhos, sem a devida reflexão a respeito dos reflexos de medidas radicais e das consequências negativas do aumento do poder policial do Estado, como vem alertando o jornalista conservador Peter Hitchens, irmão do finado Christopher.

É tradição de liberais e conservadores no Reino Unido não brincar com o Leviatã – e estão certos. Em momentos de pandemia, porém, a serenidade dá lugar ao pânico e às comichões intervencionistas.

O fato é que, em períodos assim, as pessoas se revelam – para o bem e para o mal. A ética é testada e orienta opiniões e decisões.

No âmbito da política, o homem público se revela um estadista ou uma fraude.

Porque estar no comando significa, às vezes, enfrentar a “escolha de Sofia”.

Se, no romance homônimo de William Styron, a personagem-título é forçada por um oficial nazista a tomar a decisão dramática de preferir qual dos dois filhos não será morto (e qual ficará vivo), políticos de várias partes do mundo estão reduzindo as opções entre as consequências econômicas do lockdown, assumindo o risco de serem responsáveis pelo aumento do número de infectados, pelo colapso do sistema de saúde e pelas mortes.

Nenhum governante quer pôr isso no currículo. O infortúnio desse dilema é que os resultados positivos de ambas as escolhas são incertos, mas a omissão pode piorar um quadro social e econômico que caminha para a UTI.

O grande drama do atual momento – não só no Reino Unido, mas na Europa e no Brasil – é que os políticos estão oferecendo (ou instados a oferecer) tão somente a “escolha de Sofia”. Não se vê uma solução que escape do lockdown, como se não pudesse haver propostas intermediárias que permitam conciliar o controle da infecção, o tratamento aos infectados e o gradual levantamento das restrições à circulação de pessoas e ao funcionamento da economia.

Parte do óbice está na visão de parcela da sociedade e dos políticos que se esgota (e se exaure) no racionalismo na política. Para esse tipo de racionalista, segundo o filósofo político Michael Oakeshott, não há espaço para uma proposta que seja melhor de acordo com as circunstâncias, só existe uma única  solução melhor. Isso porque “a solução racional é, por natureza, a solução perfeita”. Aqui está o seu calcanhar de Aquiles, pois a realidade não pode ser moldada pela ideologia. Todas as vezes em que se tentou fazê-lo, a utopia racionalista se converteu em distopia.

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11 comentários Ver comentários

  1. Ótimo texto, com uma frase maravilhosa: em tempos de ” guerra” o político se revela um estadista ou uma fraude. Certíssimo.
    Grata pela revista com gente tão qualificada junta.
    Parabéns.

  2. O lockdown acaba quando se ouve o ronco das barrigas. Quanto tempo aguentaria um país rico? E um país pobre? Nenhuma solução radical conseguirá ir adiante. As decisões terão que ser tomadas no dia a dia . Nos resta manter a calma e a racionalidade, senão o remédio pode matar.

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