Alessandro Santana, do <i>Canal do Negão</i> | Foto: Divulgação
Alessandro Santana, do Canal do Negão | Foto: Divulgação

‘Os verdadeiros empreendedores estão na periferia’

Para o influenciador digital e sucateiro Alessandro Santana, bandeiras da esquerda não têm apelo entre os mais pobres

Alessandro Santana, mais conhecido como Negão, foi criado entre os bairros de Vila Prudente e da Mooca, na zona leste de São Paulo. Mas há 20 anos decidiu se mudar para o maior complexo de conjuntos habitacionais da América Latina, a Cidade Tiradentes, no extremo leste da capital. Hoje, o sucateiro e youtuber de 42 anos coordena quatro canais na rede social. Os dois principais são: Canal do Negão, com 545 mil inscritos, e Eu Sou Seu Pai, com cerca de 55 mil. 

Com linguagem simples e bom humor, o Canal do Negão é usado para comentar notícias do dia, principalmente sobre política. Seu braço direito é Cleyde Laiana, sua mulher, que faz o “trabalho de jornalista” e seleciona os assuntos para o programa. “Faço o trabalho de tradução da notícia”, disse Negão, em entrevista à Revista Oeste. Já o canal Eu Sou Seu Pai, criado há dois anos, é inspirado na rotina dos três filhos e aborda temas que vão desde música e entretenimento até racismo. 

Nesta entrevista, Negão disse a Oeste o que pensa sobre cotas para negros em universidades, assistencialismo estatal e como os políticos fazem para conquistar votos nos bairros mais pobres. “Na periferia, o político de esquerda não fala em linguagem neutra”, afirma. “Esse discurso de racismo que a gente vê na internet, mas ali não rola. Na periferia, o cara fala de emprego, de família, de colocar comida no prato. O Guilherme Boulos, por exemplo, chegou de camisa social e sapatênis conversando sobre habitação. Não falou sobre invasão, falou sobre regularização de imóveis.” 

O influenciador digital também contou como foi viver o isolamento social imposto pelos governantes nos bairros mais pobres de São Paulo durante a pandemia. “Ninguém respeitou”, contou. “Rico não respeitou, imagina o pobre? O grande problema não foi ficar em casa, mas o ‘fecha tudo’.”

A seguir, os principais trechos da entrevista. 

Seu maior canal no YouTube hoje tem mais de 545 mil inscritos. Como tudo começou? 

Comecei no YouTube fazendo vídeos para mostrar meus rolês de skate. Não tinha aquela coisa de ganhar dinheiro. Já tinha um bom número de visualizações, mas não ganhava com isso. Ganhava dinheiro vendendo coisas. Por exemplo, mostrava um vídeo andando de skate e em outro testava um motor elétrico. Por que eu filmava aquilo? Percebi que conseguia vender mais produtos quando filmava. Então aproveitei minha audiência para vender. Quem acompanhava meu canal pedia para eu falar sobre tudo. Na época, ainda trabalhava com sucata. Aí pensei: meu dia a dia é o ferro-velho, minha rotina é comprar e vender, é guardar dinheiro, é segurar mercadoria para vender na alta. E comecei a falar sobre isso.

Empreender faz parte da vida de quem mora na periferia?

Quem mora na periferia não vai se identificar com essa palavra, muitos nem sabem o que significa, mas mesmo assim essas pessoas empreendem todos os dias. Lá estão verdadeiros empreendedores. Moro em Cidade Tiradentes. Se chegar às 6 da tarde na saída do terminal, vou encontrar empreendedorismo de todo jeito. É o cara que vende comida, vende acessórios para celular, vende ferramentas. O empreendedorismo deveria ser ensinado nas escolas. Não sei se com a criação de uma nova disciplina ou junto com a matemática, por exemplo, porque empreendedorismo é matemática pura. 

Você se considera um liberal?

