Calçada da Avenida Paulista, em São Paulo | Foto: Thiago Leite/Shutterstock
Calçada da Avenida Paulista, em São Paulo | Foto: Thiago Leite/Shutterstock

Um país chamado São Paulo

Com 45 milhões de habitantes e uma economia que supera países da Europa e vizinhos latinos, São Paulo é decisivo na disputa presidencial

A partir de abril, quando os prazos determinados pela Justiça Eleitoral começam a ser seguidos à risca, o Estado de São Paulo será palco mais uma vez de uma disputa crucial para os rumos políticos e econômicos do país. A novidade é que, depois de quase três décadas, a hegemonia do PSDB no Palácio dos Bandeirantes pode chegar ao fim.

A escolha de quem vai administrar o maior centro financeiro da América Latina e um Produto Interno Bruto (PIB) que figura entre os 20 maiores do mundo — superior ao de Argentina, Suécia, Bélgica ou Singapura — também tem sido cada vez mais vinculada à corrida presidencial. Isso porque um quarto do eleitorado brasileiro — 33 milhões de votos — está em solo paulista.

Os resultados das últimas eleições majoritárias confirmam esse “voto casado”. Em 2018, João Doria recorreu na última hora a uma camiseta amarela com os dizeres “BolsoDoria”, para pegar carona na onda que levou Jair Bolsonaro à Presidência. Apesar do sufoco que levou de Márcio França, venceu. Quatro anos antes, o mineiro Aécio Neves (PSDB) por pouco não derrotou Dilma Rousseff (PT) com a dianteira de 7 milhões de votos conquistada em São Paulo – o Estado ergueu uma muralha para o PT, mas o tucano perdeu “em casa”.

Na campanha de 2018, João Doria usou o nome de Bolsonaro para ganhar apoio do eleitorado conservador | Foto: Divulgação/João Doria/Instagram

O peso do eleitorado paulista explica por que Jair Bolsonaro tem se empenhado há meses em pavimentar a candidatura do ministro Tarcísio Gomes de Freitas (Infraestrutura). Bem avaliado pela faixa mais conservadora, Tarcísio ganhou fama de “tocador de obras”. Agrada ao mercado financeiro e à iniciativa privada por sua agenda liberal, especialmente com relação às concessões e às privatizações. Além disso, é politicamente discreto.

Tarcísio deixará o ministério no dia 1º de abril, depois do leilão de quatro terminais portuários. Passará o cargo para Marcelo Sampaio, o número dois da pasta. No dia seguinte, já pretende se movimentar pelo Estado. Ele tem mantido reuniões com representantes do agronegócio e da indústria. E gosta de lembrar que iniciou a carreira em Campinas. Sobre a atual administração tucana, diz que “há um esgotamento do modelo”, que passou de mão em mão dentro do mesmo grupo político.

A opção tucana

Paralelamente, outros três nomes se movimentam. O primeiro deles é o atual vice-governador, Rodrigo Garcia. Ele assumirá o Palácio dos Bandeirantes até o dia 2 de abril, segundo João Doria. “Deixo o governo em boas mãos”, disse, na última quarta-feira, 16. “Nas mãos de Rodrigo Garcia, meu vice-governador, um grande colaborador, um vice que me dá orgulho.”

Garcia filiou-se ao PSDB no ano passado. Seu principal trunfo é um caixa de quase R$ 30 bilhões — dois terços destinados só para obras, uma forma de oferecer contraponto ao perfil de Tarcísio. Nos próximos meses, não faltará cimento nas estradas que ligam a capital ao interior, além de quatro linhas do Metrô em andamento e mais uma tentativa de despoluição do Rio Pinheiros.

Segundo dados da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), as finanças de São Paulo vão bem. Os setores de informação/tecnologia, saúde privada, transporte, armazenagem e construção civil respondem hoje por 60% do PIB estadual. O agronegócio também teve desempenho positivo. O segmento é responsável por 13% da economia paulista e 23% dos empregos — é o maior produtor mundial de suco de laranja, açúcar e etanol. É importante ressaltar que o sucesso também se deve ao bom pagador de impostos: a arrecadação do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) é recorde, na esteira das tarifas de combustíveis e energia, com um aumento de 20%.

São Paulo detém ainda o maior porto, em Santos, com quase 150 milhões de toneladas transportadas por ano — majoritariamente contêineres de soja e fertilizantes. E também o principal aeroporto, em Guarulhos, com cerca de 25 milhões de passageiros em 2021, fluxo que era ainda maior antes da pandemia. Ambos estão em processo de expansão.

Pesa contra Garcia a rejeição ao governador João Doria durante a pandemia, quando a população passou a sofrer no bolso os efeitos do #FiqueEmCasa, promovido pelo gabinete de tecnocratas da covid. Outro ponto é o fato de o vice de Doria ser um político absolutamente desconhecido. Ele até chegou a presidir a Assembleia Legislativa, mas o eleitor médio não sabe nem qual a função de um deputado estadual. Na campanha, rivais também vão emparedá-lo com as denúncias jamais explicadas de desvios de dinheiro público em trechos do Rodoanel.