Muita gente fala que eu sou um tremendo exemplo de liberal. Nunca estudei a fundo o tema, não sei se isso tem a ver com liberalismo, mas penso o seguinte: o Estado só tem que prover, entre aspas, educação, saúde, segurança e infraestrutura. Toda vez que o Estado mete a mão em mais do que isso, só sai coisa ruim. Não é à toa que hoje a gente não é capaz de listar uma única empresa estatal que realmente faz um bom trabalho. 

Além de empreendedorismo, você fala bastante sobre política em seu canal no YouTube. O que diferencia seu portal de outros tantos que falam do tema? 

Hoje fazemos um trabalho mais jornalístico, apesar de eu não ser jornalista. A Cleide faz o trabalho de jornalista e eu faço o trabalho de tradução da notícia. Escolho algum tema importante e difícil e traduzo de um jeito mais simples. A principal diferença do nosso canal é o bom humor. Alguns canais de esquerda e de direita mostram certa soberba do tipo ‘eu sei o que estou falando’. Eu não. Minha preocupação é que a pessoa entenda o que estou falando. Política é um assunto chato, então tento levar a coisa de um jeito mais leve, mais palatável.

O que você pensa sobre as cotas para negros em universidades?

A política de cotas foi criada com a péssima desculpa da reparação histórica. Mas, para mim, a dívida histórica funciona da seguinte forma: um político chega, promete um monte de coisas e quatro anos depois não entrega. Então ele passa a ter uma dívida histórica comigo. O objetivo da cota é ajudar certas pessoas a entrarem na faculdade, mas essa política acabou prejudicando a educação de base. Quando fiz 18 anos, o sonho da minha mãe era que eu fizesse faculdade. Minhas irmãs, cada uma fez duas. Eu nunca quis fazer faculdade. Mas estudei em escola pública e tive uma ótima educação. Só que o ensino hoje é péssimo. A cota virou uma muleta. Privam a pessoa de ter educação de base boa para depois dar uma vaga na faculdade. Alguns meninos chegam para mim falando que vão entrar na faculdade pela cota e percebo que eles sentem certa vergonha. Dou apoio, mas digo para eles: ‘Entenda o que é a cota, estude e depois volte para ajudar a comunidade.’ Eles têm de fazer algo para que a nova geração não precise de cota para ingressar na universidade. Porque é uma humilhação.

Ações de recrutamento exclusivas para negros, como o processo de trainee realizado pelo Magazine Luiza, ajudam a promover a inclusão no mercado de trabalho?

Sou contra o programa de trainee, porque quem faz faculdade passa na frente de outros que estão no chão de fábrica, que já trabalham há mais tempo na empresa, e que muitas vezes não tiveram a oportunidade de fazer um curso universitário. Há 25 anos, trabalhei no McDonald’s quando não tinha esse negócio de identitarismo. Lá vi gerente negro, mulheres poderosas, encontrei gordo, magro, gay. Meu primeiro gerente era negro. Vi muita gente que veio do chão e alcançou cargos muito altos. O trainee era o cara que pulava quatro ou cinco posições só porque tinha faculdade. Então já olho o trainee com olho torto. Se o Magazine Luiza quisesse mesmo ajudar, deveria fazer um programa só para seus funcionários, oferecer faculdade e especialização em vez de contratar de fora. Empresas que fazem programas como esse só querem aparecer para falar que fizeram algo bom.

Se o rico não respeitou o “fique em casa”, imagina o pobre?

Bandeiras encampadas pela esquerda, como o combate ao racismo, o feminismo e a linguagem neutra, têm vez na periferia?

Na periferia, o político de esquerda não fala em linguagem neutra. Esse discurso de racismo que a gente vê na internet não rola. Porque eles sabem que se vierem com esse papo não vai render. Na periferia, o cara da esquerda age como um conservador. Não tem feminismo na periferia. O político de esquerda fala de emprego, de família, de colocar comida no prato, fala de respeito. É desse jeito que eles conquistam as pessoas. É por isso que político de direita não consegue chegar à periferia. Porque na cabeça dele, a pessoa que mora na periferia pensa da mesma forma que quem não mora. Só que é um mundo totalmente diferente. O Guilherme Boulos (Psol), ex-candidato à prefeitura de São Paulo em 2018, na periferia não chegou de barba malfeita e camiseta vermelha. Muito pelo contrário. Chegou de camisa social e sapatênis conversando sobre habitação. Não falou sobre invasão, falou sobre regularização de imóveis. É muito louco um cara que é a favor de invasão de propriedades falar de regularização. 

Políticas públicas assistencialistas como o Bolsa Família e, agora, o Auxílio Brasil são boas para o país?

Os auxílios ajudam quando têm uma contrapartida. ‘Vou dar um auxílio, mas seu filho tem de estar na escola’, por exemplo. Mas são ruins quando são permanentes. Também precisa ter controle, porque muita gente recebe auxílio sem necessidade. Isso prejudica quem realmente precisa. Durante a pandemia, vi muita gente recebendo dois, três auxílios. Um do governo e outros de ONGs, nem sei de onde surgiram. Quem doa nem sempre é o governo, mas empresas, associações vinculadas a políticos. No final, eles vão cobrar o favor.

Durante a pandemia, foi muito comum a discussão sobre isolamento. Como foi para a periferia ouvir “fique em casa”?

Ninguém respeitou. Rico não respeitou, imagina o pobre? O grande problema não foi ficar em casa, mas o ‘fecha tudo’. Todo mundo na periferia continuou trabalhando, com a porta meio aberta e não houve quase fiscalização da prefeitura na comunidade. Sabe quem parou os bailes funk na comunidade? Foi o PCC, não foi o governo. Vi como foi a fiscalização no centro da cidade e foi bem mais dura do que na periferia, não sei se de propósito. Uma das cenas mais tristes para mim foi quando saí para comprar corda para minha guitarra, e vi várias lojas trabalhando com meia porta. Aquilo não fazia sentido. Não tinha uma multidão comprando corda, nunca teve, o dono da loja tem clientes esporádicos. 

Você tem filho que estuda em escola pública. Como foi o ensino durante a pandemia? 

Piorou o que já era ruim. O estudo era feito pelo celular. Quem consegue ficar mais de meia hora olhando para o celular? Meu filho, diferente dos outros colegas da sala dele, foi um dos únicos a ter aulas de verdade. Mas isso só aconteceu porque a minha esposa podia ficar em cima, vendo se ele realmente estava aprendendo. Mas muitas crianças não tiveram isso. Demorou muito para voltarem as aulas. O cinema foi aberto antes do que as escolas. 

Você pensa em entrar para a vida política?

Já fui filiado ao partido Novo, mas saí quando percebi que de novo ele não tinha nada, era só um PT de sapatênis. PT não, PT é exagero. Ele é um Psol de sapatênis. Hoje em dia não penso nem um pouco em me candidatar a nada. Tive a oportunidade de conhecer os corruptos e os honestos dentro da política. Aliás, o que me fez sair, o que me fez olhar e falar ‘eu não quero participar disso’ foram justamente os honestos. Porque não conseguiria engolir os sapos que eles engolem para tentar fazer qualquer coisa. Aí vi que isso não era para mim. Prefiro continuar no YouTube.

Leia também “Os políticos querem se apropriar da Petrobras”

-Publicidade-
Conteúdo exclusivo para assinantes.

Seja nosso assinante!
Tenha acesso ilimitado a todo conteúdo por apenas R$ 19,90 mensais.

Revista OESTE, a primeira plataforma de conteúdo cem por cento
comprometida com a defesa do capitalismo e do livre mercado.

Meios de pagamento
Site seguro
Seja nosso assinante!

Reportagens e artigos exclusivos produzidos pela melhor equipe de jornalistas do Brasil.