A equação da esquerda

O PT também já tem o seu candidato: será o ex-prefeito Fernando Haddad, o escolhido de Lula. Contudo, se não houve disputa interna no PT desta vez, é fora dela que a equação parece complexa. A esquerda tem outros dois nomes: o líder do MTST, Guilherme Boulos (Psol), que teve desempenho expressivo na disputa municipal, e Márcio França (PSB). O cenário ideal para os petistas é que França concorra ao Senado — posto para o qual a sigla não tem candidato.

França aposta suas fichas no recall da última eleição estadual, quando perdeu por 700 mil votos. Aposta também no futuro da engenharia de Geraldo Alckmin, de quem foi vice e agora deve ser companheiro no PSB. Assim como o ex-tucano, ele é adversário de Doria. Se persistir na disputa, será mais um palanque de Lula no Estado.

O Novo lançou como candidato a governador o deputado federal Vinicius Poit, que encerra o mandato na Câmara como um dos destaques da bancada. A prioridade da sigla, contudo, é conseguir de três a quatro cadeiras na Casa — além de Poit, atualmente detêm mandatos Adriana Ventura e Alexis Fonteyne. O vereador Fernando Holiday, um dos mais votados em 2020, também vai concorrer pela legenda.

E o Senado?

Caso a opção de França seja o Senado, a queda de braço será com Janaina Paschoal (PRTB). Não está claro ainda se a deputada estadual será a representante do campo bolsonarista na corrida. Outro nome que tem boa adesão é o da deputada Carla Zambelli (PL). Aliados do presidente, porém, alertam: como só há uma vaga em jogo, se as duas dividirem o eleitorado, quem ganha é a esquerda. Janaina afirma que não vai desistir.

Pesa contra Garcia a rejeição ao governador João Doria durante a pandemia, quando a população passou a sofrer no bolso os efeitos do #FiqueEmCasa

Atual dono da cadeira, o PSDB não definiu quem será o seu representante. José Serra afastou-se do mandato por problemas de saúde. O suplente, José Aníbal, é considerado carta fora do baralho por ter feito campanha para o gaúcho Eduardo Leite nas prévias contra Doria. Uma das possibilidades à mesa é oferecer a vaga a um partido aliado. Até o nome do apresentador José Luiz Datena (União Brasil) foi noticiado pela imprensa, mas ele costuma recuar.

Na semana passada, Datena abordou o assunto em seu programa na TV Bandeirantes. “Fui procurado pelo Tarcísio (Freitas) para ser candidato ao Senado”, disse. “E ‘meto o pau’ no governo todo dia. Fui procurado pelo Rodrigo (Garcia) para ser candidato a senador. E ‘meto pau’ no governo todos os dias. Fui procurado pelo Ciro (Gomes), que não governa nada, para ser candidato a vice”.

Rodrigo Garcia ainda tentou dizer que a opção era séria: “Datena entende e tem a sensibilidade necessária para lutar pelos interesses da população de São Paulo no Senado”, afirmou. “Tê-lo ao meu lado só engrandece nossa coligação”.

Também foram citados em pesquisas recentes o empresário Paulo Skaf (MDB), ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), e os deputados estaduais Ricardo Mellão (Novo) e Heni Ozi Cukier (sem partido).

Filiada ao PTB, a médica Nise Yamaguchi afirmou que vai concorrer ao Senado. Outros aparecerão, mas a procura maior é pelas 70 cadeiras disponíveis na Câmara e mais 94 na Assembleia. São cargos para o Legislativo cujas proporções também formam um verdadeiro país.

Palácio dos Bandeirantes | Foto: Divulgação/Governo de São Paulo

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14 comentários Ver comentários

  1. Surreal ainda vermos Haddad no cenário. Tanto quanto a caneta da de Fachin. Tudo graças à ineficiência da câmara dos deputados e dos senadores que não levam a sério coisas sérias, como os pedidos de impeachment dos super ministros do STF.

  2. Meu voto será de Tarcísio.Sao Paulo merece um governador melhor do que teve nos últimos anos.Eh nossa esperança, quem carrega o maior estado da União com muito trabalho é o povo paulista.

  3. Se SP já tem essa enorme diferença do resto do País, governado por Tarcísio, sem corrupção, vai turbinar…. agora, se os paulistas quiserem tirar o pé, desacelerar, para acompanhar o resto do Brasil, votem numa das tres opções da esquerda (pt, psol ou psb)!

    1. Oldemiro, concordo. É só lembrar das obras prometidas para a copa (na cidade de São Paulo, é só desembarcar em Congonhas, linha de metro que iria do Morumbi ao Jabaquara, passando pelo aeroporto interligando com alinha azul, 1,….cadê?).

    1. Partido novo, se acompanharmos, desde de vereadores até deputados , o caminho que eles estão fazendo em não usar o dinheiro público para seus deleites , me agrada muito, os outros partidos são os mesmos dos mesmos, dinheiro público no bolso deles ( lícitos mas imoral) enquanto não tiver um basta nestes altos salários, não sobra dinheiro para fazer o que precisa para o povo.

  4. Se eu votasse no estado de São Paulo e não aqui em Brasília ,o Tarcísio poderia contar com o meu voto ! O estado líder da União precisa urgente de um executor e patriota , não de políticos que não ligam para o que a população necessita !

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